Slow J, o cabeça-de-cartaz inesperado que levantou Vila Real

A quarta edição do festival Rock Nordeste trouxe música portuguesa à cidade entre as serras. De rock a rap houve um pouco de tudo, mas foram The Legendary Tigerman e Slow J que roubaram o coração a Vila Real.

Slow J foi a revelação do festival
Slow J foi a revelação do festival Lino Silva/ Rock Nordeste
Paulo "The Legendary Tigerman" Furtado também contagiou o público
Paulo "The Legendary Tigerman" Furtado também contagiou o público Lino Silva/ Rock Nordeste
Os Mão Morta viajaram 25 anos atrás no tempo
Os Mão Morta viajaram 25 anos atrás no tempo Lino Silva/ Rock Nordeste
A edição deste ano do Rock Nordeste registou 27.500 entradas
A edição deste ano do Rock Nordeste registou 27.500 entradas Lino Silva/ Rock Nordeste
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Nem a elevada temperatura, que ultrapassava a passos largos os 30 graus, demoveu gente de se deslocar ao Parque Corgo para dois dias de Rock Nordeste, que à sua quarta edição voltou a levar a Vila Real um cartaz forte à portuguesa, com entrada livre. Na sexta-feira, a música começou tarde, com os Dead Combo e As Cordas Más da Fama a abrirem as hostes e Capicua a exigir os braços no ar. No sábado, o parque transbordou: os veteranos Mão Morta conseguiram encher a periferia do palco do Teatro de Vila Real, e The Legendary Tigerman fez a plateia gritar alto e a bom som; mas foi Slow J quem roubou a noite.

A espera pelo artista não foi silenciosa. Enquanto, no palco, se resolviam problemas técnicos, um grupo na plateia entoava Menina, estás à janela, a canção de Vitorino que Slow J interpretou recentemente num programa da Antena 3. Quando, pouco antes das duas da manhã, se ouviram os primeiros acordes de Arte, não houve dúvidas de quem era o cabeça-de-cartaz do festival.

Se em Março Slow J esgotou o concerto de apresentação do seu primeiro álbum, The Art of Slowing Down, em Lisboa, não esperava encontrar um mar de gente à sua espera, na “primeira vez” que veio “tocar ao Norte”, confessou. “A partir deste momento, somos todos família”, anunciou antes de entrar em Casa. E é isso que este miúdo de 24 anos faz, em qualquer sítio aonde vai: constrói casa e destrói muros entre o que canta e os que o ouvem. Em Às vezes, a dor que se esconde não é só de quem está no palco, mas do público inesperado que canta as letras fora dele.

Em Comida, diz que reza por música diferente e que quer “fazer ao Rui Veloso o que o Ronaldo fez com o Figo”, mas, no fim, não parece acreditar que já o está a fazer. “Foda-se, a sério!? É inacreditável”, deixa escapar. Está incrédulo com o que vê: uma plateia em êxtase num recinto que é, provavelmente, o maior para o qual já tocou. “Quem é que aqui quer ter uma vida boa?”, grita. A resposta é ensurdecedora e, a meio da faixa, a distância entre Slow J e o público eclipsa-se. Desaparece do palco e vai para o meio da gente, que canta, em uníssono, as palavras de Vida boa.

Num alinhamento que foi, todo ele, improvisado, o fim não pareceu um fim. Depois de Mun’Dança e de uma saída que aparentava ser uma pausa para encore, Slow J não voltou mais, e deixou quem o esperava de água na boca.

Sem descanso

Mas se com Slow J o público atingiu o clímax, com The Legendary Tigerman já cantava alto e a bom som. Não foi preciso tocarem as 12 badaladas para que a one man band de Paulo Furtado encontrasse o recinto mais cheio que o festival de Vila Real já viu. Mas, desta vez, o músico não veio sozinho. Trouxe consigo o saxofone de João Cabrita e as baquetas de Paulo Segadães. O riff de Storm over paradise contagiou o público, e Segadães anunciou: “A partir de agora, até ao fim não há descanso." E não houve mesmo. Ainda se gingou calmamente em These boots are made for walking, mas o concerto navegou por malhas intermináveis, de duelos e duetos entre um saxofone sedutor e uma guitarra tempestuosa.

Sempre que há dúvidas de que o rock português está vivo, Paulo Furtado derruba cada uma delas em palco. Com Twenty first century rock 'n’ roll consegue fazer milhares de pessoas gritarem em uníssono palavras de ordem e incitar ao crowdsurfing e ao moche numa plateia que, horas antes, mal se levantava do chão. E no encore diz ao público: “É importante que façam amor, hoje”. E termina sozinho em palco, com uma balada de Daniel Johnston garantindo que, no fim, toda a gente acaba por encontrar o verdadeiro amor.

O calor da tarde 

Apesar dos 39 graus vila-realenses, às seis da tarde de sábado a fila de espera já se adensava na entrada para ver Márcia. O anfiteatro natural encheu-se de mantas neste festival que, na maior parte do tempo, se ouviu sentado, à excepção das crianças que, sem raízes, corriam e brincavam no recinto.

Apesar de todo o aparato instrumental já preparado para Samuel Úria, Márcia não precisa de muito mais para além da voz e da guitarra que a acompanha sempre. “Se acharem que faltam instrumentos, batam palmas”, brinca. Mas não, a sua receita não pede mais ingredientes. Lado a lado com Filipe Cunha Monteiro, músico e marido, Márcia passa por Quarto crescente, através da doce Bom destino e de Linha de ferro, a bossa-nova entristecida composta com o rapper brasileiro Criolo, e revisita a ternurenta Camadas, a pedido de um cartaz. “Vamos alterar o alinhamento, porque eu não ignoro os pedidos da plateia.”

Mas a artista não se prende ao que já foi feito e entoa novas melodias de um disco que está para vir. Em Como tudo muda, a cantora diz (e mostra) saber bem do que é capaz. E quis provar que em Agora, a obra que compôs para o Festival da Canção, não lhe tinha falhado nada, “como Fátima Campos Ferreira disse”. O público deu-lhe razão. Mas foi quando Menina chegou ao palco, em conjunto com Samuel Úria, que a ginga começou, no palco e fora dele.

Se o concerto de Márcia foi um embalo, o de Samuel preparou a exaltação. De t-shirt justa branca, óculos de sol e corrente dourada ao peito, Úria dá corda aos sapatos, riff atrás de riff, e viaja pelos seus três álbuns, acompanhado por uma banda incansável. Em Repressão, pede ao público que se junte a ele no refrão, e em Tapete encarna Elliott Smith e faz a festa sozinho. Ainda se ouviriam as castanholas imponentes enquanto Samuel exigia que não arrastassem o seu caixão, e sentir-se-ia o silêncio do público durante a balada composta a dois com Manuel Cruz, Lenço enxuto.

Como estava previsto, Márcia volta ao palco para o segundo dueto com aquele que diz ser “o seu amante oficial”. Eu seguro foi a calma, antes da tempestade. Márcia ficou para dançar ao som de É preciso que eu diminua e, sem precisar de pedir, houve quem tomasse a iniciativa de se juntar ao bailado. O contágio foi rápido e em minutos já não se viam mantas no chão, só braços no ar, olhos fechados e ancas movediças. A banda, que se ia despedir, não resistiu ao entusiasmo e ficou para mais um par de malhas, já com um público que não quis voltar a pousar o rabo no chão.

Os veteranos do cartaz

A abertura do Rock Nordeste pertenceu aos Dead Combo, que se agruparam com As Cordas da Má Fama e actuaram para um público sentado que transbordou as medidas do teatro. No típico cenário sombrio e perverso, típico de um cabaré ou de um pub acolhedor, os solos de guitarra são substituídos pelas cordas friccionadas. Povo que cais descalço e Zoe llorando foram banda sonora de acrobatas, com cerveja na mão, que tentavam não tropeçar nas pessoas sentadas e, simultaneamente, a música de fundo do encontro de amigos, de todas as idades, que puseram a conversa em dia.

À mesma hora, no dia seguinte, a conversa foi outra. Já não havia gente sentada em frente ao palco que recebeu a banda de Adolfo Luxúria Canibal. Foi em Vila Real que os Mão Morta iniciaram uma série de concertos de celebração dos 25 anos do álbum Mutantes S.21. Tocaram-no na íntegra, acompanhados por quinze ilustrações de autores portugueses e, já depois da passagem por Budapeste, Barcelona e Lisboa, a banda fugiu. Mas o público assobiou por mais um pouco o post-punk inconfundível, e o grupo com mais de três décadas de existência voltou para mais umas malhas independentes daquele álbum.

O festival contou ainda com a actuação energética de Capicua, acompanhada pela banda e pela rapper M7, e com a electrónica transcendental dos Sensible Soccers.

No final, números da organização, foram 27.500 as entradas registadas neste Rock Nordeste, que assim teve a sua edição mais cheia de sempre – no ano passado tinham sido 23 mil.