Uma em cada 113 pessoas do mundo está deslocada, refugiada ou é candidata a asilo

Nunca houve tanta gente a precisar de protecção no mundo (65,6 milhões), mostra relatório anual do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados.

No ano de 2016, foi do Sudão do Sul que partiram mais refugiados
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No ano de 2016, foi do Sudão do Sul que partiram mais refugiados Reuters/JAMES AKENA

No ano passado, a cada três segundos, uma pessoa foi obrigada a fugir de casa ou abandonar o seu lugar de origem para escapar à pobreza ou à guerra, por força de perseguições políticas, violações dos direitos humanos ou violência religiosa e sectária. O total de refugiados no mundo atingiu um novo recorde de 65,6 milhões de pessoas, um número sem precedentes e “inaceitável sob qualquer ponto de vista”, segundo o alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados, Filippo Grandi, para quem a comunidade internacional devia tratar o assunto com “determinação e coragem”, ao invés de “medo”.

São 40,3 milhões de deslocados internos, mais 22,5 milhões de refugiados e ainda 2,8 milhões de candidatos a asilo, provenientes dos quatro cantos do planeta e actualmente a residir em campos ou centros de acolhimento provisórios e precários – tantos quanto a população de países como o Reino Unido ou a França, que na lista dos mais populosos do mundo ocupam a 21.ª e 22.ª posição, respectivamente. Desde a fundação daquela agência da ONU nos anos de 1950, nunca houve tanta gente a cruzar fronteiras em busca de refúgio e protecção: hoje em dia, uma em cada 113 pessoas do mundo enquadra-se numa das categorias de deslocada, refugiada ou candidata a asilo.

A guerra civil na Síria, que desde 2011 já fez mais de 500 mil mortos, continua a ser responsável pelo maior número de refugiados (5,5 milhões) e deslocados (6,3 milhões) do mundo. A guerra obrigou à fuga, para dentro ou para fora, de mais de metade da população do país – que agora está distribuída pela Turquia, a Jordânia ou o Líbano, que acolheu cerca de um milhão de refugiados entre os seus 4,2 milhões de habitantes.

Outros dois países, afectados por violentos conflitos, têm populações de refugiados superiores a quatro milhões de pessoas: o Afeganistão (com 4,7 milhões), e o Iraque (4,2 milhões). Ainda assim, esse número fica abaixo dos 5,3 milhões de refugiados palestinianos. Um único país, a Colômbia, responde pela maior população de deslocados internos, 7,7 milhões de pessoas, que foram abandonando os seus lugares de origem ao longo dos 50 anos de conflito entre o Governo de Bogotá e as guerrilhas marxistas das FARC e ELN.

Em África, o principal foco de instabilidade – e de êxodo populacional – ocorreu com o colapso dos esforços de paz no Sudão do Sul. Em 2016, foi dali que saiu a maior parcela de refugiados de todo o mundo, 737 mil pessoas, a maior parte das quais cruzaram a fronteira em busca de refúgio no vizinho Uganda. A hospitalidade do Governo de Kampala transformou a aldeia de Bidi Bidi num dos maiores campos de refugiados do mundo, com cerca de 250 quilómetros quadrados e mais de 250 mil pessoas – todos os que chegam têm direito a uma parcela de terreno e aos materiais necessários para cultivar a terra. O conflito no Sudão do Sul já fez 3,3 milhões de refugiados.

“O mundo parece que ficou incapaz de estabelecer a paz. E assim vemos que velhos conflitos não são resolvidos, enquanto novos focos de conflito rebentam para produzir ainda mais refugiados. Este movimento de deslocação forçada é o símbolo de um estado de guerra que nunca acaba”, lamentou Filippo Grandi. Para o alto comissário, esse é um contexto que exige aos líderes internacionais um maior investimento da promoção da paz e na reconstrução dos países devastados, além, naturalmente, de uma maior abertura no acolhimento de refugiados dentro das suas fronteiras.

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A grande maioria destas populações provenientes de Estados falhados ou em guerra, está a ser recebida em países vizinhos onde as dificuldades são em muitos semelhantes: pobreza, tensões sectárias, etc. De acordo com o relatório anual do ACNUR, divulgado esta segunda-feira, os países em desenvolvimento abrigam 84% dos refugiados do mundo. “Não vejo como podemos pedir aos países com menos recursos, em África, no Médio Oriente e na Ásia, que aceitem receber milhões de refugiados quando os países ricos se recusam a fazê-lo”, criticou Grandi.

Apesar dos números dramáticos, o ritmo de deslocações abrandou ligeiramente em 2016 face ao ano anterior. E no ano passado também se assistiu a um maior movimento de regresso ao local de origem, ou realojamento num país terceiro: 6,5 milhões de deslocados internos voltaram às suas casas, meio milhão de refugiados regressaram aos seus países e cerca de 190 mil candidatos a asilo foram reinstalados em 37 países.