Crítica Livros

Quantos lados tem uma tartaruga?

Num único volume, um Darwin seminal e um arquipélago de textos com vislumbres do melhor Melville.

A opção de conjugar num volume textos de Darwin e de Melville tem sido replicada ao longo dos anos e será justificável pela evidência do tema comum: as “encantadas” ilhas adjacentes ao Equador
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A opção de conjugar num volume textos de Darwin e de Melville tem sido replicada ao longo dos anos e será justificável pela evidência do tema comum: as “encantadas” ilhas adjacentes ao Equador

Nabokov recomendaria, certamente, que a leitura deste livro fosse devidamente assessorada pela consulta oportuna de um atlas ou mapa que o Google Earth, por exemplo, poderá substituir com não desprezíveis vantagens. O texto inaugural do volume vem acompanhado por uma vinheta cartográfica, mas esta é rudimentar e minúscula. E, uma vez que as ilhas a que vamos aportar houveram nome e renome (em castelhano e em inglês), há-de o leitor precaver-se com fonte bilingue, não vá desembarcar na Floreana e perguntar onde fica Charles’s Island. Zarpemos. A opção editorial de conjugar num volume estes textos de Charles Darwin (1809-1882) e de Herman Melville (1819-1891), tão diversos na sua génese e nos seus propósitos, tem sido replicada ao longo dos anos em diversos países e em diversas línguas e será imediatamente justificável pela evidência do tema comum: as “encantadas” ilhas adjacentes ao Equador que formam o arquipélago das Galápagos (tartarugas, em castelhano).

Darwin tinha 22 anos quando embarcou no Beagle, para uma missão científica que deveria ter durado dois anos mas demorou cinco. Logo em 1839 seria publicado o extenso diário desse périplo (resumidamente intitulado A Viagem do Beagle), que foi verdadeiramente seminal na formação do naturalista. O texto que aqui se reproduz é apenas o de um capítulo daquele relato da viagem. Ao longo de pouco mais de um mês, Darwin visitou algumas ilhas, observou fauna e flora, inquiriu, anotou. O resultado é o relato de um “naturalista filosófico” emergente, que se espanta incansavelmente diante da biodiversidade – “o traço mais notável da história natural” daquele “grupo de satélites” da América – e diante das singularidades botânicas e, sobretudo, zoológicas do arquipélago: “sentimo-nos estupefactos perante a quantidade de força criadora, se assim se pode dizer, desdobrada nestas pequenas ilhas áridas e rochosas; e mais ainda perante a sua acção diversa e contudo análoga sobre pontos tão próximos.” A escassez de predadores (excepto os humanos) e de insectos, a “extrema mansidão das aves”, tudo interpela a curiosidade do observador: “tanto no espaço como no tempo, temos aqui a impressão de nos aproximarmos desse grande facto – desse mistério dos mistérios – que é o primeiro aparecimento de novos seres na terra”. A origem das espécies vem, portanto, a caminho. A objectividade do observador, contudo, deixa campo a inesperadas selfies, como quando vemos Darwin divertindo-se a assustar veneráveis e gigantescas tartarugas e a cavalgá-las de pé, embora fosse “muito difícil manter o equilíbrio”; ou a elogiar a “bela sopa” que se obtém cozinhando exemplares juvenis. Mais raramente, uma anotação marginal como que nos prepara inconscientemente para a leitura de Melville – na ilha de Santiago, explorando o leito salino de uma cratera, Darwin conta: “Neste sítio retirado, os marinheiros de um barco de caçadores de focas há poucos anos assassinaram o seu capitão; vimos o seu crânio que jazia entre os arbustos.”

Melville visitou as ilhas seis anos depois a bordo de um baleeiro, mas os dez sketches de As Ilhas Encantadas – primeiro publicados, sob pseudónimo, numa revista, em 1854, e dois anos depois coligidos, com Bartleby, Benito Cereno e outros, no volume The Piazza Tales – provêm mais da imaginação e da literatura do que da observação empírica; e são, neste díptico, como que o negativo simbólico da aurora genesíaca entrevista por Darwin, embora o inglês não figure explicitamente entre as “três testemunhas oculares dignas de menção” cooptadas por Melville relativamente às Galápagos. O portentoso autor de Moby Dick, raramente se tendo acomodado às redes formais de um género narrativo reconhecível e estável, faz do seu conjunto de esboços um arquipélago de textos congregados apenas pela referência a um mesmo cenário natural e pela submissão a uma comum densidade alegórica, que é acentuada pelos versos iniciais de cada um dos sketches, quase todos provenientes de The Faerie Queene, de Spenser, e que modulam previamente o nosso horizonte interpretativo. Desde o início, a “mágica aridez” das ilhas, “sem fruto e sem nome”, é subsumida a uma “maldição” particular e solitária: “Como cacos de ânforas sírias deixados a apodrecer ao sol, são rachadas por uma seca eterna sob um céu tórrido.” Tudo é deserto, proscrição e logro, maldição original inscrita no próprio nome, nesse encantamento maligno reportado pelos antigos marinheiros espanhóis e traduzível na ilusória mobilidade das ilhas e no seu reverso complementar, aquelas súbitas calmarias que humilhavam os veleiros. Nestas ilhas “penitentes de burel e cinza” poderá alguém ser feliz? “Sim, isto é, basta encontrar a felicidade para se ser feliz”, responde Melville, lembrando que “até a tartaruga, escura e melancólica de costas, possui um lado luminoso […]. Apreciemos, pois, o seu lado claro, mantendo-o perpetuamente virado para nós se nos for possível”. Basta virá-la e pô-la de pernas no ar. Se nos for possível.

Embora acessórios na bibliografia do autor, há nestes textos personagens e momentos do mais alto Melville. Assim acontece com o Rei dos Cães, no sétimo sketch, e com o eremita Oberlus, no nono: “Na verdade, a única superioridade de Oberlus sobre as tartarugas era o facto de ele possuir uma maior capacidade para a degradação e, ademais, uma espécie de propensão inteligente para ela”; mas, sobretudo, lemos isso na história pungente da viúva Chola (oitavo sketch) que, curiosidade exemplar, está na origem da única e mítica longa-metragem do realizador franco-português Carlos Vilardebó, em 1965, que foi protagonizada por uma quase silenciosa Amália Rodrigues e que contou com a colaboração de José Cardoso Pires na (bastante livre) adaptação. E a dada altura já não sabemos se são as tartarugas que simbolizam a ilusória mobilidade e a aridez das ilhas ou se são estas que se constituem como espelho alegórico daquelas: “Aqueles que são perturbados por livros nada provam contra os factos. São os factos, e não os livros, que deviam ser proibidos”.