Opinião

Os melhores do século. Mesmo?...

O New York Times publicou uma lista dos 25 melhores filmes do século XXI. Confundir isto com decretos seria um erro: é um pouco cedo para fazer proclamações sobre estes 17 anos, de resto bastante confusos e, no que toca especialmente ao cinema, bastante dissolutos.

<i>Haverá Sangue</i>, de Paul Thomas Anderson, ocupa o primeiro lugar: é fácil de compreender o fascínio que este filme exerce (sobretudo neste momento) sobre os americanos, ao contar a origem dos EUA como um poço de fealdade, de onde jorram a cupidez e o dinheiro
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Haverá Sangue, de Paul Thomas Anderson, ocupa o primeiro lugar: é fácil de compreender o fascínio que este filme exerce (sobretudo neste momento) sobre os americanos, ao contar a origem dos EUA como um poço de fealdade, de onde jorram a cupidez e o dinheiro

O New York Times publicou uma lista dos 25 melhores filmes do século XXI, organizada pela pena do seu par de chief critics, Manohla Dargis e A.O. Scott, com a colaboração de alguns realizadores e actores (Kathryn Bigelow, Richard Linklater, Robert Pattinson) e daquilo a que os organizadores chamam, com ironia ou sem ela, “sábios do Facebook”. É o tipo de exercícios que convém tomar pelo que são, exercícios, mais ou menos lúdicos, ideais para ocupar o tempo num domingo à tarde; confundir coisas destas com decretos seria um erro, tanto mais que, decorridos apenas 17 anos de século XXI, a poeira ainda não assentou o suficiente para vermos o panorama com clareza — pois se ainda agora andamos a ajustar a nossa perspectiva sobre o que foi o cinema do século XX, século de que ele foi a “arte popular” duma maneira que dificilmente será no século XXI, é um pouco cedo para fazer proclamações sobre estes 17 anos, de resto bastante confusos e, no que toca especialmente ao cinema, bastante dissolutos.

Mas, para que conste, é uma lista muito ecuménica, que tenta evitar o “hollywoodo-centrismo” e inclui um razoável número de filmes europeus (de Cristi Puiu, Olivier Assayas, irmãos Dardenne, Claire Denis, Agnès Varda), asiáticos (de Hayao Miyazaki, Edward Yang, Jia Zhang-Ke, Hou Hsiao-Hsen), africanos (o Timbuktu de Abderrahmane Sissako), australianos (o Mad Max -Fury Road de George Miller), e latino-americanos (o Luz Silenciosa de Carlos Reygadas). O primeiro lugar é ocupado por um filme americano, o Haverá Sangue de Paul Thomas Anderson, e por acaso até é fácil de compreender o fascínio que este filme exerce (sobretudo neste momento) sobre os americanos, ao contar a origem dos EUA como um poço de fealdade, de onde jorram a cupidez e o dinheiro, e o poder (autocrático) legitimado pela cupidez e pelo dinheiro. Outros americanos na lista: Clint Eastwood, porventura com um dos seus filmes menos “problemáticos” dum ponto de vista politico (Million Dolllar Baby), uma animação da Pixar (Inside Out), Richard Linklater (Boyhood), Kathryn Bigelow (The Hurt Locker), os Coen (Inside Llewyn Davis), uma simpática menção ao maior cineasta americano vivo e, de caminho, ao género documental (In Jackson Heights, de Frederick Wiseman), Steven Spielberg (Munique), Barry Jenkins (Moonlight... mesmo?...), Todd Haynes (I’m Not There), Michel Gondry (que não é americano mas americano é o filme por que é citado, O Despertar da Mente), Kelly Reichardt (Wendy e Lucy), Judd Apatow (Virgem aos 40 Anos).

Nunca ninguém, nem duas pessoas tão cinefilamente cúmplices quanto se possa imaginar, estará completamente de acordo com listas destas, nem com os presentes nem com os ausentes, nem com a ordem hierárquica dos presentes. É por isso que estas listas são, de certa forma, “indiscutíveis” — esta lista, por exemplo, é só esta lista, corresponde à sensibilidade e ao cálculo daqueles que a fizeram. Mas a partir do momento em que é uma lista pública, pode-se discutir e fazer perguntas. Sobre o cinema americano, em particular, parece uma lista muito encontrada na confluência entre o box office e as consagrações dos Óscares e do circuito indie. Mesmo se tem o bom senso de evitar os Nolans e os Iñarritus, para onde foi, por exemplo, David Lynch e aquele que há tempos parecia, em sondagens deste género, o Citizen Kane do século XXI, Mulholland Drive?

Moonlight (que é o “vigésimo melhor filme do século XXI”) é mesmo melhor do que qualquer filme que Jim Jarmusch, por exemplo, tenha feito no século XXI? E onde estão Michael Mann, James Gray (um cineasta cuja obra, à excepção de Little Odessa, é integralmente século XXI), John Carpenter (para quem os últimos anos foram de apagão mas que deixou, na entrada do século, essa bomba chamada Ghosts of Mars)?

E as Horas de Verão de Olivier Assayas (nono lugar na lista) é mesmo o melhor filme francês do século XXI, quando estes últimos 17 anos viram os extraordinários filmes finais de Jacques Rivette, Eric Rohmer, Claude Chabrol, tiveram Philippe Garrel a estrear filmes de maneira regular (como os Amantes, precisamente Regulares), e continuam a ter Godard, que do Elogio do Amor ao Adeus à Linguagem foi o cineasta que mais desafiou e porfiou na procura dum “cinema do século XXI”? E se há Jia, Yang e Hou, não haveria um lugarzinho para Wang Bing? E já agora, que é feito de Manoel de Oliveira e de Pedro Costa (cujo Quarto da Vanda, a abrir o século, é um filme cujos ecos ainda não deixaram de se fazer sentir)? E Bela Tarr? E José Luís Guerin? Os filmes de Todd Haynes, dos irmãos Dardenne ou de Carlos Reygadas (pobre América Latina, se não tem melhor para a representar) são mesmo melhores do que todos estes? Problema principal da lista: faz a sua selecção dentro dum território muito superficial, muito ditado por questões de visibilidade para o chamado “grande público”, seja o grande público dos oscars ou o grande público do circuito principal dos festivais. É preciso esgravatar mais.

Quem não esgravata nada são Sofia Coppola e Denis Villeneuve, na mesma ocasião convidados a apresentar a lista das suas preferências pessoais entre os filmes do século. A lista do canadiano Villeneuve (a quem já chamaram, parece que sem se rirem, “o novo Tarkovski”) é um horror, com tudo o que é cliché — ele é que não evitou os Nolans, os Iñarritus e os Cuarons, numa lista que tem o efeito subsidiário de confirmar o bluff que os seus filmes são. Já Sofia Coppola faz uma listinha muito easy listening, onde há Haneke, Herzog, Jonathan Grazer, Ruben Östlund e uma quantidade de filmes que não ofendem nem entusiasmam, não adiantam nem atrasam, mas que também não se confunde com uma lista de nomeados para os Óscares.

Enfim, continuemos.