O careca romano descoberto em Beja há mais de um século é, afinal, Júlio César

A cabeça em mármore que Beja guardou durante 117 anos sem saber quem tentaria retratar reúne “todas as características” que o biógrafo romano Suetónio associou a Júlio César: “rosto um pouco cheio e olhar vivo e calvo, mas para disfarçar puxava para a testa os poucos cabelos que ainda tinha”.

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Busto descoberto em Beja
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Busto descoberto em Beja
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Busto de Tusculum
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Busto de Arles

Durante 117 anos, foi mantido num nicho do Museu Regional de Beja, afastado da observação directa e completa, um busto que tinha a seguinte inscrição: “Cabeça de mármore romana achada em Beja”. E assim permaneceu no anonimato até que, ao longo da última década, vários investigadores colocaram como hipótese de trabalho a possibilidade de se tratar de uma das raras cabeças esculpidas em mármore que existem a nível mundial contemporâneas de Júlio César, nascido no ano 100 a.C. e assassinado no ano 44 a.C.

A arqueóloga Conceição Lopes, que liderou com Jorge Alarcão uma equipa de especialistas do Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Ciências do Património da Universidade de Coimbra, confirmou ao PÚBLICO que se trata de uma peça esculpida em mármore há cerca de dois mil anos, um “retrato que reúne todas as características que Suetónio (biógrafo e escritor romano) atribuiu a Júlio César”. E acrescenta que terá sido a cabeça de “uma grande estátua” exposta na então Pax Iulia.

Para alicerçar estas conclusões, para além das características físicas expressas no busto, os investigadores analisaram e interpretaram “argumentos de especialistas em arte”, associaram os resultados de uma “reanálise” de toda a escultura e os novos dados arqueológicos entretanto surgidos, explicou ao PÚBLICO Ana Paula Amendoeira, directora regional de Cultura do Alentejo (DRCAlentejo), a entidade coordenadora do projecto.

A descoberta do busto agora atribuído a Júlio César foi descrita na edição de Outubro/Novembro de 1902 de O Archeologo Português, publicado pelo Museu Etnográfico Português. Em Dezembro de 1900, o etnólogo e arqueólogo José Leite de Vasconcellos, recebe uma carta do conservador do Museu Municipal de Beja a comunicar-lhe que, meses antes, quando decorria a demolição de parte da muralha que circunda o centro histórico da cidade alentejana para ser construído o Palácio das Repartições Públicas (edifício do antigo Governo Civil de Beja), foram encontradas “várias antiguidades romanas”. De entre os achados, “fragmentos de capitéis, frisos e fustes de colunas, restos de pedras tumulares e outras”, materiais que teriam sido reutilizados na construção da muralha, apareceu “uma cabeça de estátua de mármore”.

Em Outubro de 1901, Leite de Vasconcellos desloca-se Beja para observar os achados arqueológicos recolhidos e observar uma fotografia da cabeça de mármore, oferecida ao Museu de Beja em Fevereiro de 1900. Foi então comunicado a Leite de Vasconcellos que o busto tinha sido encontrado por um trabalhador quando procedia à recolha dos entulhos durante os trabalhos de demolição “no 2.º baluarte da 2.ª ordem de muralhas da cidade, metido na vedação das ruínas do Convento da Esperança”. 

Da consulta que então fez a Salomon Reinach, especialista de estatuária greco-romana, o etnólogo conclui que a peça pertencia ao final do século I. d.C. Em 1903, e após nova deslocação a Beja, publica no Archeologo Português os pormenores da cabeça de mármore que definiu com um “retrato que apresenta no lado direito do osso frontal uma cicatriz feita com instrumento cortante (provavelmente espada). (...) a orelha esquerda quase toda esmoucada. A orelha direita está esmurrada em cima, assim como o lábio inferior. A parte anterior do crânio apresenta-se calva e só a parte posterior tem cabelo, que rodeia as orelhas”.

A arqueóloga Conceição Lopes refere que os trabalhos de limpeza e análise da cabeça agora atribuída a César refutaram o argumento de que o político e general romano era calvo. “Nós verificámos que tinha cabelo ondulado. O problema é que a sua colocação num nicho não permitia observar parte da escultura”.

Nos anos 50 do século passado, o busto ainda se encontrava exposto num pedestal em gesso e em lugar bem visível até que, não se sabe quando, foi transferido para um nicho, numa ala do claustro do Museu Regional de Beja, “onde também está a designada Vénus de Beringel, outra escultura de grande qualidade”, refere Conceição Lopes.

A importância da peça já foi objecto de várias análises ao longo das últimas décadas. Na referência que é feita no Portal do Arqueólogo ao busto de Beja, o professor Luís Jorge Rodrigues Gonçalves referia, em 2007, que os autores que analisaram peça “são unânimes em considerar que se trata de um retrato privado”.

Leitura diferente foi apresentada pelo historiador Vasco de Souza que, nos anos 80 do século passado, fez um trabalho de síntese da escultura romana em Portugal no qual adiantava que, “na concepção geral, o busto recorda César. No entanto, a simetria das formas é já elemento do classicismo de Augusto”.

Vasco de Souza refere ainda um dado interessante: os “retratos romanos imperiais encontrados em Portugal são, na sua maioria, cabeças de encaixe elaboradas para serem inseridas numa estátua”, isto é, corpos aos quais se acrescentavam as cabeças consoante o imperador que estivesse no poder.

Outro dado importante veio reforçar a intervenção dos investigadores em relação a este busto. Em 2007, no rio Ródano, em Arles, França, foi encontrado um outro busto anunciado como a mais antiga representação conhecida de Júlio César e o único que teria sido feito com o general ainda vivo, excepto o Tusculum, que está no museu de Turim, realizado imediatamente antes ou logo após a sua morte. O debate que entretanto ocorreu em torno da identificação com César do busto saído do Ródano “deixou claro que não há dele nenhum retrato oficial, que nunca houve nenhuma organização para difundir a sua imagem com cânones bem definidos e standartizados, deixando aos artistas liberdade para fazerem as suas interpretações”, vincou Conceição Lopes, acrescentando ser muito difícil “procurar dois retratos exactamente iguais”.

Comparando a cabeça de Beja com a de Tusculum, “são claras as semelhanças no formato dos lábios e covas nos cantos, nas rugas profundas, no enquadramento dos olhos em sobrancelhas arqueadas, mas o retrato de Beja manifesta mais evidentes semelhanças com o de Arles, nomeadamente no formato do rosto e nariz”, descreveu a arqueóloga responsável pelo estudo do busto de Beja. As semelhanças entre os retratados de Arles e Pax Iulia “deixa aberta a possibilidade de o personagem retratado nas duas cidades romanas ser o mesmo”, admite Conceição Lopes explicando que “a hesitação do reconhecimento de César” no exemplar existente no Museu Regional de Beja se deve, em grande parte, ao facto de até há muito pouco tempo se afirmar que Pax Iulia “era uma fundação ex-nihilo do tempo do imperador Augusto (por volta de 31/27 a. C), o que tornava pouco provável um retrato de César nesta cidade romana”.

Contudo, as recentes escavações na Praça da República em Beja vieram revelar que a cidade já era “próspera e importante” no tempo de César. Os dados recolhidos reforçaram a sua importância histórica como centro político e administrativo, que lhe advinha do facto de ter sido “a única cidade de estatuto colonial fundada no Sudoeste peninsular” – um estatuto que justifica plenamente a presença de estátuas ou bustos alusivos a César, acentua Conceição Lopes.

A importância da descoberta justifica a deslocação do ministro da Cultura a Beja no próximo sábado, dia 17, para, ao meio-dia, inaugurar o novo pedestal no Museu Regional de Beja, onde passará a estar exposta a escultura que ficará identificada como sendo contemporânea de Júlio César.

A investigação que conduziu à identificação da peça arqueológica descoberta no ano 1900 foi apoiada e financiada com base num protocolo estabelecido entre a Comunidade Intermunicipal do Baixo Alentejo, a DRCAlentejo, Universidades de Coimbra e de Évora e a Fundação Millennium BCP, que doou uma verba de 18 mil euros.