Crónica

O cheiro a queimado de uma vila deserta

A noite cai em Pedrógão e o cheiro intensifica-se. Há mais fumo. Cai cinza do céu, quando todos pedem para que caia água.

São poucas as pessoas que se avistam na vila de Pedrógão Grande. Um grupo de adolescentes olha para a parede cinzenta e laranja em que se tornou o céu depois das quatro da tarde. O vento mudou. A culpa é do vento.

No centro de acolhimento da Santa Casa da Misericórdia, em Pedrógão Grande, pede-se a privacidade. Respeite-se. A dor chega de todo o lado. Os sobreviventes estão desolados. É o caso de Ana e da família que chegou do Noderinho, uma das aldeias mais devastadas, que fica a poucos quilómetros de Pedrógão. Com cerca de 30 habitantes, 11 morreram, entre eles, duas crianças.

Mais acima está o Centro de Saúde, que neste momento serve de centro de triagem a feridos que são para aqui trazidos pelos médicos e enfermeiros do INEM e pelos bombeiros voluntários que chegaram de várias zonas do país. À porta do hospital, meia dúzia de técnicos do INEM preferem não falar. Estão sentados no chão, exaustos, falam entre eles e calam-se. Os jornalistas são convidados a ir-se embora pelo silêncio.

No largo do Centro de Saúde, há homens e mulheres a descansar junto à meia dúzia de ambulâncias ou deitados em muros. Bombeiros e carros estão parados à espera que lhes liguem para ir socorrer alguém. Ao início desta noite, respiram um pouco. Dizem que “felizmente”, desde que aqui chegaram saídos da Vialonga, ainda não foram chamados. Mas o “felizmente” é sol de pouca dura. E as palavras também. Preferem não falar.

A noite cai em Pedrógão e o cheiro intensifica-se. Há mais fumo. Cai cinza do céu, quando todos pedem para que caia água. Há mais gente cansada. Com a cara fechada e a pele a colar de quente.

Não se respira de alívio. No centro de operações, vão saindo informações que no minuto a seguir já não o são. O IC8 já abriu e fechou tantas vezes quantos quilómetros tem. O resumo é este: a situação está instável. A única esperança é que já há pouco que possa arder aqui à volta. Pedrógão esteve cercado por várias frentes durante muitas horas. E ainda só fica ligado ao mundo de modo intermitente.

Os vários incêndios espalham-se por três distritos: começou no de Leiria, em Pedrógão, Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos, Ansião e Alvaiázere, depois na Sertã, no distrito de Castelo Branco, e em Góis e Penela, no distrito de Coimbra.