A reforma de Simba, a estreia de Lucas: Ana Isabel tem um novo cão de assistência

Depois de dois anos de treino permanente, Lucas assume agora a missão de cão de serviço. Trocou a casa de Sónia Silva e Hugo Roby pela de Ana Isabel Gonçalves, para a acompanhar nas deslocações e tarefas do dia-a-dia. “É uma segurança enorme”, diz a vice-presidente da Associação Portuguesa de Neuromusculares

O portão automático do prédio onde vive Ana Isabel Gonçalves abre-se e Lucas segue tranquilo, entre a cadeira de rodas e a educadora canina Sónia Silva. O labrador preto, colete de cão de assistência vestido, oscila entre ver o novo espaço — que será a nova casa —, focar-se na pessoa que segue na cadeira de rodas ou na treinadora com quem tem uma relação visivelmente forte. Chegados à entrada, o primeiro desafio: Ana Isabel, diagnosticada com atrofia espinal tipo II aos 18 meses, tem dificuldade em abrir a pesada porta com um grande puxador vertical. No dia-a-dia, sozinha, pode levar algum tempo a inserir a chave na fechadura e a entrar no hall do prédio no centro do Porto. É apenas uma das muitas tarefas corriqueiras em que Lucas pode fazer a diferença. Estamos em plena sessão de acoplamento, encontro que precede a entrega do cão de assistência à futura dona, e Sónia e Hugo Roby, o casal responsável pelo treino deste animal, percebem imediatamente que o podem ensinar a abrir a porta com a ajuda de um apito próprio e de biscoitos que transportam para onde quer que vão.

Durante dois anos treinaram Lucas para ser o novo cão de assistência de Ana Isabel, de 34. Está na hora de a vice-presidente Associação Portuguesa de Neuromusculares (APN) reformar, oficialmente, Simba. A cadela amarela acompanhou-a em todos os momentos importantes dos últimos 12 anos: mudança de casa, aulas na faculdade, trabalho. “Agora é o descanso merecido, tem muitos quilómetros nas patas”, brinca. Simba já não a acompanha diariamente e vive grande parte do tempo com a sua mãe em Sever do Vouga, de onde Ana Isabel é natural; é mais um membro da família. Cabe agora a Lucas o papel de a seguir para todo o lado, tal como a outra cadela labrador fazia. “As pessoas que já têm cães de assistência são sempre prioritárias” quando se trata de entregar novos animais, explica Hugo Roby, voluntário da associação Ânimas, a responsável pela entrega e treino de Lucas.

Após alguns minutos a estudar a melhor forma de abrir a porta do prédio, Ana Isabel encaminha-se para o elevador. Novo desafio para Lucas — qual a melhor posição a assumir naquele espaço exíguo? —, novo momento de aprendizagem. Chamar o elevador e seleccionar o andar são funções que o cão passa a assumir e ainda nem sequer entramos em casa da jovem licenciada em Direito. Pouco tempo depois de Simba chegar à família, Ana Isabel — que perdeu a marcha aos 12 anos, após uma cirurgia — deixou cair as chaves à porta de casa. “Era uma menina, não conhecia ninguém no prédio e não tinha o traquejo que a idade nos dá. Se estivesse sozinha tinha ficado à espera que alguém chegasse.” Mas Simba apanhou as chaves com facilidade, tal como apanhava o telefone, o comando da televisão, um saco ou uma peça de roupa. “É uma segurança enorme.”

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Lucas explora o prédio e o apartamento ao ritmo da cadeira de rodas eléctrica que permite a Ana Isabel continuar a ser autónoma. A ideia é que o animal faça o reconhecimento por todas as divisões da casa, sinta o cheiro de Simba e comece e interagir com a nova dona. Sónia e Hugo tentam minimizar a sua presença para que Lucas se foque na nova missão. Antes do passeio-piloto pelos jardins do Palácio de Cristal, tempo para um curto treino na sala de estar. Um laser apontado aos interruptores da divisão é suficiente para que o cão acenda ou apague a luz com o focinho. Um biscoito é o reforço positivo nesta fase inicial da relação entre ambos; no futuro, garante Hugo, um sorriso pode bastar. Lucas entusiasma-se com a atenção e apanha até aquilo que ninguém pediu: o comando, o telefone pousado no móvel da televisão, o bloco de notas da jornalista.

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Ter um cão de assistência não é um luxo

Há 12 anos, quando Simba foi entregue, os cães de assistência eram uma novidade. Ana Isabel fazia questão de a levar para todo o lado: transportes públicos, teatros, cinemas, restaurantes, centros comerciais. “No início tinha alguns problemas”, recorda. “Mas eu sempre entrei à grande em todos os sítios. Isto até a lei ser alterada, depois ninguém nos segurava.”

Um curto passeio pelos jardins do Palácio de Cristal — onde a entrada de animais de companhia não é permitida — com a dupla de treinadores e Abílio Leite (voluntário e responsável pela comunicação da Ânimas) revela mais uma situação de desconhecimento. Assim que Lucas passa o portão principal do espaço, com o colete identificativo, é sinalizado por dois funcionários que, contudo, logo percebem tratar-se de um cão de serviço. “É preciso que todos percebam que o cão está a cumprir um trabalho. Faço por isso em todos os contextos”, sublinha.

"Gosto de ser diferente", admite a vice-presidente da APN. "Acho que as pessoas se acomodam um bocadinho à situação em que estão: se há ferramentas que nos podem ajudar, porque não aproveitá-las?” Tenta ser “um bocadinho pioneira em todas as situações” e recusa acomodar-se à incapacidade resultante da doença neuromuscular, que se caracteriza pela perda da força muscular. Usa o comboio para viajar entre o Porto e Espinho, onde a APN tem um centro de atendimento, e Lucas faz agora parte desta rotina. “Desengane-se quem achar que ter um cão de assistência é um luxo. Não é. É preciso disponibilidade para o receber, dar banhos, alimentar, ir ao veterinário”, enumera. Ana Isabel aprendeu toda uma nova linguagem para comunicar com Simba e, agora, com Lucas. E a família também. “Apesar de o Lucas me vir ajudar, sei que também vou precisar de ajudar para cuidar dele. É importante que as pessoas que nos rodeiam estejam envolvidas no processo.”