Perguntas e Respostas

“No mínimo, pedia-se que encerrassem estradas a tempo e horas”

O engenheiro florestal Paulo Fernandes diz que tudo indica que tenha havido “falhas” na resposta da Protecção Civil.

Paulo Fernandes é professor no Departamento de Ciências Florestais da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
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Paulo Fernandes é professor no Departamento de Ciências Florestais da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro DR

Paulo Fernandes, engenheiro florestal e professor no Departamento de Ciências Florestais da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, afirma que, “no mínimo, pedia-se que encerrassem estradas a tempo e horas”, o que poderia ter minimizado a dimensão da tragédia.

Vários responsáveis políticos enfatizaram que não era possível antecipar uma tragédia desta magnitude.  

Eu fico surpreendido não por terem morrido estas pessoas, tragédia que lamento, mas por isto não ter acontecido antes e mais vezes. Qualquer pessoa que acompanhe esta problemática poderia antecipar que existiam vários factores, que, combinados com a instabilidade atmosférica, podiam conduzir a uma situação destas. Foi um pouco o que aconteceu em 2003 [quando morreram 23 pessoas em vários incêndios]. Há que estar preparado, mas em Portugal não há especialistas em meteorologia de incêndios, há académicos, só que não há operacionais. Nesta situação parecem estar em causa os serviços de Protecção Civil, tudo aponta para que tenha havido falhas. No mínimo, pedia-se que se encerrassem as estradas a tempo e horas. 

O sistema da forma que está organizado não funciona, portanto?

Temos um sistema muito focado no combate. O combate representa 90% do investimento. Estas situações nunca são totalmente previsíveis, mas o sistema tem de estar preparado. Os relatos das trovoadas começaram cedo [no sábado]. Há mapas que mostram a deslocação das zonas de instabilização meteorológica, três a quatro dias antes. As previsões meteorológicas indicavam que todo o interior do país estava na fronteira entre o nível de risco muito elevado e o extremo. O que complicou tudo foi a mistura, que se revelou fatal, com a instabilidade atmosférica. O combate é sempre inglório se uma primeira intervenção não tem êxito.

O facto de esta zona ter características demográficas e físicas especiais e de a chamada época dos incêndios apenas começar a 1 de Julho complicou a situação?

Sim, estas são zonas muito envelhecidas, pouco povoadas, com muito pouca intensidade de uso da floresta. Nas zonas mais serranas, com muito espaço florestal, não existe o investimento mais típico na área de eucaliptal, onde há intervenções de limpeza regulares. Mas em Portugal há uma incompreensão do papel do combate aos incêndios. A prevenção e o combate são totalmente dependentes um do outro. Agora esta história, que é uma originalidade portuguesa, de termos fases Alfa e Charlie, não se compreende num sistema moderno. A prontidão dos meios não pode estar dependente do calendário. O sistema tem de ter flexibilidade para responder, até por causa das alterações climáticas. O combate está também muito baseado no voluntariado, apesar de haver uma força especial de bombeiros e sapadores florestais, os grupos de intervenção permanente e socorro da GNR, mas são poucos. Os grandes incêndios, com mais de 100 hectares, são responsáveis por 80 a 85% da área ardida e aí é que é preciso dar um salto qualitativo. Temos muito uso da água mas pouco de bulldozers.