Análise

Europeístas e soberanistas. Uma sugestão de leitura das eleições francesas

Ganha a maioria política, o novo desafio de Macron é ganhar a maioria social.

A segunda volta das presidenciais francesas opôs o candidato europeísta por excelência, Emmanuel Macron, à principal representante do pólo eurocéptico e soberanista, Marine Le Pen. Esta clivagem pode ser equacionada noutros planos como, por exemplo, abertura/encerramento. A opção do eleitorado foi clara. Na primeira volta das legislativas esta clivagem continuou presente, embora com menos clareza, e os franceses ampliaram o efeito da vitória de Macron nas presidenciais, concedendo ao República em Marcha (REM) e aos seus aliados do MoDem uma maioria avassaladora — teremos a confirmação amanhã à noite.

A elevadíssima abstenção e a hecatombe dos partidos tradicionais foram o centro natural de quase todas as análises. O Partido Socialista (PS) quase desaparece de cena e Os Republicanos (direita) são hoje um partido “decapitado” e à procura do seu lugar no tabuleiro político. O mais curioso foi o facto de os dois partidos “anti-sistema”, os que pareciam dispor de maior capacidade de resistência e mobilização, A França Insubmissa (FI), de Jean-Luc Mélenchon, e a Frente Nacional, de Marine Le Pen, terem sido os mais afectados pela abstenção dos que neles votaram nas presidenciais.

A estratégia de Macron revelou-se um êxito superior ao que o seu autor esperaria. Ocupou a maior parte do espaço do PS e reduziu a margem de manobra da direita ao nomear primeiro-ministro Édouard Philippe, dirigente do LR. A partir do resultado da primeira volta das legislativas, consuma-se a decomposição do antigo sistema partidário e surgem as interrogações sobre a emergência de um novo.

Decomposição

Este é o ponto mais interessante mas também o mais nebuloso. Depois do que aconteceu, é muito problemático que a recomposição do tabuleiro partidário se possa fazer a partir da “reconstrução” dos partidos existentes. O PS, há muitos anos ameaçado, começou a sua autodestruição quando a ala esquerda, dita os “frondeurs”, comandada por Benoît Hamon, organizou a mais activa oposição ao próprio governo socialista. Os dois PS, o da cultura de contestação e o da cultura de governo, tornaram-se irreconciliáveis. A vitória de Hamon nas primárias rompeu as pontes e deixou o PS ensanduichado entre o radicalismo esquerdista de Mélenchon e o “centrismo” de Macron.

A direita, após uma tranquila oposição a François Hollande, acreditou que o poder lhe cairia no regaço. François Fillon foi eliminado na primeira volta e não está provado que tal se tenha devido, exclusiva ou principalmente, ao “Penelopegate”, já que escolheu uma plataforma de direita radical que não reunia o consenso no seu próprio partido. Foi eliminado nas legislativas. O pior para a direita é que a ofensiva de Macron partiu ao meio o LR, expondo subitamente algumas insanáveis divergências.

A isto junta-se a crise interna da FN que, durante anos, apostou em fracturar a direita tradicional para criar e hegemonizar um bloco nacionalista. Hoje a FN está dividida em termos de estratégia e de programa. Tudo correu bem enquanto conseguiu aliar os temas identitários, os sociais e o eurocepticismo. Devemos, no entanto, ser prudentes quanto à FN, cuja “morte” foi várias vezes anunciada para depressa ser desmentida.

O mesmo se poderia dizer da França Insubmissa que, apesar da sua “juventude”, representa uma velha tendência enraizada em França e que, perdida a misteriosa ilusão de ser alternativa de governo a Macron, se prepara para organizar a oposição de rua às suas reformas.

O novo “centro”

O centrismo de Macron não é o tradicional, não é neutro, não é um compromisso entre esquerda e direita. Partindo de uma plataforma ideológica sócio-liberal e da contraposição progressistas-conservadores, o REM assume a vocação de se entender com a fracção social-democrata vinda do PS e com a corrente liberal e reformista do LR. O adversário que os une será o “pólo soberanista”. Esta fórmula poderia dominar o primeiro mandato de Macron. O teste vai ser feito nos debates sobre as reformas. E, antes disso, será reveladora a votação da confiança ao novo governo.

O futuro continuará certamente a ser composto de surpresas. Resta arriscar alguma especulação. Não se pode excluir a médio prazo a consolidação de um novo “grande centro”, de vocação hegemónica perante duas opostas oposições radicais, à esquerda e à direita.

O limite desta hipótese é tornar difícil a alternância. A prazo, tenderiam a emergir neste espaço — sobretudo se for introduzida uma dose de proporcionalidade nas legislativas — duas ou três forças “compatíveis” entre si, que poderiam recuperar as históricas referências de esquerda e direita e que dominariam a cena política em oposição ao bloco soberanista. Note-se que a reforma da lei eleitoral é um dos desígnios de Macron, para reforçar a legitimidade do parlamento, acelerar a recomposição partidária e integrar os extremos.

Dois pólos

Um estudo do Cevipof indica que as opiniões proteccionistas são subscritas por 51% dos franceses contra 49% que defendem a abertura económica. Noutra pergunta, 33% defendem a abertura ao mundo, 35% pensam que a França se deve proteger do mundo e 32% “nem uma coisa nem outra”.

O pensamento “soberanista” é muito forte em França mas tem uma fraqueza prática: a sua maior expressão concentra-se nos partidos de Le Pen e Mélenchon, mas também contamina a ala mais à direita do LR. A corrente soberanista tem, portanto, uma dupla fraqueza: a dificuldade de oferecer uma plataforma política coerente; e o facto de a questão europeia dividir ambas as áreas. Não por acaso Marine Le Pen fez um recuo monumental na questão do euro.

A reorganização do sistema político implicará o cruzamento de muitas vertentes. Mas, neste momento, o factor mais forte ou determinante parece ser a oposição entre um “pólo europeísta” e um “pólo soberanista”. Esta é uma situação nova e o leitor perdoará a flutuação terminológica.

A grande questão do futuro estará em saber se, ganha a maioria política, Macron vai reunir uma maioria social. É uma fase em que as “bases de classe” da política foram subvertidas pelas transformações sociais, económicas e ideológicas. Quase todas as categorias sociais parecem em deslocação. As reformas, necessariamente conflituais, serão o meio de agir sobre elas.