Comentário

A culpa não é de Macron

O PS, que Mitterrand ressuscitou em 1971, está praticamente morto. Nas legislativas de 1969, os socialistas tiveram pouco mais de cinco por cento. E não se vislumbra alguém com o perfil do primeiro Presidente socialista da V República.

1. Foi quase patética a noite eleitoral em França. As justificações dos partidos derrotados (todos) perante a vaga de fundo de Emmanuel Macron foram a prova, se ainda faltava, do estado a que chegou o velho sistema político francês. Não se ouviu um só “Je vous ai compris”, a célebre frase de De Gaulle em Argel, que a classe política francesa gosta de repetir em momentos de convulsão. O desespero com que se agarraram ao nível elevado da abstenção, como se fosse essa a “razão” da hecatombe, apenas significa que ainda não querem perceber o que se passou em França nos últimos seis meses.

Jean-Luc Mélenchon fez da matemática eleitoral a sua nova bandeira, anunciando que Macron não tem qualquer legitimidade para reformar a França. As suas palavras foram para a rua. Pouco lhe importa que, na democracia liberal, a legitimidade de quem governa não depende do número de votantes. A abstenção é apenas um sinal político. Marine Le Pen seguiu o mesmo figurino. Curiosamente, foi entre os eleitores de Mélenchon e Le Pen que a abstenção se revelou maior. Que o secretário-geral do PS, Jean-Christophe Cambadélis, tenha usado os mesmos argumentos, aliás bem acompanhado por François Baroin, o líder dos Republicanos que deu a cara pela campanha, já é um sinal mais preocupante. Ambos manifestaram a sua preocupação com a falta de oposição que dizem que vai marcar a próxima Assembleia Nacional. Nenhum se interrogou sobre de quem é a culpa. De Macron? É difícil. Esperam-se os próximos capítulos sobre o destino, que não será brilhante, dos dois grandes partidos franceses. O PS, que Mitterrand ressuscitou em 1971, está praticamente morto. Nas legislativas de 1969, os socialistas tiveram pouco mais de cinco por cento. E não se vislumbra alguém com o perfil do primeiro Presidente socialista da V República. A facção moderada pode vir a integrar-se no espaço do “centro radical” ocupada pelo Presidente. Dificilmente conseguirá ressuscitar um partido em que foi destronada pelos “radicais”. A direita, que resistiu melhor mas que não terá um grupo parlamentar muito superior a 100 deputados (Macron pode chegar aos 400), acabará provavelmente por cindir-se entre a facção mais direitista (que andou à volta de Fillon e que está mais próxima das ideias da Frente Nacional) e o centro-direita, que se aproximou abertamente do programa do novo Presidente, integrando o seu governo. O choque foi brutal. Há um mês, Baroin chegou a insinuar que poderia ser o primeiro-ministro de Macron, de tal modo acreditava que os Republicanos seriam o partido maioritário na nova Assembleia, lembra Nicholas Vinocur no site Politico.

Macron não tem a culpa de ter ganho uma vasta maioria parlamentar. Ontem, a liderança do República em Marcha foi contida nos comentários à vitória. Não é um pecado. Bateu-se pelos valores da democracia e da Europa, recusou a xenofobia e uma velha ideia da França conservadora e cristã, que Fillon (e não apenas Le Pen) tentou ressuscitar. Teve a coragem de ter dito na cara de Marine que os jovens atraídos pelo terrorismo islâmico, se são franceses, são um problema da França.

2. A sorte do centro-esquerda europeu está a ser testada por toda a Europa, mas há as diferenças profundas, que resultam da história de cada um dos seus partidos. Começou com o desaparecimento do PASOK (em 2012), que abriu espaço à esquerda radical de Alexis Tsipras   hoje tão discreto no seu esforço para manter a Grécia no euro, que pouco se ouve falar dele. Na Itália, o Partido Democrata continua a ser vítima das suas lutas internas, levando em boa medida ao fracasso de Matteo Renzi sem que haja uma qualquer alternativa à sua liderança. O PS italiano foi praticamente erradicado com o fim da Guerra Fria, abrindo as portas a uma fusão entre ex-comunistas, socialistas e democratas-cristãos, que ainda não se libertaram das querelas do passado. Nesse sentido, Macron foi muito mais eficaz do que Renzi, embora pertençam ambos à mesma novíssima geração de políticos mais abertos ao pragmatismo reformista e menos à ideologia. Na Espanha, não serviu de nada ao PSOE optar por uma versão mais à esquerda (muito longe de Felipe González), encarnada por Pedro Sánchez. Mantem-se a dúvida sobre a sua capacidade de reduzir o Podemos a uma dimensão menos ameaçadora.

A Alemanha é um caso à parte. O declínio (relativo) do SPD não o afasta da disputa directa do poder ao centro-direita de Merkel. As eleições travam-se entre dois líderes que competem entre si para ver quem é mais pró-europeu. Os nacionalistas, depois de ganharem terreno, estão de novo em declínio, apesar da política de Merkel em relação aos refugiados, que o SPD acompanha. A única coisa que interessa, nas eleições de Setembro, é saber qual é a relação de força entre ambos, para avaliar o que poderá vir a ser a política europeia do país mais poderoso da Europa. Merkel não está muito longe de Macron. O SPD adaptou-se há muito às regas de uma economia social de mercado. Ao contrário do imobilismo francês, os sociais-democratas alemães ainda hoje lamentam as reformas de Gerhard Schröder, que estão na base da resistência da economia alemã aos ventos da globalização. A sociedade alemã também mudou. Muitos dos novos empregos são “Mcjobs". A desigualdade aumentou. Mas o sistema continua a funcionar.

3. Finalmente, houve quem não conseguisse resistir à tentação de invocar a “geringonça”, quando Jeremy Corbyn conseguiu um resultado absolutamente inesperado. Nada mais errado. A história do Labour não tem nada a ver com a história do PS português (tal como com a do SPD), que eliminou os resquícios marxistas e radicais, desde que teve de salvar a democracia contra o ataque dos comunistas. É esse o seu ADN. Não há contaminação possível. Por isso, a União Europeia e a NATO fazem parte da sua identidade política. Corbyn (ainda) mantém uma visão da Europa e do mundo mais próxima da esquerda radical europeia. Ganhou (mesmo perdendo) porque o que disse fazia sentido para mais gente do que inicialmente se pensava. A inflação e os efeitos do "Brexit" estão a destruir rendimentos à classe média britânica. Sem Guerra Fria, a sua ideia de desarmamento unilateral não é tão ameaçadora como chegou a ser nos anos 1980. Vai ter de olhar para quem o elegeu: muita gente, a começar pelos jovens, para quem o "Remain" fazia todo o sentido.