Parlamento votou por unanimidade candidatura de Lisboa a agência europeia, mas a maioria esqueceu-se

Foi há pouco mais de um mês que os deputados, todos, por unanimidade, saudaram e apoiaram a candidatura de Lisboa para sede da Agência Europeia de Medicamentos. Agora, alguns questionam a escolha e sugerem alternativas.

MANUEL DE ALMEIDA
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MANUEL DE ALMEIDA

A acta das votações está online, para quem não acreditar. No dia 11 de Maio último, “a Assembleia da República, reunida em plenário, saúda e apoia a candidatura de Portugal à fixação da sede da Agência Europeia de Medicamentos em Lisboa, como de interesse nacional”. Esta era a conclusão do “voto de saudação”, que refere Lisboa por três vezes, aprovado por unanimidade pelos deputados. Para os mais cépticos, é o “voto n.º 306/XIII/2.ª” e também pode ser consultado no site do Parlamento o resultado da votação: “Aprovado por unanimidade.”

Porém, nos últimos dias, depois das críticas de alguns autarcas (do Porto, sobretudo), vários deputados começaram a criticar o sentido do seu próprio voto. E também aqui quase que há unanimidade. A falta de memória varreu todos os quadrantes (com a excepção aparente do PCP).

Cecília Meireles, do CDS, acha agora que é um “provincianismo”. Catarina Martins, do Bloco, deu uma pirueta e afirmou: “Eu julgo até que se devia decidir que Lisboa não era a melhor opção e depois olhar para as outras cidades do país que estão em condições de o fazer, seguindo exemplos de outros países que não concentraram as agências europeias nas capitais.” Um grupo de deputados do PS, o partido proponente da “saudação” à candidatura de Lisboa, quer, agora, estudos que comprovem a validade do que há um mês não teve dúvidas de votar. Outros deputados, do PSD, avançam com localizações melhores: Braga, Coimbra… O vice-presidente social-democrata, Miguel Santos, quer até um “toque de verdade”: “Consegue o ministro da Saúde verbalizar, com um toque de verdade, das razões para tal decisão e dos argumentos para preterir outras cidades portuguesas?”.

O alerta para esta crise de memória colectiva foi dado pelo investigador Nuno Garoupa, ex-presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que na sua página na rede social Facebook, lembrou o sentido da votação de Maio para criticar a “hipocrisia” geral, dos partidos aos media: “O que impressiona mais não é a hipocrisia dos partidos. Nem dos seus deputados por Porto, Braga ou Coimbra que aprovaram o Voto de Saudação na Assembleia para depois romperem as vestes na praça pública! O que mais impressiona é a comunicação social tolerar este espectáculo!”.

O PÚBLICO foi confirmar a informação fornecida por Nuno Garoupa e reconstituiu a extraordinária mudança de posição de vários partidos no curto espaço de um mês. A candidatura de Portugal para receber a Agência Europeia de Medicamentos até pode não passar de uma intenção frustrada. São vários os países candidatos a esta agência que tem sede no Reino Unido, mas mudará de localização depois de consumado o Brexit. Mas uma coisa parece óbvia: em ano de autárquicas, as convicções unânimes de hoje podem ser a polémica de amanhã…