Em Setúbal, a ilustração é uma festa

A terceira edição da Festa de Ilustração de Setúbal — É Preciso Fazer Um Desenho? decorre até dia de 2 Julho. António Jorge Gonçalves ocupa a Casa da Cultura e Manuel Ribeiro de Pavia, a Galeria do 11. Mas há mais espaços ilustrados na cidade.

Subway Life, Desenhos Efémeros e A Minha Casa Não Tem Dentro, na Casa da Cultura
Subway Life, Desenhos Efémeros e A Minha Casa Não Tem Dentro, na Casa da Cultura DR
Exposição-retrospectiva de Manuel Ribeiro de Pavia, na Galeria do 11
Exposição-retrospectiva de Manuel Ribeiro de Pavia, na Galeria do 11 DR
Pavia: um alentejano neo-realista
Pavia: um alentejano neo-realista Misé Pê
Os grandes e pequenos escritores da época tiveram as capas dos seus livros ilustrados por Pavia
Os grandes e pequenos escritores da época tiveram as capas dos seus livros ilustrados por Pavia Misé Pê
Anúncios Classificados (1865-1960), no Cais 3 do Porto de Setúbal
Anúncios Classificados (1865-1960), no Cais 3 do Porto de Setúbal DR
Ilustração Portuguesa, no Convento de Jesus
Ilustração Portuguesa, no Convento de Jesus DR
É Preciso Contar Uma História?, na Casa da Avenida
É Preciso Contar Uma História?, na Casa da Avenida DR
Ilustração digital ao vivo, na Casa da Cultura, por António Jorge Gonçalves
Ilustração digital ao vivo, na Casa da Cultura, por António Jorge Gonçalves DR
Imagem da Festa da Ilustração 2017
Imagem da Festa da Ilustração 2017 António Jorge Gonçalves
Fotogaleria

Desde o início do mês de Junho que há festa em Setúbal. Abriu, como habitualmente, numa sexta-feira à meia-noite, na Casa da Cultura. Desta vez com a inauguração dos trabalhos de António Jorge Gonçalves, organizados em três núcleos: Subway Life, Desenhos Efémeros e A Minha Casa Não Tem Dentro.

O primeiro (Subway Life) resulta de uma escolha de mais de três mil retratos que fez em deslocações de metro por várias cidades do mundo. Começou por Londres, passou por Atenas, Berlim, Lisboa, Cairo, São Paulo, Estocolmo, Moscovo e Tóquio. “Desenhava quem se sentava à minha frente”, não procurava a “menina mais bonita” ou “o passageiro mais original”, explicou o ilustrador durante a inauguração. Foi o acaso a ditar os retratados.

“Nunca pedi autorização a ninguém, mas também não fingi estar a fazer outra coisa. Durante os cinco a oito minutos que cada desenho levava a construir, comecei como observador e acabei como observado”, lê-se junto aos desenhos dos passageiros, reproduzidos em grande formato e numa rica diversidade de rostos e culturas. Os originais podem ser vistos nos cadernos do autor, também expostos. Foram oitocentas horas de trabalho que começaram em 1997.

O segundo núcleo da exposição é audiovisual (Desenhos Efémeros) e mostra diferentes participações do autor em espectáculos de teatro, música e dança, em que vai projectando no palco ou em edifícios o que desenha ao vivo digitalmente. António Jorge Gonçalves fez uma demonstração desse tipo de trabalho na noite da inauguração, com uma sessão com diferentes apontamentos musicais, no Pátio Dimas, a que chamou Eterópolis.

Por último, A Minha Casa Não Tem Dentro. Exposição de trabalhos que resultaram de uma experiência de “quase morte”. Nas palavras do artista, “morri, voltei e durante aquele período só pensava em conseguir desenhar aquilo que me estava a acontecer e a passar pela cabeça”. Dois registos podem ser observados: um a preto e branco e outro colorido.

Houve ainda espaço para cobrir uma parede da Casa da Cultura (antes de abrir a exposição) com alguns desenhos acompanhados de frases irónicas, filosóficas e desafiadoras.

As mostras na Casa da Cultura podem ser vistas de terça a domingo, a partir das 10h.

 

Pavia: um alentejano neo-realista

Por ali perto, a Galeria Municipal do 11 (Escola de Hotelaria e Turismo de Setúbal) acolhe uma exposição-retrospectiva de Manuel Ribeiro de Pavia. “Uma lenda, uma figura muito particular e uma referência na ilustração neo-realista”, segundo o curador Jorge Silva.

Alentejano, Pavia nunca pintou uma tela, só pintava e desenhava em papel. “Nunca quis ser aquilo que se designava na época como um artista plástico convencional. Tinha o sonho de fazer murais”, contou o designer na inauguração da mostra, no dia 10 de Junho.

A exposição divide-se em várias áreas: o Alentejo, as mulheres, “o Pavia era nessa matéria um sonhador, não se lhe conhecem amores, era um solitário, mas desenhou mulheres ideais às centenas”, e os livros que ilustrou, “durante os anos em que viveu em Lisboa, dos anos 1930 até 1957, tornou-se uma espécie de talismã de intelectuais e escritores portugueses. Todos os grandes e pequenos escritores, prosadores e poetas neo-realistas da época tiveram as capas dos seus livros ou até o miolo dos seus livros ilustrados pelo Pavia”.

Jorge Silva explicou como “foi o expoente das artes gráficas e da ilustração daquilo que podemos considerar o neo-realismo português. Um neo-realismo que era fraterno e tinha no espírito e na prática um futuro mais justo, mas bastante mais lírico e poético”.

O ilustrador morreu em 1957 (no dia em que celebrava 50 anos), “de broncopneumonia, num estado de debilidade muito grande”. Foi assistido na sua morte por amigos próximos, alguns deles grandes escritores da época. “O trauma e injustiça que essa morte causou fizeram com que a intelectualidade da época acusasse a distracção e o descuido que teve com o próprio Pavia”, recorda o director de arte, alertando para uma citação de Eugénio de Andrade ali reproduzida, sintetizando esta ideia: “Enquanto lhe falávamos de poesia e de sonhos, ele morria de fome.”

Esse “trauma” deu origem a um número especial da revista Vértice (n.º164), dedicado exclusivamente ao artista. “São textos fabulosos escritos pelos melhores escritores da época. Ele tornou-se assim uma espécie de modelo, exemplo de isenção, de orgulho, de rectidão, de uma obra muito coerente”, nas palavras de Jorge Silva, que considera, “não por vaidade, mas pelas preocupações de rigor histórico”, ser esta “a maior e melhor das cinco retrospectivas já realizadas” sobre a vida e trabalho do ilustrador.

A Galeria Municipal do 11 está aberta de terça a sábado. Jorge Silva fará duas visitas guiada nos dias 17 e 24 de Junho, às 19h (mediante inscrição).

 

Mais espaços, mais desenhos

Também por perto, no Cais 3 do Porto de Setúbal, há Anúncios Classificados (1865-1960), “um curioso panorama da publicidade ilustrada do século XX, com anúncios cómicos, bizarros e também irritantes” e a Ilustra 33. Na Casa da Avenida, reúnem-se ilustrações para o público infanto-juvenil, em É Preciso Contar Uma História? A Ilustração Portuguesa e TPC (trabalhos das Escolas Superiores de Arte) podem ser vistas no Museu de Setúbal/Convento de Jesus.

As ilustrações de reclusos do Estabelecimento Prisional de Setúbal estão na Biblioteca Pública Municipal de Setúbal, Fora de Muros, a Colectiva de Ilustradores, nos Lavadouros de Azeitão. A Casa do Largo — Pousada da Juventude mostra Cartazes 2016/17, de Bráulio Amado, e a Casa Bocage expõe Ensemble Sketchbook, de Zé Minderico. Resumo da Matéria Dada, por Baltazar, pode ser vista no Museu do Trabalho Michel Giacometti e Pintado de Fresco, na Galeria Municipal do Banco de Portugal, que reúne trabalhos de artistas da região.

Para o vereador da Cultura da Câmara Municipal de Setúbal, Pedro Pina, a festa é sobretudo “um espaço de afirmação cultural, artística e de liberdade, que resulta da qualidade dos ilustradores”. José Teófilo Duarte (da DDLX – Design), que organiza as exposições com João Paulo Cotrim (Abysmo), explica que a ideia de É Preciso Fazer Um Desenho? passa por “encher a cidade de desenhos e de coisas originais”. E não tem dúvidas de que a Festa da Ilustração de Setúbal “é original e surpreendente”.