Quem são as vítimas mortais do incêndio de Pedrógão Grande

O último balanço aponta para 64 mortos e 204 feridos. Atrás dos números, há as histórias de quem morreu numa das maiores tragédias de que há memória em Portugal.

Daniel Rocha
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Daniel Rocha

Gonçalo Conceição é a única vítima mortal do incêndio de Pedrógão Grande cujo nome é público. As autoridades nacionais ainda não revelaram a identidade de nenhumas das 63 pessoas que perderam a vida na noite de sábado para domingo, na zona centro do país. Há, no entanto, 32 corpos identificados pelo Instituto de Medicina Legal — que concluiu todas as autópsias nesta quarta-feira. A Polícia Judiciária diz ter identificado 39 vítimas mortais, mas fonte do Ministério da Justiça explicou ao PÚBLICO que esta diferença se deve ao facto de ainda faltar um exame minucioso a sete corpos, a ser conduzido também pelo Instituto de Medicina Legal e para determinar com exactidão a identidade das vítimas. Autopsiar e identificar um corpo são processos distintos.

Apesar de não terem sido divulgados publicamente os nomes das vítimas mortais já identificadas, as identidades de algumas delas estão a ser reveladas através da comunicação social. O PÚBLICO reúne as histórias das vítimas do incêndio que já consumiu cerca de 30 mil hectares de floresta.

Lígia Sousa, Sérgio Machado, Martim, Bianca

Uma família, natural de Sacavém, estava desaparecida desde sábado e a família e os amigos recorreram às redes sociais para tentar encontrá-los. Lígia Sousa e Sérgio Machado, os pais, estavam de férias com os filhos Martim e Bianca, de dois e quatro anos, em Castanheira de Pera. Foram encontrados sem vida dentro do carro na EN263-1. Os corpos foram identificados, na segunda-feira, pela Polícia Judiciária.

Rodrigo, Sidel

A criança de quatro anos foi uma das primeiras vítimas conhecidas. Rodrigo seguia no carro com o tio, Sidel Belchior, numa estrada em Pedrógão Grande. A viatura esteve envolvida num pequeno embate, em Nodeirinho, e a situação ter-se-á complicado devido à queda de duas árvores em chamas que bloquearam o caminho e impediram que tio e sobrinho escapassem ao incêndio, informa o Jornal de Notícias. Rodrigo estava a cargo dos tios enquanto os pais se encontravam de lua-de-mel.

Afonso Lopes Conceição

Na EN263-1, o carro de Sidel Belchior colidiu com o de Afonso Lopes Conceição, um emigrante em França que tinha ido a Nodeirinho passar as férias de verão com a família. Afonso, de 76 anos, seguia no automóvel com a mulher, que conseguiu escapar. O corpo do homem foi encontrado carbonizado não muito longe da casa que o casal mantinha na aldeia, segundo o Observador

Gina, Bianca e avó

Ainda na aldeia de Nodeirinho, uma avó e uma neta estão entre as vítimas mortais já identificadas. Bianca, de quatro anos, e a avó morreram quando tentavam fugir de carro. Na viatura também se encontrava a mãe da criança, Gina, que saiu do veículo e tentou procurar ajuda. Segundo o Observador, Gina acabou por morrer no hospital, onde deu entrada com queimaduras graves.

Gonçalo Conceição

Deste incêndio não resultaram apenas vítimas civis. O presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, Jaime Marta Soares, deu conta da morte de Gonçalo, um bombeiro que se encontrava hospitalizado no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra. “Efectivamente, os bombeiros portugueses estão de luto [...] já estavam de luto por aquilo que aconteceu a tantas pessoas que pereceram neste brutal incêndio. Agora choramos a morte de um dos nossos", afirmou aos jornalistas. Marta Soares explicou que o bombeiro tinha sido internado com ferimentos no rosto e queimaduras nas vias aéreas. Deslocava-se numa viatura da corporação que colidiu com um veículo ligeiro no IC8. Era casado e deixa um filho.

Suzana Marques Pinhal, Joana Pinhal e Margarida Pinhal

Quando o fogo começou a deflagrar em Pedrógão Grande, esta família da Póvoa de Santa Iria decidiu fugir: Mário entrou num carro com os pais e a madrinha, e Suzana entrou com as filhas noutro automóvel. A mulher e as filhas morreram por inalação de fumos. “A Suzana, a Joana e a Margarida morreram na estrada. A mesma onde andei também eu para a frente e para trás ao longo de uns 500 metros. Vi carros desfeitos, fiz marcha atrás, mas abalroaram-me. Vi uma pessoa a abandonar o carro com o cabelo a arder, a roupa a arder. O carro que nos tinha abalroado ficou em chamas. No carro onde estava, os retrovisores começaram a derreter. Quando conseguimos sair, já estavam os carros todos a arder. Os pneus explodiam. Acho que fomos os únicos quatro sobreviventes daquele monte de carros ardidos. Infelizmente... Devia tê-las fechado dentro de casa”, recordou ao PÚBLICO. Mário, os pais e a madrinha sobreviveram com queimaduras de segundo e terceiro graus. 

Aurora, Manuel, Fernando e Arminda 

Aurora e Manuel viviam em Monte Abraão, Queluz, mas decidiram ir com o filho, Fernando, um maquinista da Comboios de Portugal (CP) recém-reformado, de 60 anos, e com a mulher, Arminda, passar uns dias na terra que os viu nascer. Foram apanhados de surpresa pelas chamas e fugiram de carro. Chegariam a morrer no interior da viatura, cercados pelo fogo.

Felismina

O Jornal de Notícias avançou que Felismina, uma mulher de 82 anos, morreu por ter decidido ficar dentro de casa, em Avelar, em vez de fugir com a vizinhança. Os vizinhos garantem que a casa foi consumida pelas chamas.

José Maria, São Graça

José Maria e São Graça morreram quando tentavam fugir do incêndio, relata o Jornal de Notícias. Quando o fogo chegou à aldeia, os vizinhos tentaram convencê-los a não fugir para a Bobadela (Loures), onde viviam, mas o casal pegou no carro e seguiu pela “estrada da morte”. Foram encurralados pelo fogo e morreram.

Manuel André Almeida, Maria Cipriano

Maria Cipriano, conhecida pelos amigos como "dona Bia", era natural de Vale de Vargo, em Serpa. Manuel era natural de Góis e mantinha lá uma colectividade. No último sábado, o casal foi até Góis para um almoço com outros membros dessa associação. Mas quando regressavam à Amadora, a estrada em que seguiam foi encurralada pelo fogo. Morreram os dois. Os corpos estão agora na morgue do Instituto de Medicina Legal de Coimbra, de acordo com o Observador

Cristina Costa, Eduardo Costa

Cristina e Eduardo Costa, residentes na Pontinha, Odivelas, juntam-se ao número de vítimas mortais do incêndio em Pedrógão Grande, tendo sido surpreendidos pelas chamas também na EN-236. O casal tinha ido passar o fim-de-semana à localidade com a mãe de Eduardo Costa, que conseguiu sobreviver à tragédia. Cristina e Eduardo deixam dois filhos, um de 20 e outro de 24 anos. 

Fernando Rui Mendes Silva, mulher e o filho, Luís

Fernando Rui Mendes Silva, um engenheiro civil da Câmara Municipal de Castanheira de Pera de 48 anos, morreu ao lado do filho pequeno, Luís, e da mulher quando foram apanhados pelas chamas da estrada nacional 236. O Jornal de Notícias diz que os três poderiam estar acompanhados por mais familiares. Fernando era funcionário da câmara desde 2005, depois de ter estudado em Coimbra. Fez parte da Direcção-Geral da Associação Académica de Coimbra e era fã de fotografia e artes plásticas, segundo o Jornal de Notícias.

Manuel Bernardo e Maria Odete dos Santos

Um casal com idades próximas dos 60 anos, Manuel Bernardo e Maria Odete dos Santos, tinham ido à aldeia passar o fim-de-semana com familiares. Despistaram-se à saída durante a fuga das chamas, sendo que no local ainda se encontra o carro em que morreram.

Eliana Damásio, António Nunes, Nélson, Paulo Silva

Na tentativa de abandonar a aldeia num carro que deixaram próximo do cemitério, Eliana Damásio, de 38 anos, e o marido António Nunes, de 41 anos, o irmão deste, Nélson, 33 anos, e um amigo, Paulo Silva, de 36, morreram asfixiados pelo fumo, de acordo com o Observador

Miguel Costa, Ana Mafalda Lacerda, António, Joaquim, Fausto, Lucília

Miguel Costa, advogado, e a arquitecta Ana Mafalda Lacerda estavam em Várzea, junto a Pedrógão Grande, com os filhos, António e Joaquim com seis e quatro anos, respectivamente. A família estava a preparar-se para almoçar com o avô, Fausto Costa, e a madrasta de Miguel, Lucília Simões. Para não ser atingida pelo fogo, a família fugiu de automóvel em direcção à EN-236, estrada onde a maioria das vítimas morreu. A casa onde a família se encontrava acabou por não ser destruída pelas chamas.