Crítica

Fleet Foxes: o segredo está na voz

Seis anos depois, os Fleet Foxes regressam com um álbum em que a complexidade instrumental do seu antecessor se reúne à luz radiosa da estreia.

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Robin Pecknold desaparece e vai viver a vida. Vai questionar-se sobre si próprio e sobre o mundo. Depois, aparece e faz-nos o relatório. Talvez por isso se demore tanto tempo entre cada novo álbum dos Fleet Foxes. Três anos esperámos por Helplessness Blues. Entre a estreia homónima e aquele, o feliz deslumbramento com a vida no planeta, as vozes cantando tudo o que é bom e belo, deu lugar ao questionamento interior: os lagos, as florestas, os animais graciosos e as pessoas de bom coração são realmente uma dádiva maravilhosa, mas se só a morte temos por certa, valerá tudo a pena? Pecknold dava voz a tais sensações enquanto a música se complexificava e ganhava novas matizes, com contornos de Astral Weeks, a obra-prima de Van Morrison, a reconhecerem-se aqui e ali e com uma densidade instrumental a tornar maior aquela música assente no folk-rock anglo-saxónica das décadas de 1960 e 1970. Entretanto, seis anos passaram.

Seis anos em que o baterista dos Fleet Foxes, Josh Tillman se apresentou ao mundo como Father John Misty. Seis anos em que Robin Pecknold desapareceu do olhar público. Inscreveu-se na Universidade de Columbia para estudar Arte e Literatura do Século XX e aprendeu a surfar. A música ficou em pausa. Disse recentemente que se sentia unidimensional e que estava a encontrar dificuldade em fugir àquilo que a banda já fizera. Entretanto, em 2016, os Fleet Foxes começaram a trabalhar num novo álbum, como se começassem do zero, explicou Pecknold à Rolling Stone. Em 2017, recebemos a notícia que Crack-Up é o título do novo álbum, retirado de um ensaio de F. Scott Fitzgerald, e ouvimo-lo para perceber duas coisas. Que uma banda, esta banda, não consegue fugir à sua natureza — que é a forma como as vozes se harmonizam e se destacam acima de todos os outros elementos de que a música é feita. E que, depois do questionamento, depois das sombras e das dúvidas, os Fleet Foxes abraçam a luz — afinal, tudo valerá a pena, parecem dizer estas canções.

Primeiro o som da voz, funda e com a guitarra distante, palavras entoadas em vigília. “I am all that I need”, diz a voz, e assim continua durante breves segundos, até que tudo explode em luz e som. As cordas a cresceram com as guitarras acústicas, as vozes a cantarem em uníssono. Folk grandiloquente, sempre em ascensão — talvez só precisemos de nós próprios, mas tudo soa melhor assim, em comunidade.

Em Crack-Up reúne-se a luminosidade telúrica do primeiro álbum à maior complexidade, na instrumentação e na composição, de Helplessness Blues. Alusões ao ambiente natural surgem no arvoredo, nos lagos e oceanos cantados nas letras, e são sugeridos na música ela mesma, no marulhar de um sintetizador ou no voltejar dos violinos. Canções como I am all that I need / Arroyo Seco / Thumbprint scar ou Third of May / Ödaigahara, o primeiro single, são longas digressões folk-rock feitas prog fluído, sem sobressaltos. Há uma delicada névoa psicadélica a cobrir algumas canções, como se as milagrosas vozes dos Crosby, Stills & Nash procurassem os orientes que os Byrds descobriram em Younger than Yesterday e The Notorious Byrds Brothers (Kept woman, no movimento repetitivo do piano, evoca-os). Há uma Mearcstapa que cai em luz nocturna, violino em ascensão, para acentuar o tom encantatório que domina todo o álbum.

Lá ao fundo, na origem de tudo, continuamos a ouvir como modelo inescapável as harmonias vocais dos Crosby, Stills & Nash, algo que o dramatismo orquestral de Cassius, familiar de uns Grizzly Bear, não apaga. Algo que os ocasionais sintetizadores ambientais, por exemplo, não fazem esquecer. Não o dizemos para desvalorizar o que quer que seja nesta música. Os Fleet Foxes juntam as vozes e é impossível ficar indiferente ao seu efeito terapêutico. Transportam-nos e conquistam-nos. Não há ponta de cinismo possível. Tudo é luz e esperança. O mundo vale a pena. É isso que nos dizem novamente os Fleet Foxes. É ingénuo, porventura simplório, escrevê-lo assim, mas há nesta música uma crença e convicção que não nos deixam outra hipótese senão segui-la.

“I am all that I need”, canta Robin Pecknold logo a início. “Aren’t we made to be crowded together like leaves”, cantará ele mais tarde, em Third of May / Ödaighara. É uma analogia com um pé na foleirada new age mas, cantada pelas vozes dos Fleet Foxes, parece mesmo verdade. Perdão, é mesmo verdade.