Underscore, o cinema mudo trazido para o presente pela música de hoje

Primeira edição do Festival de Imagem em Movimento, Música, Som e Arquivo decorre de 13 a 17 de Junho em Lisboa, resgatando a história do cinema ao arquivo.

<i>O Homem Forte</i> (1929), do polaco Henryk Szaro, abre o festival no Centro Cultural de Belém
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O Homem Forte (1929), do polaco Henryk Szaro, abre o festival no Centro Cultural de Belém

Chama-se Underscore, nome retirado à designação técnica da música usada como “pano de fundo” nas bandas-sonoras, e quer trazer para o primeiro plano a relação entre a música e a imagem. Organizado pela curadora e investigadora Érica Faleiro Rodrigues e pelo compositor e instrumentista Diogo Alvim, o novo Festival de Imagem em Movimento, Música, Som e Arquivo que decorre de 13 a 17 de Junho no Cinema São Jorge, em Lisboa, fará essa ligação através de uma série de “filmes-concerto” concebidos propositadamente para o efeito, em que obras do cinema mudo receberão acompanhamento ao vivo.

Em breve conversa com o PÚBLICO, Érica Faleiro Rodrigues explica que o Underscore foi moldado em grande parte pela sua própria experiência no Barbican Centre de Londres, “uma grande escola conhecida como a casa do cinema mudo”, diz. “Foi aí que me apercebi do carácter experimental que mostrar um filme mudo com música traz sempre. A leitura do filme altera-se completamente consoante a banda-sonora escolhida, com toda uma série de variáveis inéditas. Ao mesmo tempo, estes eventos permitem resgatar filmes esquecidos no arquivo, e dar-lhes uma nova dimensão no presente.”

A abertura do festival tem lugar no Centro Cultural de Belém, na noite de 13, com a projecção do mudo polaco de 1929 O Homem Forte, realizado por Henryk Szaro, com música composta e interpretada pelo quarteto de improvisadores jazz polacos Pink Freud. Com sessões sempre às 21h30 no São Jorge, seguem-se a 14 o mudo checo de 1927 A Sonata de Kreutzer, de Gustav Machaty, acompanhado pelo baterista de jazz Pavel Fajt (igualmente autor da partitura) com dois músicos portugueses, a violinista Maria do Mar e a vocalista Maria Radich; a 15, uma performance de cinema expandido pela dupla espanhola Adriana Vila e Luis Macías (Crater Collective), acompanhada de uma sessão de perguntas e respostas com o público; e, a 17, uma recriação da sessão do V Congresso Internacional da Crítica Dramática e Musical organizada em 1931 por António Ferro. A sessão é composta por Douro Faina Fluvial (1931), de Manoel de Oliveira, Nazaré Praia de Pescadores (1929), de Leitão de Barros, e Alfama, a Velha Cidade (1930), de João de Almeida e Sá, à qual o festival acrescentou A Dança dos Paroxismos, o primeiro filme de Jorge Brum do Canto, de 1930.

A música desta sessão estará a cargo de Neil Brand, especialista em acompanhamento e composição de temas para filmes mudos que, por exemplo, trabalhou com o British Film Institute nos filmes mudos de Alfred Hitchcock e é presença regular no festival bolonhês Il Cinema Ritrovato. Esta é uma das propostas que Érica Faleiro Rodrigues destaca na programação, e que surgiu de conversas com a Cinemateca Portuguesa. “É uma espécie de homenagem às vanguardas portuguesas”, explica a co-directora, “com um elemento de surpresa n'A Dança dos Paroxismos, que é um filme lindíssimo e quase nunca mostrado”.

O Underscore faz aliás um desvio para a Cinemateca com a exibição, na noite de 16, do recém-restaurado Mulheres da Beira (1922), de Rino Lupo, com música e acompanhamento a cargo de Nicholas McNair (tal como no DVD recém-editado). Ao mesmo tempo, não se esquecem as famílias, com a exibição, na manhã de 17, às 11h, de um programa de filmes animados da mestra da animação de silhuetas, Lotte Reiniger, com música de Brand e acompanhamento e tradução da performer Sónia Baptista.

A multiplicidade de propostas ao longo dos cinco dias – com os acompanhamentos musicais a irem do mais tradicional ao piano até ao experimentalismo assumido – tem, para Érica Faleiro Rodrigues, algo de “maroto e provocador”: “As audiências e os gostos estão muito divididos, separados por muros invisíveis. Uns só vão ver rock, outros só vêem jazz, e como o Diogo tem uma consciência e um gosto muito ecléctico quisemos propor um leque alargado de experiências e sonoridades, ter um elemento de surpresa que pudesse atrair públicos muito diferentes.” A programação completa pode ser consultada em www.underscore.pt