Reportagem

“O que nos valeu foi aquele tanque”

Família escapou do incêndio em Nodeirinho, no concelho de Pedrógão Grande, graças ao tanque de água de um vizinho. Morreram lá onze pessoas.

LUSA/PAULO NOVAIS
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LUSA/PAULO NOVAIS

Ana esteve até este domingo de manhã à espera de que a PJ fosse recolher os corpos do marido e do sobrinho. “O meu marido esteve até hoje de manhã na estrada, queimado”, é um desabafo ainda incrédulo. O marido, Sidnel, tinha ido ver com o sobrinho pequeno se o fogo estava longe da casa. Foram apanhados dentro do carro por um pinheiro em chamas que caiu do nada. A história está cheia de buracos, não se pede a ninguém em tristeza e desespero que conte o mal que lhe caiu em cima. Mas Ana quer contar para que se saiba que os bombeiros tardaram em chegar a Nodeirinho, uma pequena aldeia na rota do IC8, e que por ali estiveram pessoas aflitas durante mais tempo do que seria necessário.

“Estivemos a ligar das 19h30 até às 3 da manhã. O senhor presidente está a dizer que a ajuda chegou a todo o lado, mas não chegou ali. Estivemos mais de cinco horas à espera. Morreram 11 pessoas”. Quem o diz é uma familiar de Ana, que passava uns dias na casa de férias que possui em Nodeirinho. É isso que as zanga, que os bombeiros só tenham chegado a Nodeirinho às três da manhã.

 Ambas estão agora a salvo, no centro de acolhimento montado no lar de idosos da Santa Casa da Misericórdia de Pedrógão Grande, onde outras famílias estão igualmente a receber comida, um tecto e apoio psicológico de emergência.

“O que nos valeu foi aquele tanque” de um vizinho, conta a mesma sobrevivente, à soleira da porta da Santa Casa. Em pânico, sem acesso a água e a ouvir botijas de gás a explodir, acabaram por ser resgatadas quando já esperavam o pior. “Foi um homem corajoso que nos arrancou de casa e nos levou para perto do tanque, onde estivemos a molhar-nos. Se não fosse aquela água, tínhamos morrido todos”.

Saíram da aldeia já de madrugada e estão desde então na Santa Casa. “Trataram-nos muito bem. Foram impecáveis, não nos faltou nada”. Este é um dos cinco sítios de acolhimento psicossocial de emergência montados pela Segurança Social com a ajuda de várias entidades, entre elas as misericórdias. Nestes centros estão técnicas de acção social e também psicólogos a prestar o primeiro apoio, onde acorreram este domingo dezenas de pessoas à procura de um tecto para ficarem nos próximos dias.