Crónica

Palavras, expressões e algumas irritações: incêndio

O revestimento da torre de Londres “era o mais barato e inflamável”. Não admira, tratava-se de habitação social. E é sabido que as vidas não valem todas o mesmo

Regista o dicionário: “Fogo que lavra e devora.” Poder-se-ia estar a falar de fogos florestais, que não tardarão por aí e são igualmente graves, mas o “incêndio” a que queremos referir-nos foi urbano, ocorreu em Londres na quarta-feira e provocou pelo menos 58 vítimas mortais.

O que se foi sabendo sobre esta “queima” num prédio de 23 andares e 200 apartamentos tornou-a ainda mais chocante. “O edifício, construído em 1974, não tinha aspersores e os moradores disseram que não ouviram alarmes de incêndios. A comissão de moradores tinha alertado para estes perigos e para a existência de obstáculos que dificultavam a aproximação de carros de bombeiros, caso houvesse um fogo”, escreveu-se.

Dizem os especialistas que os revestimentos usados, Reynobond PE, tinham componentes de plástico, o que é proibido, por exemplo, na Alemanha em torres com mais de 22 metros há quase 40 anos. Isto porque agravam a propagação de incêndios e só devem ser utilizados em edifícios que permitam que os bombeiros consigam chegar até ao topo com a escada de emergência totalmente distendida a partir do solo, explicou-se nas notícias.

“O chefe dos bombeiros de Frankfurt, Reinhard Ries, afirmou-se horrorizado”, segundo o Guardian. Disse que “as regras rígidas de segurança contra incêndios em prédios impossibilitam que, na Alemanha, um acontecimento do género aconteça”. O mesmo para a construção americana.

Em Portugal, “não será habitual a utilização destes materiais”, disse o bastonário da Ordem dos Engenheiros, Carlos Mineiro Aires. E acrescentou: “A legislação nacional é muito exigente nesta matéria.”

Ainda segundo o Guardian, “fornecedores admitem que revestimento da torre de Londres era o mais barato e inflamável”.

Não admira, tratava-se de habitação social. E é sabido que as vidas não valem todas o mesmo.

“Calamidade”, conclui o registo no dicionário.

Palavras, expressões e algumas irritações é uma rubrica do caderno P2