Negociações do "Brexit" começaram de forma "muito construtiva"

Negociadores britânicos fizeram uma primeira cedência: primeiro negocia-se o divórcio, depois os termos da relação.

David Davies e Michel Barnier, os negociadores de Londres e Bruxelas, respectivamente
Foto
David Davies e Michel Barnier, os negociadores de Londres e Bruxelas, respectivamente Francois Lenoir/Reuters

No encontro histórico que marcou o arranque das conversações do “Brexit�� - a saída do Reino Unido da União Europeia -, as equipas de Bruxelas e do Reino Unido acordaram os termos de referência que deverão guiar as negociações nos próximos meses e mostraram-se algo optimistas na possibilidade de um acordo para a retirada ordeira do país do bloco comunitário.

O chefe da equipa da União Europeia, Michel Barnier, afirmou que a primeira ronda negocial foi “útil” e o seu homólogo britânico, David Davis, considerou as conversas “muito construtivas”.

“Um acordo justo é possível e muito melhor do que um não acordo”, disse o negociador da UE na conferência de imprensa conjunta, no final da primeira ronda de conversas, esta segunda-feira em Bruxelas. David Davis também pareceu optimista em relação a esse resultado.

Para a União Europeia, há três temas prioritários: resolver o estatuto dos cidadãos afectados pelo "Brexit" (os europeus que vivem no Reino Unido e os britânicos que residem nos 27), definir as contribuições financeiras assumidas pelo Reino Unido enquanto membro do bloco – a designada factura do divórcio – e o estatuto da fronteira entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda. Estes três assuntos começaram a ser abordados no primeiro encontro e serão recorrentes durante os próximos meses.

Os negociadores decidiram que haverá grupos de trabalho temáticos para tratar dos direitos dos cidadãos – Theresa May vai informar os líderes dos 27 na cimeira europeia e Londres apresenta na próxima semana um plano para garantir os direitos dos europeus, com reciprocidade para os britânicos a viver no continente – e dos compromissos financeiros.

Já os coordenadores das equipas vão manter um diálogo sobre a fronteira entre as duas partes da Irlanda. E Michel Barnier e David Davis deverão reunir-se cada quatro semanas para fazer o ponto da situação e tentar desbloquear as questões mais complexas.

Primeiro serão tratados estes três assuntos, “os mais urgentes”, sublinhou Barnier, para acabar com a incerteza provocada pelo "Brexit". As prioridades definidas correspondem assim às linhas negociais da União Europeia, no que é uma primeira cedência de Londres.

O Governo britânico, chefiado por Theresa May, tem afirmado que as negociações de saída da UE devem decorrer em paralelo com as conversas sobre a futura parceria comercial com o bloco comunitário. Não tem sido esse o entendimento dos 27. Para a UE, a sequência é outra como foi reafirmado neste primeiro dia de negociações: primeiro resolver os termos do divórcio e só depois, se houver progressos suficientes, começam as negociações sobre a futura relação, nomeadamente dos laços comerciais que se manterão.

Este dia histórico – é a primeira vez que um país negoceia a sua saída da UE – começou cerca das 11 horas (menso uma em Portugal Continental), com Michel Barnier, o chefe da equipa de negociadores da União Europeia, a acolher na sede da Comissão Europeia, em Bruxelas, o ministro britânico para o "Brexit". Depois de alguns sorrisos – Barnier mais sóbrio – e cumprimentos da praxe para a fotografia, começaram as coisas sérias.

Após a sessão de abertura, seguiu-se um almoço de trabalho, encontros dos grupos de trabalho e dos coordenadores das equipas, a sessão de encerramento e a conferência de imprensa. Foram várias horas de uma coreografia estudada. E o processo apenas começou. As equipas negociais dificilmente terão férias. As próximas rondas têm lugar a 17 de Julho e 28 de Agosto.