Antigo vereador do Funchal acusa presidente da câmara de corrupção

Gil Canha integrou a equipa de Paulo Cafôfo que ganhou em 2013 o Funchal ao PSD. Agora acusa-o de ser corrupto, e acena com actas de reuniões camarárias para sustentar as afirmações.

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Não foi a primeira acusação e Gil Canha garante que não será a última. O antigo vereador do Urbanismo de Paulo Cafôfo, presidente da Câmara Municipal do Funchal, acusa o autarca de “corrupção” num caso que envolve um jantar de apoio à candidatura do socialista Francisco Assis ao Parlamento Europeu, em 2014.

Gil Canha disse-o com todas as letras, numa entrevista esta semana ao Diário de Notícias da Madeira. Ao PÚBLICO vai mais longe, desafiando Paulo Cafôfo a levá-lo a tribunal. “Eu sou aventureiro, mas não sou suicida. O que digo, digo com os pés bem seguros”, garante o ex-vereador, dizendo que as pressões a que foi sujeito, para não cobrar o aluguer do Mercado dos Lavradores para o jantar de campanha de Assis, estão em acta e são um caso flagrante de tentativa de corrupção.

“Está tudo em acta, por isso repito: Paulo Cafôfo é corrupto e gostaria que avançasse com um processo contra mim, como já ameaçou fazer noutra ocasião, para eu ter o prazer de apresentar provas”, acrescenta, precisando que o autarca funchalense e o chefe de gabinete insistiram para a autarquia não cobrar os três mil euros relativos ao aluguer do espaço, chegando mesmo a “ameaçar” o funcionário responsável por essa divisão.

Estávamos em Maio de 2014 e a coligação Mudança, onde alinhavam PS e Bloco de Esquerda, ao lado de outras forças políticas como o MPT, o PAN, o PND de Gil Canha e o PTP de José Manuel Coelho, atravessava uma convulsão interna que levaria ao abandono dos dois últimos partidos. Em pano de fundo, estava o cerco à câmara municipal de trabalhadores de um resort turístico na zona Leste da ilha, alvo de uma providência cautelar por parte do PND, por ter sido construído em zona protegida. Exigiam que Gil Canha retirasse o processo judicial de forma a viabilizar o empreendimento.

Foi o primeiro abanão na Mudança. Cafôfo terá mesmo pensado em afastar o vereador do Urbanismo, acabando, na narrativa de Canha, por recuar com receio do impacto que essa decisão teria na opinião pública.

Gil Canha acabaria mesmo por bater com a porta e com estrondo, e explica porquê. “Eu não estava a pactuar com as pressões de grupos económicos, mas a gota de água foi insistir em que qualquer pessoa ou partido que quisesse utilizar os espaços municipais tinha que pagar. Foi aí que o sr. presidente retirou-me o pelouro e eu não tive outra alternativa se não sair”, diz, justificando que os funchalenses elegeram a Mudança porque estavam cansados dos “vícios” do tempo do jardinismo que e todo esse movimento está a ser “atraiçoado”.

Em Janeiro deste ano, Gil Canha afirmou na assembleia regional, onde é deputado independente, que a autarquia estava a desviar verbas dos donativos para financiar a campanha, mas o gabinete de Paulo Cafôfo reagiu dizendo que iria avançar para as instâncias judiciais. Agora, o gabiente de Cafôfo remete-se ao silêncio. O PÚBLICO procurou junto do autarca uma reação, mas sem sucesso.

Revanchismo e obsessão ?

A única resposta às acusações do antigo vereador veio dos partidos que apoiam a recandidatura do independente ao Funchal, agora baptizada de Confiança e reestruturada com o JPP, PDR e Nós, Cidadãos! que, junto com PS e Bloco, compensam as saídas do MPT, PAN, PND e PTP do movimento original.

Em comunicado, assinado pelos líderes regionais dos cinco partidos, com excepção do PS, onde quem assina é o presidente da concelhia do Funchal, a Confiança repudia o que considera serem “declarações difamatórias e inaceitáveis”, que servem um único propósito: “Ferir a imagem e honra pessoal de Paulo Cafôfo”.

Reafirmando um “orgulho imensurável” no presidente da Câmara do Funchal, a coligação acusa Gil Canha de revanchismo e obsessão, e de ter perdido o “discernimento”, remetendo para a população o “único julgamento” que interessa.

Mas o antigo vereador, que em Outubro concorre como candidato pela coligação Funchal Forte, que conta com o apoio do Partido União dos Reformados e Pensionista e do PPM, devolve as acusações. “É natural que digam isso. É como um pai que não quer acreditar que a filha não é assim tão boa rapariga como pensava”, responde, recusando que a candidatura que encabeça seja apenas anti-Cafôfo.

“Nós temos um projecto. Queremos retomar as ideias que tínhamos para a cidade em Maio de 2014”, afirma, rejeitando que as críticas que tem feito ao actual executivo camarário estejam a beneficiar a candidatura do PSD, encabeçada por Rubina Leal. Pelo contrário. Se Miguel Albuquerque é hoje presidente do governo regional, deve-o à forma como a população passou a olhar para a coligação que governa a cidade, depois das rupturas que aconteceram na vereação. “Se não fosse Paulo Cafôfo, o PSD já não era poder na Madeira.”