Opinião

A Gôndola e o pelicano que se tornou de rapina

Os lotes junto à Av. de Berna de que apenas resta uma “ilha” de nome Gôndola são um imenso filão do ponto de vista do imobiliário.

Desengane-se o leitor que imagina o título acima como sendo de alguma fábula de La Fontaine até agora inédita entre nós, cuja acção, e moral, já agora, se desenrole pelos canais de Veneza. Ou que o mesmo seja a tradução para português de kanji saído da pena de Kawabata ou de algum genérico de filme de Mizoguchi.

Nada disso. A embarcação referida é, na verdade, um bem conhecido restaurante de Lisboa e o pelicano uma associação mutualista com créditos firmados desde 1844 e que “leva mais longe a inovação, a economia e o futuro”. Quanto à história, ainda sem final seguro, conta-se em poucas pinceladas.

Em Agosto de 2002, a Câmara Municipal de Lisboa (CML) decidiu demolir (em vez de recuperar) a moradia déco do n.º 71-73 da Av. Santos Dumont, de que era proprietária, com o argumento de que as condi��ões físicas da mesma constituíam perigo iminente para os “okupas”, que a ocupavam desde 1996, ao que se disse na altura com o “consentimento verbal” do edil à época, e ninguém então terá compreendido o porquê da pressa com que tudo foi feito.

Curiosamente, nesse mesmo ano foram também as instalações do primeiro Teatro Aberto, de João Lourenço, que desde 1982 se encontravam no gaveto da Av. Berna com a Praça de Espanha — o novo teatro junto à mesquita acabava de abrir (Fevereiro de 2002), deixando vago o terreno de gaveto. “Deixemo-lo respirar”, salientaria então o presidente da CML.

E assim ficariam a respirar ambos os terrenos, o da vivenda “desocupada” e o do teatro deslocalizado, agora com algumas árvores plantadas e outros tantos lugares de estacionamento automóvel.

Analisados os acontecimentos de então à luz do que agora se conhece, revela-se curiosa a instalação da esquadra da PSP na moradia do n.º 75 da Av. Santos Dumont, em Julho de 2009. Não que a presença da polícia ali fosse injustificada, longe disso, desde logo porque a esquadra do Rego fechara seis meses antes e faltava segurança na zona, mas porque não só a PSP se instalava na moradia imediatamente ao lado da demolida em 2002, como a sua permanência na dita se revelaria, afinal, provisória — contrariando as declarações do ministro em como ali se faria "esquadra a sério e não a fingir" —, saindo da mesma em 2016, e estando agora a referida moradia com destino traçado: a demolição.

Mas voltemos ao Inverno de 2013, altura em que se dá mais uma demolição da responsabilidade da CML, desta vez na moradia do gaveto da Rua D. Luís de Noronha e a Av. Berna. Desprotegida, negligenciada, maltratada, a demolição desta vivenda nem mereceu nota de rodapé da imprensa, que merecida seria pelo facto de a mesma ter sido doada à CML, certamente com outro propósito que não o da sua demolição.

Contudo, esta demolição teve o mérito de fazer luz sobre o puzzle cujo desenho estava até então por desvendar: os lotes que perfazem aquele imenso “L”, de gaveto a gaveto, da R. D. Luís de Noronha à Av. Santos Dumont, e de que apenas restava (resta) uma “ilha” de nome Gôndola, é um imenso filão do ponto de vista do imobiliário.

Pouco tempo depois — não sem que antes tenha havido um rol de estudos prévios para a envolvente da Praça de Espanha, todos inconsequentes pois nenhum saiu o papel —, o ciclo haveria de fechar-se em 2014, com o firmar de um contrato de permuta entre a CML e a Caixa Económica Montepio Geral (CEMG) e a Lusitânia – Companhia de Seguros, S.A.

Nele, a CML não só desimpede ambas de executarem as operações urbanísticas tendentes à construção de edifícios nas parcelas de terreno já na sua propriedade como, por permuta, cede uma “parcela de terreno municipal, localizada na Praça de Espanha, Av. Berna e Av. Santos Dumont”, com um “acréscimo de edificabilidade para a CEMG de 6220 m2 de área de superfície de pavimento”, correspondendo 6000m2 ao Montepio e 220m2 à Lusitânia. Resumindo: está aberta a construção de mais mostrengos ao jeito do que já existe no quarteirão da Av. Berna entre a R. D. Luís de Noronha e a R. Ten. Espanca, por exemplo.

Faltava, contudo, um detalhe: os arrendamentos camarários em vigor, da moradia da PSP (de resolução fácil, já consumada, aliás, com a saída da esquadra) e, mais bicudo, o da Gôndola, conhecido restaurante de luxo e oásis na selva de asfalto em que se tornou a Av. Berna, e que antes de ser restaurante foi casa do mordomo de Gulbenkian, esconderijo para fugidos italianos que ali aguardavam por transpor o Atlântico e que é tão conhecida pelas suas trepadeiras, baixelas em prata e azulejos Battistini, como pelos ilustres comensais que conseguiu manter até hoje, mas que, curiosamente, ainda não se manifestam contra o anunciado fecho de final do presente mês, em que acordaram os responsáveis pelo sereníssimo restaurante e o novel senhorio, até porque a razão invocada por este último era invencível: ali seria construída a futura sede da associação mutualista.

Contudo, as coisas não são bem assim e parece que os lotes d’A Gôndola e demais moradias e equipamentos abatidos (desde 2002) vão dar lugar, isso sim, a prédios de habitação, o que já dá para que toda esta história tenha um final, quiçá, diferente e, seguramente, uma moral já digna de La Fontaine. Ou não?