O que é que se passa no Mali?

A instabilidade, o radicalismo islâmico e os conflitos separatistas apoderaram-se do país nos últimos cinco anos. A antiga colónia francesa provocou o primeiro conflito diplomático entre Macron e Trump.

A instabilidade no Mali levou a uma intervenção internacional
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A instabilidade no Mali levou a uma intervenção internacional Reuters/ERIC GAILLARD

A história recente do Mali não é muito diferente da de alguns países africanos e do Médio Oriente: golpes de Estado, instabilidade política que é aproveitada por extremistas, grupos separatistas, atentados terroristas, uma guerra civil e intervenções da comunidade internacional.

Em 1992, Alpha Oumar Konaré foi eleito Presidente nas primeiras eleições democráticas na antiga colónia francesa, iniciando o primeiro período de aparente estabilidade desde que este país conquistou a independência, há 57 anos. Mas a bonança durou duas décadas e, em 2012, surgiu a insurreição tuaregue liderada pelo Movimento Nacional de Libertação do Azawade (MNLA) a partir do Norte, que é essencialmente composto por deserto e zonas montanhosas. Travava-se de uma guerra separatista.

Os tuaregues tinham criado alianças com grupos islamitas radicais no país. Descontentes com o fracasso das tentativas de controlo destes movimentos, os militares depuseram o Presidente Amadou Toumani Touré e tomaram o poder na capital Bamaco em Março de 2012.

Entretanto, o grupo islamita Ansar Dine assumia já o controlo de cidades como Tombuctu, Kigali e Gao. O Norte era, praticamente, uma república independente. Rapidamente os tuaregues perceberam que os grupos radicais, apoiados pela Al Qaeda do Magrebe, tinham objectivos bem diferentes dos seus – se os rebeldes queriam a independência, os islamitas procuravam antes impor a sua visão conservadora da sharia (a lei islâmica) – e estalou o conflito entre ambos.

Sem uma autoridade política suficientemente consolidada e estável para enfrentar o conflito que dividiu o país ao meio, o Governo do Mali pediu, em 2013, a intervenção da França, o antigo colonizador e o país de origem de milhares de pessoas a viverem no território.

Esta intervenção militar foi lançada para impedir o avanço dos radicais e libertar o Norte. O objectivo inicial era abrir o caminho, retirar as tropas e passar a missão para a ONU. Foi mesmo assinado um acordo de paz entre os tuaregues e o Governo. Mas nunca foi aplicado e Paris reorganizou as forças e manteve-se no país.

Com o recuo e perda de território, os extremistas concentraram-se em perpetrar atentados que começaram a atingir a capital, Bamaco – o primeiro dos quais em 2015, quando o sequestro de 170 hóspedes no hotel Radisson terminou com a morte de 27 pessoas, incluindo vários cidadãos estrangeiros. Em Maio de 2015 foi assinado outro acordo de paz, desta vez em Argel, mas os efeitos práticos mal se fizeram sentir.

Já neste mês de Junho, a França pediu ao Conselho de Segurança da ONU para criar uma força autónoma para combater o terrorismo no chamado G5 do Sahel. O objectivo era que as Nações Unidas apoiassem, sobretudo em termos financeiros, cinco mil militares na Mauritânia, Burkina Faso, Níger, Chade e Mali. A União Europeia disponibilizou-se para contribuir com 50 milhões de euros para equipar e treinar soldados, polícias e civis. Mas os EUA torceram o nariz à possibilidade de assinarem um cheque para armar tropas africanas, cuja capacidade militar e operacional é posta em causa. A situação originou a primeira disputa diplomática entre Emmanuel Macron e Donald Trump e congelou, por agora, o plano. Neste momento, mais de quatro mil militares franceses estão estacionados no Sahel.

A proposta de Paris pedia aos membros do Conselho de Segurança para que autorizassem as forças africanas a “tomarem todas as medidas necessárias” para restaurar a paz e impedir o avanço jihadista no Sahel. Isto deveria ser feito em coordenação com as missões de paz da ONU, que conta com dez mil homens, e com os soldados franceses. Além disso, o dispositivo africano deveria restaurar a autoridade dos Estados, organizar o regresso dos refugiados e ficar responsável pela ajuda humanitária necessária. Portugal conta actualmente com dez militares a prestar serviço na missão da União Europeia: seis são do Exército, três da Força Aérea e um da Marinha.

Assim que foi eleito, Emmanuel Macron apanhou um avião para se encontrar com a chanceler Angela Merkel. Mas, logo de seguida, o destino foi o Mali. Aí encontrou-se com as tropas e prometeu não se esquecer da antiga colónia.