Theresa May: “Meti-nos nesta confusão, vou tirar-nos dela”

Num encontro com o diminuído grupo parlamentar do seu partido, a primeira-ministra britânica pediu desculpas e foi convincente. Os conservadores não querem uma disputa interna e temem novas eleições.

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Theresa May sai de Downing Street a caminho do encontro com o seu grupo parlamentar WILL OLIVER/epa

A líder conservadora britânica, Theresa May, entrou no encontro com o seu grupo parlamentar com uma atitude humilde e pediu desculpa. Reconheceu erros e prometeu melhorar. Deu aos deputados a hipótese de decidir. “Serei a vossa líder enquanto me quiserem”, declarou, segundo deputados presentes. Foi aplaudida e saiu mais aliviada do que contente, segundo a descrição do diário britânico The Guardian.

“Meti-nos nesta confusão, vou tirar-nos dela”, declarou May no encontro. Pediu desculpas por 12 deputados terem perdido os seus lugares nas eleições antecipadas que ela própria decidiu marcar, uma decisão que levou à perda da maioria do seu partido no Governo. “Não mereciam.”

May terá ainda prometido ouvir todas as alas do partido em relação ao processo de saída do Reino Unido da União Europeia, e disse que “tem de haver um consenso mais alargado” na questão.

Não ficou claro se esta foi a “performance da vida” de May – como dissera um deputado conservador citado pelo Financial Times ser preciso para a primeira-ministra conseguir "convencer um partido traumatizado de que conseguirá liderar o país", com um governo minoritário e atravessar o processo de saída da União Europeia. Um processo que deverá arrancar já na próxima semana.

Isto quando ainda não é certo o apoio do DUP, o Partido Democrático Unionista da Irlanda do Norte, ao Executivo liderado pelos conservadores. May e a líder do partido, Arlene Foster, têm marcada uma reunião para esta terça-feira para chegar a um acordo.

O Discurso da Rainha, que marca formalmente o início da legislatura ao elencar as prioridades governativas, será provavelmente adiado devido à falta de clareza sobre o que será este Executivo. Como é escrito num material que não permite emendas - um pergaminho onde a tinta demora dias a secar, explica o Guardian - tem que estar pronto com antecedência. Os trabalhistas disseram que o provável adiamento do discurso mostra “o caos” no governo.

Falta de alternativa

Se antes da reunião havia vozes a defender o afastamento da primeira-ministra – lideradas por George Osbourne, afastado por May do cargo de ministro das Finanças e agora director do jornal Evening Standard – notava-se já um forte apoio a May sobretudo concentrado na ala eurocéptica do partido, que teme que a sua saída pusesse em causa os planos para o “Brexit”.

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Boris Johnson, declarou que rumores sobre uma eventual saída da primeira-ministra eram “um disparate” e sublinhou que “a prioridade é manter Jeremy Corbyn fora de Downing Street”.

David Davis, o ministro para as negociações do "Brexit", afirmou que apesar dos erros da campanha (que classificou como “decepcionante”), May é uma “uma primeira-ministra formidável” e criticou quem questiona a sua permanência.

“Não vejo grande vontade entre os meus colegas de presentear o público com uma enorme dose adicional de incerteza envolvendo-se numa campanha interna de eleição para a liderança conservadora”, afirmara ainda o líder do grupo parlamentar, Graham Brady, à emissora britânica BBC.

O encontro foi fechado e por isso os jornalistas iam citando reacções dos deputados conservadores presentes no encontro, citados sob anonimato, que davam força a May.

Um dos deputados, citado por um jornalista do Telegraph, disse que o discurso foi melhor do que qualquer que a primeira-ministra tenha feito anteriormente. E outro disse que a primeira-ministra foi “muito humilde”: “Mostrou um lado muito apelativo de si própria”.

O editor de política da revista Spectator, James Forsyth descreveu: “May parece muito mais feliz ao sair do encontro do que quando entrou. Ganhou certamente algum tempo com a actuação”.

A primeira-ministra “tinha de mostrar humildade e contrição – e foi o que fez”. Assim, resumiu o jornalista, “a falta de uma alternativa clara e o medo dos conservadores numa segunda eleição vão mantê-la no cargo durante algum tempo”.