A ribeira de Aldoar vai correr a céu aberto na Avenida da Boavista, no Porto

Município vai avançar com a requalificação de mais um troço da artéria, que já começou a ser intervencionada durante a presidência de Rui Rio

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Simulação do novo projecto de intervenção na Avenida da Boavista DR
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Simulação do novo projecto de intervenção na Avenida da Boavista DR

As obras vão regressar à Avenida da Boavista, depois de uma paragem de mais de dois anos, e com uma novidade. A ribeira de Aldoar, que está entubada sob a artéria, vai passar a correr à superfície, num troço de cerca de 700 metros, ocupando parte do separador central no troço que será agora requalificado, entre a Avenida de Antunes Guimarães e a Avenida do Parque. Os trabalhos arrancam em 2018, terão a duração de dois anos e um custo de 4,2 milhões de euros, suportado em parte por fundos comunitários.

A requalificação da avenida começou no tempo da presidência de Rui Rio, com o objectivo anunciado de unificar toda a artéria, mas o conceito que agora será introduzido pelo arquitecto Rui Mealha, no troço de 760 metros, é bem diferente do que já foi feito. De tal modo que a apresentação do projecto, na reunião do executivo desta terça-feira, levou o vereador da CDU, Pedro Carvalho, a profetizar que, qualquer dia, será preciso “repensar” o que foi feito, deixando um desejo: “Se for preciso repensar a união da avenida, que seja com base no que está a ser feito neste troço”.

O projecto prevê um troço central com a ribeira a correr a céu aberto, uma ecovia para ser partilhada por peões e bicicletas, novo mobiliário urbano (incluindo bancos) e um aumento considerável da arborização da artéria. Rui Mealha explicou que, enquanto algumas árvores actuais se irão manter – como tílias e plátanos – serão plantados no troço 213 novas árvores, incluindo 197 carvalhos alvarinho, que o arquitecto espera ver chegar à avenida já com alguma dimensão. “Pensamos em árvores com cerca de dez anos, para sejam logo visíveis e tenham um impacto na imagem urbana”, disse.

Os pontos onde a ribeira surgirá à superfície e onde desaparecerá serão também marcados por tanques, a que o vereador Correia Fernandes, ex-vereador do Urbanismo, sugeriu que fosse acrescentado algum elemento de “arte urbana”. O granito vai marcar a passagem deste “caminho de água”, que o vereador do Ambiente, Filipe Araújo, explicou ter uma importância que vai muito para além da estética. “Colocar a ribeira à superfície ajuda-nos a controlar a precipitação e ilhas de calor. Esta opção vai diminuir imenso a temperatura que ali se faz sentir”, disse.

A intervenção neste troço da avenida – fica apenas a faltar um troço, que inclui a complicada ligação com a Avenida Marechal Gomes da Costa, e que está em “estudo prévio”, segundo a vereadora da Mobilidade, Cristina Pimentel – vai ainda levar a um “reperfilamento” de toda a artéria que, segundo o autor do projecto, permitirá, em algumas zonas, “alargar significativamente” os passeios. A via terá duas faixas em cada sentido, haverá novas infra-estruturas ao nível do saneamento ou abastecimento de água, e uma renovação da iluminação urbana. A obra vai contemplar ainda a criação de 12 novos lugares de estacionamento e a colocação de seis novos conjuntos de pontos de recolha de resíduos urbanos.

O presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, admitiu que a opção apresentada difere do que estava previsto pelo anterior executivo e que classificou como “uma solução muito viária”. De fora fica, por exemplo, a possibilidade de introduzir novas rotundas na via. “A Avenida da Boavista não deve ter mais rotundas do que as que tem. Perderia toda a sua leitura. Ela tem que ter uma inserção urbana”, disse.

Por isso, acrescentou a vereadora da Mobilidade, este troço não contemplará “alterações significativas” em termos de gestão de tráfego. O que será introduzido em termos de mudança prender-se-á, basicamente, “com um sistema de semaforização mais optimizado”.

A empreitada é das Águas do Porto e a comparticipação dos fundos comunitários poderá rondar os 50%, segundo fonte da câmara. A candidatura será enquadrada no programa de controlo de cheias e inundações e o concurso deverá ser lançado em breve.

O projecto foi elogiado por Correia Fernandes e por Pedro Carvalho, que o classificou como “excelente”. A vereadora socialista Carla Miranda deixou a sugestão para que os bancos a introduzir no local não sejam os habituais “caixotes sem costas”, que não convidam as pessoas “a fixar-se e fruir” do espaço. Rui Mealha tomou nota.

Vereador “preocupado” com WoW em Gaia

O ex-vereador do Urbanismo na Câmara do Porto, Manuel Correia Fernandes, pediu a palavra na reunião do executivo desta terça-feira para dizer que está “preocupado” com o projecto Mundo do Vinho – Worlf of Wine (WoW), apresentado na semana passada para o centro histórico de Vila Nova de Gaia. A razão é que as encostas do município vizinho servem “de cenário” ao Porto Património Mundial e o arquitecto teme que projectos potencialmente “muito intrusivos” possam prejudicar o centro histórico do Porto classificado pela Unesco. E tentou que o novo vereador do Urbanismo, Rui Losa, abordasse o tema, mas sem sucesso.

Recordando que, enquanto administrador da Sociedade de Reabilitação Urbana, Losa proferira uma conferência, há cerca de dois anos, vincando a indissociabilidade das caves de Gaia com o centro histórico do Porto, o socialista pediu que o agora vereador, que o substituiu na gestão do Urbanismo do município, se pronunciasse, mas Losa escusou-se, justificando: “O que penso sobre projectos em Vila Nova de Gaia é uma questão pessoal. A Câmara de Gaia é absolutamente competente para, no seu território, deliberar como entender”.

Em Março de 2015, Rui Losa afirmou, numa conferência, que “se Gaia deixasse demolir as caves, o Porto perdia a classificação da Unesco”, vincando a “relação indissociável” entre as duas margens do rio Douro.

Na semana passada, o presidente de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues, participou no lançamento simbólico da primeira pedra do projecto de cem milhões do grupo The Fladgate Partnership, que vai implicar a demolição de dois armazéns e a intervenção em vários edifícios vazios no coração do centro histórico da cidade.

Correia Fernandes disse ter estranhado, também, que fosse lançada uma obra que não se encontra ainda licenciada. Do executivo, o vereador do PS conseguiu apenas a confirmação pública do presidente Rui Moreira que também tem “uma preocupação” sobre o projecto do município vizinho e o desejo que este não venha a ter “consequências” negativas para o Porto.

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