Crítica Cinema

Tom Cruise no seu sarcófago

Esta “Múmia” século XXI manda às malvas quer o lirismo quer o humor. Leva-se muito a sério, como quase tudo aquilo em que Tom Cruise entra.

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Não é pela reciclagem, porque até é uma ideia potencialmente simpática que Hollywood se transforme, mutatis mutandis, numa coisa parecida com o jazz, e os velhos filmes, tomados como “standards”, sejam periodicamente recriados e revividos. É pela pobreza, cada vez mais estreita de vistas, com que essa recriação é feita.

A Múmia começou a sua vida em 1932, num filme do germânico Karl Freund, exemplar essencial da linha dos filmes de terror da Universal, líricos e sonambúlicos; outras variações terão existido ao longo dos anos mas a fama recente do título vem do final dos anos 90, quando A Múmia foi retomada (inicialmente pelas mãos de Stephen Sommers) e conheceu várias sequelas, cada uma pior do que a anterior, mas que pelo menos eram dominadas por um espírito farsolas de comédia de acção auto-derrisória. Esta Múmia século XXI, e de modo que faz temer (ainda mais) pelas anunciadas recuperações de outros monstros da Universal (parece que estão na calha Drácula e Frankenstein), manda às malvas quer o lirismo quer o humor. Leva-se muito a sério, como quase tudo aquilo em que Tom Cruise entra, ele que aqui está nas suas sete quintas, muito sisudo, muito sofredor, “amaldiçoado” como gosta de se sentir (não é ele que interpreta “ a múmia”, mas simbolicamente é isso que ele é, a múmia deste filme), numa intriga complicadíssima e cheia de referências de contexto (até o Iraque!) como se precisasse delas por uma questão de “credibilidade”, para depois se resumir a um amontoado de correrias e espectáculos de efeitos especiais que esfacelam e aniquilam praticamente toda a dimensão física da acção.

Christopher McQuarrie é um dos argumentistas, e hoje um dos principais colaboradores de Cruise, realizador de alguns dos seus melhores filmes dos últimos tempos, nomeadamente o mais recente episódio da Missão Impossível. Mas A Múmia é o absoluto aposto do pragmatismo límpido desse filme, trocado por um novo-riquismo tecnológico que reproduz todos os lugares comuns do “fantástico” menos imaginativo, e que se vê com a mais entediada indiferença.