Opinião

O que dizem os dirigentes chineses, segundo Albano Nunes

Para os que continuam a lutar pelo socialismo encontrar respostas é fundamental. Tapar com uma espécie de peneira ideológica a realidade perdendo a humildade revolucionário de ter de aprender a recomeçar o projeto e não repetir os mesmos erros.

Há cem anos, a revolução russa mudou o mundo levando a amplas massas populares a confiança num outro mundo sem exploração capitalista.

Só um ideal com um tal grau de atração podia fazer sucumbir o velho poder czarista numa Rússia a braços com uma tremenda crise agravada com a entrada na primeira grande guerra mundial.

O decreto sobre a paz retirando a Rússia da guerra mundial, a participação dos trabalhadores, da intelectualidade progressista, dos soldados e dos marinheiros nas grandes decisões políticas foram medidas, entre muitas outras, que permitiram ao novo poder defender-se do cerco brutal a que foi sujeito.

À medida que foi perdendo esse apoio, perdeu força e as estruturas do partido e do Estado afastaram-se da vida das pessoas.

O PCUS tornou-se num partido para a nomenclatura fazer carreira, elogiando os de cima para lá chegar e recitando a cartilha ideológica como se fosse uma catequese; a dogmática prevalecia sobre tudo.

A teoria marxista estiolou. Era uma bengala para o poder tentar afirmar a legitimação à falta da soberania popular.

Era o tempo em que o Kremlin pensava que podia, de cima do seu poder, encurtar o tempo e criar o tal homem novo. As atoardas ideológicas, vistas a esta distância, serviram para justificar um poder que se serviu da intimidação – subtil e expressa –  e na repressão, apodando quase sempre os opositores de traidores à pátria.

O PCUS detinha o poder porque o herdou para todo o sempre, defendiam os seus dirigentes.

Esta conceção foi abandonada na perestroika, mas já não a tempo de evitar os museus da arqueologia ideológica de fachada marxista.

Albano Nunes, dirigente histórico do PCP declarou ao “Público” de 16 de junho: “O Partido Comunista tem de ter um papel dirigente, naturalmente ao lado de outras forças políticas (…) nós não defendemos o regime de partido único…”

Como pode o Partido Comunista estar ao lado, se tem de dirigir? Nos anos cinquenta os partidos comunistas no poder e que “tinham de ter” esse papel, como resolveram o problema? Quando os outros se opunham, ou se iam opondo, eram ilegalizados por negarem esse papel dirigente “inerente” a qualquer Partido Comunista.

Em que consiste o papel dirigente do Partido Comunista e por que razão “tem de ter” esse papel? Um partido comunista é, no plano do poder, o resultado da sua força eleitoral e social, no contexto de uma determinada conjuntura internacional, pois não se pode esquecer o veto dos EUA e da NATO à participação governamental do PC Italiano no governo, tendo sido assassinado Aldo Moro para evitar custasse o que custasse essa hipótese.

O papel dirigente PCUS significou que ele dirigia tudo: o restaurante e a aeronáutica, a lavandaria e a produção de aeronaves, a junta de freguesia e o Estado multinacional que era a URSS.

Esse modelo foi derrotado. Com essa derrota não se acabou o projeto socialista. Porém, aquele não é o caminho, como se viu.

Nessa entrevista refere Albano Nunes abordando a situação chinesa: “Os dirigentes chineses afirmam o processo de construção do socialismo, considerando que estão na fase inicial e que, portanto, precisam de desenvolver as forças produtivas para, depois, sobre ela assentar a construção da nova sociedade. Neste processo de desenvolvimento das forças produtivas e da inserção da China na divisão internacional do trabalho que surgem interrogações e contradições que observamos com máxima atenção…”

Esta passagem da entrevista merece reflexão. Basta que os dirigentes chineses digam o que dizem para se dever considerar que a China está a construir o caminho do socialismo? Para alguém que “observa” o processo chinês com a “máxima atenção” será assim tão difícil perceber o que se está, de facto, “a construir” hoje na China?

No que concerne às relações laborais dos trabalhadores chineses vale a pena ter presente os horários de trabalho, os períodos de férias, as condições de trabalho e até a liberdade sindical.

Quanto à propriedade dos meios de produção, será que os poderosos bilionários que já podem militar no PC da China, amigos dos nossos Mexia e Catroga, “estão a construir o socialismo, a tal sociedade nova”?

Quantos mais bilionários houver na China mais socialismo haverá!  Ou seja: na exata sintonia da “escola de Chicago”, segundo a qual os ricos deviam ser ainda mais ricos porque a riqueza que possuíam havia de escorrer pela pirâmide social que se criara!... Será assim tão difícil perceber que o “socialismo” chinês se rendeu aos fundamentos básicos do capitalismo neoliberal?

Pode perceber-se que se o socialismo fosse caracterizado por haver um partido dirigente, a China era naturalmente um país socialista, mesmo observando com uma atenção mediana…

Na China, qualquer grupo de cidadãos chineses pode criar um partido político ou só são admitidos (se é que o seriam) os que aceitam a direção do P C da China?

Talvez por isso Albano Nunes, observando com máxima atenção, coloque na boca dos dirigentes chineses aquilo em que ele transmite como sendo uma realidade. A ideia aplicada analogicamente à Coreia do Norte vale no mesmo sentido, pois os norte-coreanos afirmam que estão a construir o socialismo …

Há algo difícil de compreender num partido tão cheio de história e com páginas heroicas que haja militantes que teimem na ideia que aquele modelo, aquela fórmula de partido dirigente não se acabou.

Albano Nunes afirma que o capitalismo vive uma crise e que tem contradições insolúveis. É verdade. Mas os socialismos com os seus partidos dirigentes entraram em crise e sucumbiram ou se transformaram naquilo que renegavam. Porquê?

Para os que continuam a lutar pelo socialismo encontrar respostas é fundamental. Tapar com uma espécie de peneira ideológica a realidade perdendo a humildade revolucionário de ter de aprender a recomeçar o projeto e não repetir os mesmos erros.

Eram tantos os sabichões na URSS que se especializaram em marxismo e em marxismo-leninismo e que traziam debaixo do braço enciclopédias a certificar o caráter imorredoiro do partido que quase nem se aperceberam que foram derrubados por camaradas seus travestidos de democratas de última hora, outrora quadros excelentes e outros altamente promissores com provas dadas no Komsomol leninista com os seus vinte cinco milhões de membros.

A envergadura mundial da Revolução de Outubro reclama mais humildade, mais pensamento criativo, mais coragem teórica; inclusive, para deixar cair o que se revelou sem cabimento. Menos prosápia. Tanto mais quanto o capitalismo não é capaz de dar uma resposta satisfatória e adequada às aspirações humanas.