Crítica Artes

A arte de representar Maria

Obras-primas dos museus do Vaticano dialogam no MNAA com a arte antiga portuguesa.

Onde encontrar cá, no mesmo espaço, Rafael, Leonardo, Miguel Ângelo, Pintoricchio, Fra Angelico?
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Onde encontrar cá, no mesmo espaço, Rafael, Leonardo, Miguel Ângelo, Pintoricchio, Fra Angelico? Margarida Basto

A propósito desta exposição, quase todas as notícias que têm vindo a público acentuam o facto de, pela primeira vez, ser possível apreciar em Portugal uma selecção de obras-primas dos Museus do Vaticano, agrupadas sob a égide deste tema tão importante na iconografia e na devoção religiosas cristãs. Na realidade, não se trata apenas de peças desses museus; os curadores, Alessandra Rodolfo pela instituição vaticana, e José Alberto Seabra Carvalho, pela portuguesa, seleccionaram também obras das galerias Borghese e Corsini. A exposição completa-se ainda com uma escolha alargada de peças de instituições portuguesas que possuem em comum a radicação nesse gosto italiano que domina na mostra, e que, apesar de contrariarem o subtítulo da exposição — Tesouros dos Museus do Vaticano — possuem uma componente pedagógica nada negligenciável. Por causa da inclusão destas últimas obras, é possível confirmar a divulgação das imagens de devoção italianas se fizeram também em Portugal. Ou, pelo menos, intuir esse facto.

Madonnas, contudo, é antes de mais a oportunidade de ver o que apenas raramente, ou talvez nunca, se vê em Portugal. Onde encontrar por cá, juntos no mesmo espaço, pintura de Rafael, desenho de Leonardo da Vinci, uma cópia da Pietá de Miguel Ângelo, Pintoricchio e Ghirlandaio, Fra Angelico e Van Dyck? Como é evidente, nem todas as obras aqui presentes, sejam elas pintura, relevo, escultura, livro impresso, tapeçaria, entre outras, estão atribuídas ou possuem a mesma importância que estas que acabámos de citar, e que são provavelmente aquelas que o público identificará mais facilmente. Uma visita atenta e demorada revelará outros tesouros, e isto logo desde os inícios.

De facto, a montagem segue uma linha sobretudo cronológica, mas não sem nos reservar algumas surpresas pelo caminho. Assim, logo no começo, dois fragmentos de sarcófagos romanos (obviamente posteriores a 313, data do édito que instituía a liberdade de culto para os cristãos) mostram já imagens alusivas ao nascimento de Jesus, colocando em cena algumas das primeiras representações de Maria. Bem perto destes antiquíssimos testemunhos está a única obra modernista da exposição: um belíssimo quadro de Chagall que insere a imagem de Maria numa composição surrealizante e que, como era hábito neste artista, convocava também a iconografia das tradições populares judaicas do norte da Europa. Depois desta espécie de resumo tão bem conseguido, a montagem segue com um grande destaque dado aos chamados primitivos italianos, ou seja, os artistas do gótico final próximos da arte bizantina, e ao Renascimento propriamente dito, com os grande mestres que já citámos bem representados. Deve-se salientar também aqui a presença de uma Madonna de Álvaro Pires de Évora, que trabalhou em Itália mesmo antes da revolução pictórica do Renascimento, e que em nada fica a dever aos seus colegas desse país.

Através da sucessão das salas e das obras vamos compreendendo como as mudanças de gosto e estilo até finais do século XVIII, o marco temporal que limita a jusante a selecção dos curadores, servem de diferentes modos o culto mariano. Momentos chave no desenvolvimento desta devoção são por um lado a contra-reforma, com a afirmação sem equívocos da legitimidade deste culto; e por outro lado justamente o início do estilo gótico, que marca sem dúvida uma humanização do divino muito evidente na escultura da época, por exemplo. Não será demais aconselhar uma visita complementar à extraordinária colecção de escultura mariana do MNAA que comprovará sem dúvida esta afirmação. Talvez seja esta também a razão pela qual encontramos tão poucas peças românicas e, sobretudo, bizantinas, que os museus do Vaticano as possuem decerto em quantidade e qualidade.

E, no fundo, o que mais releva é a continuidade de um tema que atravessa os séculos, ultrapassando as divisões que historiadores e críticos instituem artificialmente no tempo. A cópia da Pietá de Miguel Ângelo que viajou até Portugal (tão perfeita que serviu de modelo ao restauro do original depois do acto de vandalismo nos anos 70) é o retrato imaginado de uma mulher comum com o filho morto nos braços. Vezes e vezes sem conta, esta figura próxima do crente ressalta em bom número de obras incluídas na exposição. Escolher uma delas? A Virgem no Parapeito, de Pintoricchio: o retrato de uma rapariga judia, à janela, que mostra o filho a quem a olhava.