Como os gatos conquistaram o mundo e foram domesticados

Estão por todo o lado, excepto na Antárctida e nas regiões mais isoladas. Agora uma equipa de cientistas fez uma análise genética a mais de 200 exemplares de gatos e percebeu que o gato doméstico tem duas linhagens: uma vinda do Próximo Oriente e outra do Antigo Egipto.

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Paulo Ricca/Arquivo
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Representação de um gato no Antigo Egipto Creative Commons
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Mandíbula de um gato com cerca de 2300 anos Eva-Maria Geigl
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Um dos investigadores com uma múmia de gato do Antigo Egipto Wim van Neer
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Wim Van Neer, um dos autores do trabalho, na expedição Hierakonpolis Expedição Hierakonpolis

Trepam às árvores e atravessam a escuridão da noite. Tudo para mostrar independência. Mas depois ronronam carinhosamente, miam por mais leite ou aconchegam-se no sofá. Os gatos domésticos (de seu nome científico Felis silvestris catus) invadiram a nossa sociedade e entraram na nossa cultura. É o gato que brinca na rua num poema de Fernando Pessoa ou o astuto Gato das Botas do escritor francês Charles Perrault. Mas se estão tão presentes na nossa vida, de onde veio esta ligação? Muitos estudos têm tentado decifrar como aconteceu a domesticação dos gatos, mas surgiu agora um novo trabalho na última edição da revista Nature Ecology & Evolution que confirma que os gatos domésticos vieram de duas linhagens: uma do Próximo Oriente e outra do Antigo Egipto. Tudo começou há cerca de nove mil anos.

A domesticação dos animais foi um dos maiores saltos para a história da nossa espécie, como o afirma a zooarqueóloga Juliet Clutton-Brock (1933-2015) no livro História da Domesticação dos Mamíferos, de 2002 (na edição portuguesa). O primeiro destes saltos foi quando os humanos aprenderam a fazer ferramentas e a manipular o fogo. Assim conseguiram sobreviver ao frio do Norte da Europa e da América na última glaciação. Também por esta altura, o Homo sapiens, a nossa espécie, começou a conviver com os lobos, que viriam assim a originar o cão doméstico.

“O cão foi o primeiro animal a ser domesticado, já durante o Paleolítico”, diz ao PÚBLICO a portuguesa Sílvia Guimarães, uma das autoras do estudo e, na altura do trabalho, investigadora no Instituto Jacques Monod, em Paris. De acordo com Juliet Clutton-Brock, o primeiro vestígio de um cão doméstico já morfologicamente diferente do lobo é uma mandíbula com cerca de 14 mil anos, encontrada numa gruta do Paleolítico Superior, em Oberkassel, na Alemanha. Mas onde e quando surgiu o cão doméstico? Se alguns estudos genéticos apontam o Leste da Ásia há cerca de 15 mil anos, outros indicam o Sudeste da China há 16 mil anos. Também tem sido mencionado o Médio Oriente. Em conjunto, estes resultados sugerem que várias populações de lobos podem ter sido domesticadas em diferentes locais ao mesmo tempo.

Ora bem, outro segundo salto na nossa evolução social foi mesmo com o cultivo de plantas e a domesticação dos animais. O que é então um animal doméstico? Juliet Clutton-Brock define-o assim: “Um animal que se pode reproduzir em cativeiro com o fim de lucros económicos para uma comunidade humana que mantém o controlo total sobre a sua reprodução, organização do território e alimentação.” E essa reprodução em cativeiro conduziu à redução do tamanho do corpo do animal e a um comportamento mais social (com excepção dos gatos, claro). Os bichanos, como são conhecidos, podem ser carinhosos ou mais selvagens. Por fim, o terceiro grande salto foi com a industrialização que ainda vivemos hoje em dia.

Voltemos aos saltos do gato: “Sobre a domesticação dos gatos, os nossos resultados indicam que foi um processo bastante complexo e longo que começou no Neolítico”, salienta Sílvia Guimarães.

O mais antigo está em Chipre

Façamos então uma viagem pela nossa relação com os gatos. O vestígio mais antigo de um gato em contacto com os seres humanos foi encontrado em Chipre. Em Shillourokambos, um sítio arqueológico no Sul do Chipre, foi descoberto um esqueleto de um gato com cerca de 9500 anos enterrado perto de uma sepultura de um ser humano.

Sílvia Guimarães explica que como não foram encontrados mais esqueletos na ilha, este gato deve ter sido transportado pelos primeiros agricultores para lá. Mas era já domesticado? “Esta é a primeira indicação de que uma relação especial entre gatos e humanos estava a ser formada. Mas este gato não era certamente domesticado, talvez fosse adoptado [convivia com as pessoas sem ser domesticado]? Não temos a certeza”, responde.

em 2013, a revista Proceedings of the National Academy of Sciences divulgou que tinham sido encontrados pelo menos dois gatos numa escavação arqueológica no Noroeste da China. Foram datados oito ossos desses gatos por radiocarbono e soube-se então que esses ossos tinham cerca de 5300 anos. Contudo, na altura, Fiona Marshall, uma das autoras do trabalho, dizia que não havia provas suficientes para se saber se esses gatos eram descendentes do gato selvagem do Médio Oriente e se tinham tido um papel na domesticação dos gatos.

Onde surgiu então a sua domesticação? Sabe-se que o gato selvagem (Felis silvestris) está distribuído pelo Velho Mundo. Um estudo de 2007 na revista Science, que teve como principal autor Carlos Driscoll (do Laboratório de Diversidade Genómica do Instituto Nacional do Cancro, nos EUA), referia que há cinco subespécies de Felis silvestris distribuídas por África e pela Euroásia: o Felis silvestris silvestris (o gato-selvagem-europeu), o Felis silvestris lybica (gato-selvagem-do-próximo-oriente); o Felis silvestris ornata (gato-selvagem-da-ásia-central); o Felis silvestris cafra (gato-selvagem-da-áfrica-subsariana); e o Felis silvestris bieti (gato-chinês-do-deserto). E o que se concluiu foi que a subespécie Felis silvestris lybica, do Próximo Oriente e de África, foi a única a ser domesticada e que contribuiu para o património genético dos gatos domésticos, como frisa Sílvia Guimarães.

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Esqueleto de gato com cerca de seis mil anos no Antigo Egipto Expedição Hierakonpolis

Agora a equipa coordenada por Eva-Maria Geigl, do Instituto Jacques Monod, tomou o estudo de 2007 como ponto de partida. Analisou então o ADN mitocondrial de 209 gatos, indo desde há cerca de dez mil anos até ao século XX. O ADN mitocondrial é um bocadinho de ADN transmitido pela mãe e está fora do núcleo, nas mitocôndrias (as chamadas “baterias das células”). Como cada célula possui centenas de mitocôndrias, esse ADN é muito mais abundante do que o resto do material genético (o ADN do núcleo), o que facilita a sua extracção e análise. “Reconstituímos a estrutura filogenética das populações de gatos selvagens do Velho Mundo através da análise do ADN mitocondrial: e descobrimos que, antes da intervenção humana, a distância genética entre as várias populações de gatos selvagens estava correlacionada com a distância geográfica”, explica a investigadora portuguesa.

“Isto permitiu-nos fazer a reconstituição de como os gatos foram movidos pelos humanos no tempo e no espaço e demonstrar que os gatos do Próximo Oriente (durante o Neolítico) e do Egipto (durante o período clássico ou romano) contribuíram para a base genética dos gatos domésticos modernos.” E destaca que, pela primeira vez, se conseguiu fazer a reconstituição espacial a domesticação dos gatos desde o Neolítico.

Jogo do gato e do rato no Neolítico

Continuemos então com a mochila do ADN às costas e façamos uma viagem genética pelos caminhos da domesticação do gato. Primeira paragem: Próximo Oriente, durante o período Neolítico, há cerca de nove mil anos. A partir daí, os gatos começaram a espalhar-se pelo mundo quando os primeiros agricultores do Crescente Fértil começaram a ir para a Europa, há cerca de seis mil anos. “Pode ser considerada uma indicação de que foram transportados pelos humanos, seja por barco ou por terra”, indica a investigadora. E começava já o jogo do gato e do rato: os gatos terão sido usados para controlar os roedores.

A equipa conseguiu agora perceber esta expansão através de uma linhagem do ADN mitocondrial do Felis silvestris lybica (a linhagem IV). No estudo de 2007 já se tinha demonstrado que duas sublinhagens (a IV-A, que representa a contribuição do Próximo Oriente, e a IV-C a contribuição africana) eram as mais comuns no gato doméstico.

Embora a linhagem IV-A tenha contribuído para o gato doméstico de hoje em dia, naquela altura ele ainda não era um animal doméstico. Já havia um contacto com os seres humanos numa relação de comensalismo: os humanos davam-lhe comida e ele caçava os ratos. Mas não existia ainda um controlo da reprodução dos gatos, frisa Sílvia Guimarães.

Caminhemos agora para o Antigo Egipto, é aqui que encontramos a sublinhagem IV-C. Terá surgido no Egipto, espalhou-se ao longo do rio Nilo e foi-se estendendo até ao Congo ou ao Burundi. Fora de África, do século VIII a.C. até ao século V d.C. (período da Antiguidade Clássica), foi encontrada em países como a Bulgária, Jordânia e Turquia. E entre os séculos V e XIII d.C. foi detectada na Europa e no Sudoeste Asiático. Já na Idade Média os gatos da sublinhagem IV-C chegaram ao porto viking de Ralswiek, no Mar Báltico. “Os gatos eram transportados nos barcos para ajudar a combater os ratos. Viajavam para todo o lado”, explica Sílvia Guimarães.

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Um gato a comer peixe na cópia de uma pintura na parede do túmulo de Nakht, em Tebas DR

Voltando ao Antigo Egipto, as múmias de gatos também ajudaram neste estudo. Assim como as representações egípcias dos gatos. Sílvia Guimarães indica que, por exemplo, a representação do “gato debaixo da cadeira”, mostra que no Antigo Egipto os gatos eram “companheiros de casa.” “Foi provavelmente nesta altura que os gatos passaram de agentes controladores de pestes a verdadeiros animais de estimação.”

Novo pêlo na Idade Média

Prosseguindo agora só para a Idade Média, foi aí que se observou uma mudança no pêlo. A equipa analisou mutações genéticas pontuais no ADN contido no núcleo das células. Percebeu-se então que ocorreu uma mutação genética recessiva (o que significa que os efeitos da mutação se manifestam apenas quando se herda uma cópia com a mutação de ambos os pais) e que estava associada ao pêlo do gato.

Se o gato selvagem tinha um padrão designado por “malhado listrado”, como se observou na iconografia do Egipto, da Grécia e Roma, na Idade Média, primeiro no Sudoeste Asiático e depois na Europa e em África, os gatos começaram a ter um pêlo agora chamado “malhado clássico” e que é comum nos gatos domésticos modernos. “Isto sugere que a selecção da cor do pêlo ocorreu bastante tarde. Sabe-se que nos cavalos já havia mudanças na cor do pêlo muito cedo no processo de domesticação”, frisa Sílvia Guimarães. 

Dando ainda mais um grande salto e chegando ao século XX, os cientistas analisaram gatos africanos modernos de colecções museológicas, incluindo de Angola. Sílvia Guimarães conta que no estudo de 2007 não se analisaram gatos de África e não se sabia quais tinham sido as linhagens daquele continente. “Observámos que quase todos os gatos selvagens possuíam a linhagem IV-C, que é a mesma que encontramos em múmias egípcias [de gatos]. Por isso, concluímos que a linhagem IV-C é africana”, sublinha.

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Ana Luisa Silva/PÚBLICO

“Não analisámos gatos de Portugal”, informa ainda Sílvia Guimarães. Em Portugal, actualmente há gatos-selvagens-europeus (Felis silvestris silvestris). E qual é o registo mais antigo no país? “Na gruta do Caldeirão, perto de Tomar, temos três espécies da família Felidae – o gato-selvagem, o lince e o leopardo – e talvez uma quarto, o leão”, responde-nos Simon Davis, zooarqueólogo no Laboratório de Arqueociências da Direcção-Geral do Património Cultural. “O problema é distinguir o gato selvagem do gato domesticado.” Em escavações, feitas pelo arqueólogo João Zilhão, encontraram-se vários ossos do gato selvagem do Neolítico e do Paleolítico Superior, segundo Simon Davis, que publicou um artigo sobre isso na Revista Portuguesa de Arqueologia de 2002.

Enquanto os gatos andam por aí a fazer parte das nossas vidas, mesmo que mais ou menos independentes, os cientistas vão continuar a tentar perceber a sua viagem ao longo dos tempos. “É difícil estabelecer o momento preciso da domesticação do gato, porque não foi acompanhada por uma modificação física importante. Se analisarmos os gatos domésticos actuais, eles transformaram-se pouco geneticamente. São muito próximos do gato selvagem, têm apenas as patas mais curtas, mas de resto são bastante parecidos com ele”, explica Sílvia Guimarães, que termina com uma consideração: “Há quem defenda que o gato nunca foi verdadeiramente domesticado.”

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