Crítica

O som em redor

Terceiro Andar é um filme que toca vários assuntos, de questões de género a questões de identidade cultural e que os faz ressoar — é o termo — no espaço concentrado de um prédio de apartamentos.

Terceiro Andar: um filme onde a transmissão e a comunicação são dados essenciais
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Terceiro Andar: um filme onde a transmissão e a comunicação são dados essenciais

Luciana Fina tem trabalhado entre o documentário no seu sentido estrito (tanto quanto se possa dizer que esse sentido estrito existe) e as formas mais difusas da vídeo-arte e da instalação (e como instalação foi também mostrado, numa montagem diferente e mais curta, este Terceiro Andar).

É um filme que toca vários assuntos, de questões de género (as “protagonistas” são mãe e filha) a questões de identidade cultural (a mãe e a filha são de origem guineense) e que os faz ressoar — é o termo — no espaço concentrado de um prédio de apartamentos, de onde praticamente não se sai, e que é o prédio onde todas vivem, as protagonistas (no terceiro andar) e a realizadora (no quinto andar, onde se ouvem, em off, excertos de filmes italianos, porque italiana é a origem de Luciana Fina, e assim se frisa também a importância das questões linguísticas).

O filme alterna, no seu olhar (e no seu “ouvir”) sobre as mulheres, o recurso à composição muito cuidada (os “quadros” com as figuras em grande plano, a voz “off” eventualmente sobrepondo-se aos rostos mudos) e a uma espécie de naturalismo muito mais imediato (a miúda em frente ao computador, como se filmada por uma webcam; a reunião de várias mulheres, todas nas suas indumentárias tradicionais, a prepararem uma refeição na cozinha).

Mas num filme onde a transmissão e a comunicação são dados essenciais, a realizadora encontra forma de os ampliar através da sensibilidade ao próprio edifício e aos seus interiores, percorridos em elegantes movimentos de câmara ascendentes ou descendentes, como expressão de uma “propagação” que, para lá da materialidade com que Luciana Fina a filma, tem também um valor simbólico (como o terão os planos com vistas das janelas, que “enraízam” o prédio na cidade e tanto sublinham a sua identidade precisa como o fazem comunicar com uma comunidade mais vasta).

É preciso dizer, aliás, que quer os movimentos de câmara quer os enquadramentos fixos provam que a realizadora tem dedo para filmar a arquitectura ou, dizendo de forma mais simples, as formas arquitectónicas — e que alguma coisa de Terceiro Andar talvez decorra de um filme anterior de Luciana Fina, In Media Res, sobre o arquitecto Manuel Taínha. Obra de outro fôlego, essa, ao pé da qual Terceiro Andar faz figura de pequeno ensaio, virtuoso e inteligente quanto baste, mas a pedir uma amplitude maior do que a da sua curta escala.