A Alice dos meus sonhos é tão parecida com a Ana do meu palco

A encenadora Marta Dias e a escritora Alice Vieira encontraram-se “demasiado tarde”, mas não tarde de mais. No tempo certo para que a vida e os poemas da escritora dessem origem à peça que estará no Teatro Aberto, em Lisboa, até 30 de Julho.

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MIGUEL MANSO
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Marta Dias fechou-se numa casa em Sintra. Escrevia de manhã, passeava à tarde, voltava para escrever. Não bastava estar fechada numa casa para conseguir mergulhar num mundo que não era seu, e ainda não sabia ao certo a quem pertencia.

Pegar na vida dos outros traz grande responsabilidade. Marta carrega o “peso bom” da obra e da vida de Alice Vieira, com a qual sonhou e que quis transportar para os palcos. Esta quinta-feira tem a peça Toda a Cidade Ardia em estreia no Teatro Aberto, e o coração nas mãos à espera que a escritora a veja. Marta só conseguiu escrever o guião – que cola os poemas, as histórias e as entrevistas de Alice Vieira – quando deixou de chamar Alice à personagem principal. Chama-se Ana e não é Alice Vieira. O marido chama-se Alexandre e não é Mário Castrim. O primeiro namorado e segundo companheiro chama-se Alexandre para não ser Mário Pinto.

Alice e Marta encontraram-se “demasiado tarde”, diz a encenadora. A sua juventude passou ao lado da obra da escritora. Pouco tinha lido de Alice até encontrar, há dez anos, o livro Dois corpos tombando na água numa mesa à boca de cena. Pediu a João Lourenço, director artístico do Teatro Aberto, que lho emprestasse. E mergulhou. Ficou “apaixonada por tudo”. Como podia haver quem, como ela, não conhecesse aquela “magia”?

Depois, leu quase tudo da autora. “Lia Alice e mais me apaixonava." Encontrava pontos de encontro consigo, tão universal é a obra da jornalista que se fez escritora (ou vice-versa), diz. Com especial carinho, “delirava” com os poemas. Durante anos matutou na ideia de os encenar – “Alguém tinha de o fazer”. Quando lhe perguntavam que peça ambicionava dirigir, Marta, que se estreou como encenadora em 2012, falava naquela “ideia maluca”. “Gostava que estes poemas fossem para o mundo." Mas não queria ficar agarrada à reportagem ou ao documentário – muito menos à biografia. Então, começou a colar: as entrevistas, os poemas e os livros, em especial Os Armários da Noite, Eu Bem Vi Nascer o Sol e O Que Dói às Aves.

Absorveu tudo de Alice e depois largou-a. Tinha vindo a “requisitar” os actores ao longo dos anos, a oferecer-lhes os livros de Alice, e escreveu para eles. Escrevera para uma Ana Guiomar na pele de uma Ana nova, para Sílvia Filipe como Ana mais madura, para um Alexandre que é António Fonseca e um outro Alexandre que é Vítor d'Andrade.

O caminho alimentado por uma paixão de dez anos termina nesta peça que ficará em cena até 20 de Julho e em que Marta “abre as coisas” para contar uma história e ao mesmo tempo falar sobre aquilo que a tortura. Andou atrás dessa universalidade da obra de Alice e atrás do tempo. Afinal, “as coisas mudam e os velhos morrem”, mas nenhum tempo matou a Paris do Maio de 68, quando a cidade ardeu e as paredes se pintavam com as palavras da revolta dos estudantes, nem nenhum tempo matou o fim de Abril quente de 1974 em Lisboa, quando Portugal reconquistou a liberdade.

O percurso de Ana é por essas cidades que, como ela, ardem.

Ser outros

Somos a Ana, a pequena, e começam os dias dos anos 50 em que “não sabíamos que íamos ser outros no dia seguinte" ("ou até já o éramos”). Já adivinhávamos que não eramos boa companhia para ninguém, porque acreditávamos no que as tias velhas contavam nos cochichos às vizinhas. Vivíamos com o cheiro a naftalina e a rosas secas e as tias que não nos eram nem mãe nem pai. Sem gente da nossa idade com quem brincar, só tínhamos livros com quem crescer. Então escrevíamos textos que íamos lembrar para sempre, mas acabámos por esquecer. Não são assim todas as crianças com cadernos com cadeado e palavras na ponta dos dedos?

Ana, crescida, vê-se largada no mundo “cheio de tão frágeis certezas”. Via-se nessa idade em que tudo acontecia pela primeira vez, os 20 anos, em Paris, onde tudo ardia. Cheia de interrogações que a alma curiosa e a revolta não a deixavam parar de fazer. Passa-se o mesmo com Marta Dias e é aí que se encontra com a escritora. E por isso está na peça tudo quanto está na obra de Alice: a busca de um Portugal melhor e a tentativa de o viver lá fora. Está lá a crise das pessoas e do jornalismo. A Revolução dos Cravos, a família, os netos e a morte. Está lá o amor em todas as fases da vida, em todas as formas. Da paixão, da esperança e da desilusão.

Toda a peça é uma desconstrução em que só o tempo não se deforma. E é parte da vida de Alice Vieira, como poderia ser parte da nossa, que se desenrola em palco.