Portugal, um “candidato” com polivalência q.b.

É com alguns retoques impostos pelo momento de forma dos jogadores que a selecção chega à Rússia. Sem falar em favoritismo.

Mário Cruz/LUSA
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Mário Cruz/LUSA

Ocontexto mudou, o discurso não. A Taça das Confederações não é o Campeonato da Europa, nem nada que se pareça, mas a abordagem da selecção portuguesa a um torneio que poderá ter os dias contados (ver texto na página 6) é a mesma que havia sido adoptada em França, há cerca de um ano. Sim, Portugal é candidato ao triunfo, ainda que não carregue o rótulo de favorito.

Esta é a posição oficial de Fernando Santos, que publicamente tem repisado a ideia de uma selecção ambiciosa, mas consciente das dificuldades que terá pela frente. “Não vamos ser turistas no torneio. Vamos preparar a equipa com o objectivo de ganhar a prova, mesmo com o pensamento de que não somos favoritos”, insistiu o seleccionador, em declarações à World Soccer.

A seu favor, Portugal tem essa injecção de auto-estima e de autoridade assegurada pelo título europeu, tem uma convocatória que, no essencial, é fiel às escolha feitas para o Euro 2016 e tem um naipe de adversários de calibre diferente do que enfrentou há um ano. São estas as razões fundamentais que levam alguns dos adversários, como o lateral/médio mexicano Miguel Layún, profundo conhecedor do futebol português, a atirar para o balneário nacional os pergaminhos do favoritismo. 

Jogos de palavras à parte, é dentro de campo que tudo se discutirá. E Fernando Santos afinou ligeiramente as escolhas para o desafio que se segue. O técnico optou por prescindir de Renato Sanches e Éder (para além de Rafa), jogadores que desempenharam um papel importante no Europeu mas que tiveram uma temporada abaixo das expectativas, privilegiando elementos que se destacaram em 2016-17, a começar em André Silva, passando por Bernardo Silva e Gelson, e acabando em Pizzi. Uma opção que fará sentido na lógica de “premiar” o momento de forma e não façanhas passadas.

Se Pepe retomar os índices físicos habituais, não se antevêem grandes alterações no “onze” português, que foi recentemente posto à prova frente à Letónia, na qualificação para o Mundial 2018. Com uma abundância evidente de recursos para o meio-campo, será nesse sector que se gerarão mais dúvidas, especialmente no que se refere ao trio que acompanhará William Carvalho. No corredor central, João Moutinho atravessa um bom momento, André Gomes é uma preferência recorrente de Fernando Santos (que muitas vezes opta por fazer o médio do Barcelona descair para a ala esquerda) e Adrien Silva dá sempre garantias. No miolo, há ainda Pizzi a ter em conta, sendo que o criativo do Benfica pode também ocupar uma das alas, habitualmente reservadas a Quaresma, Nani e, ultimamente, Gelson.

Uma das mais-valias desta convocatória é que vê o leque de opções tácticas aumentar em função da polivalência de alguns jogadores, como são os casos de Pizzi, já referido, Nani, Quaresma e Bernardo Silva, todos eles elementos que podem fazer mais do que uma posição com idêntica qualidade. A presença na convocatória do criativo que se transferiu recentemente do Mónaco para o Manchester City, a troco de 50 milhões de euros, não é mais do que preencher a lacuna de peso que uma lesão provocou nos eleitos para o Euro 2016.

Mas a fase positiva que muitos destes jogadores atravessam também traz um custo, contabilizável através dos minutos jogados. É verdade que o bálsamo anímico proporcionado pela maré de vitórias ajuda a disfarçar o cansaço, mas não faz sentido ignorar que, em 2016-17, Bernardo Silva cumpriu 64 jogos, André Gomes e Pizzi 55 cada um, Cristiano Ronaldo, Quaresma, André Silva e Gelson 52 jogos e William Carvalho 51, só para citar os casos mais delicados. 

Nessa perspectiva, e com jogos de três em três dias, a gestão da condição física será determinante para Fernando Santos, que não terá tempo para mais do que competir e recuperar os jogadores. “Há um ano disse que Portugal ia disputar o Europeu até ao fim. Se tinha confiança na altura, claro que tenho confiança agora. Vai ser uma competição difícil, mas vamos sempre na condição de candidatos a vencê-la”, enfatizou o seleccionador, antes da partida para Kazan. Amanhã, pode passar do discurso à prática, sabendo de antemão como entraram em cena a Nova Zelândia e a Rússia.