Theresa May, uma primeira-ministra a tentar sobreviver "no corredor da morte"

Primeira-ministra nomeia opositores do "Brexit" para altos cargos, ainda não conseguiu acordo com unionistas da Irlanda do Norte e enfrenta vários inimigos: opositores no seu Partido Conservador e Jeremy Corbyn à espera de novas eleições este ano.

O Partido Conservador perdeu a maioria absoluta
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O Partido Conservador perdeu a maioria absoluta Toby Melville/Reuters

A tarde deste domingo foi um entra e sai na casa oficial da primeira-ministra britânica, Theresa May. O motivo foi uma já esperada remodelação governamental, para juntar os homens e as mulheres que vão fazer parte do próximo Governo, mas bastava olhar para o que aconteceu a May nos últimos dias para se ficar com outra ideia na cabeça: um a um, antigos e futuros ministros entraram no famoso n.º 10 de Downing Street como se estivessem a participar num funeral político antecipado.

Como toda a gente sabe, em política não há certezas e outras frases feitas, mas é razoável admitir que o presente não é a época mais feliz para Theresa May. Depois de o seu Partido Conservador ter perdido a maioria absoluta na passada quinta-feira, a primeira-ministra ficou com um caminho difícil para sair de uma situação que ela própria criou quando convocou eleições antecipadas – a ideia era reforçar a sua legitimidade, tanto na liderança do partido como nas negociações do "Brexit", mas o tiro saiu-lhe pela culatra e agora vê-se na posição de ter de negociar um acordo com o partido unionista da Irlanda do Norte, e rezar para que isso seja suficiente para aprovar, pelo menos, as medidas mais importantes.

O primeiro indício de que a perda da maioria absoluta pode ter reduzido a margem de manobra de May para negociar um "Brexit" mais forte foi a nomeação, este domingo, de Damian Green para dois cargos importantes: a coordenação do Governo e o equivalente à função de vice-primeiro-ministro – como primeiro secretário de Estado, Green terá de responder às perguntas semanais dos deputados quando May não puder, por exemplo. A questão é que Damian Green não só foi um defensor da permanência do Reino Unido na União Europeia, como é um defensor da própria ideia de União Europeia. Outra nomeação nesta linha foi a de Gavin Barwell para chefe de gabinete do Governo.

Em sinal contrário está o regresso ao Governo de Michael Gove, uma das figuras-chave da campanha do "Brexit". Responsável pela Educação e pela Justiça no Governo de David Cameron, volta como secretário de Estado do Ambiente – claramente uma pasta atribuída para que pudesse reentrar no Executivo, e não por ter competências específicas.

O factor "Brexit"

É um sinal de que o fim da maioria absoluta do Partido Conservador e a votação acima das expectativas no Partido Trabalhista não se ficaram a dever apenas à má campanha dos primeiros e ao inesperado carisma de Jeremy Corbyn, na linha do que disse ao PÚBLICO António Costa Pinto, investigador coordenador no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

"Há factores estruturais, como a tendência dos jovens urbanos de classe média e alta para votarem à esquerda, e alguma transferência de voto da classe trabalhadora do Partido Trabalhista para o Partido Conservador. Mas não excluiria também factores conjunturais, como a péssima campanha de Theresa May. E há um ponto muito importante: ainda não sabemos como, mas o 'Brexit' teve claramente impacto. A política mais soft dos trabalhistas em relação ao 'Brexit' pode ter sido importante", considera António Costa Pinto.

Daí que as negociações para um acordo de Governo entre Theresa May e a líder do partido unionista da Irlanda do Norte, o DUP (Partido Democrático Unionista), seja ainda mais complicado – populista, mais à direita e mais conservador do que o Partido Conservador, o DUP é um acérrimo defensor da integração da Irlanda do Norte no Reino Unido e foi o único partido no Parlamento de Belfast a fazer a festa quando os eleitores decidiram sair da União Europeia.

"Não sabemos ainda se Theresa May consegue uma plataforma de apoio relativamente estável, ou se terá de ir para o caso a caso", sublinha o investigador da Universidade de Lisboa. "As indicações começam a ser para o caso a caso, e isso coloca Theresa May, sobretudo na área do 'Brexit', perante uma dificuldade – tem de assegurar, tendo em vista os resultados eleitorais, um 'Brexit' mais demorado. Não se augura vida fácil ao próximo governo", afirma António Costa Pinto.

E ainda há a oposição interna no Partido Conservador – depois de ter apontado para o céu e de se ter espalhado ao comprido no chão, May é agora um alvo mais fácil para os pretendentes a líderes dos conservadores. Um deles é o eterno pretendente Boris Johnson, que enviou uma mensagem aos deputados do Partido Conservador, através da aplicação WhatsApp, com um tipo de linguagem que deixou os analistas convictos de que a ideia era mesmo que ela fosse tornada pública. Pede-lhes que tenham calma e fala em May como "uma mulher de qualidades extraordinárias". Mas sublinha que é preciso "pensar sobre os resultados desta eleição".

Mais brutal foi George Osborne, arquitecto da austeridade no Governo de David Cameron e actual director do jornal London Evening Standard: "Theresa May é uma mulher a caminho da execução. A única dúvida é quanto tempo vai ficar no corredor da morte."

Corbyn à espreita de novas eleições

O que está em cima da mesa, segundo as informações mais recentes, é um acordo em que o DUP se compromete a aprovar as medidas do Governo britânico nas grandes áreas. Mas pouco se sabe das contrapartidas que Theresa May terá de dar – sabe-se que o DUP não quer uma fronteira rígida com a República da Irlanda depois do "Brexit", que se bate pela extinção das taxas alfandegárias e que quer muito mais verbas para construir escolas e hospitais na Irlanda do Norte. Depois de uma descoordenação na noite de sábado sobre se já havia ou não acordo – com Theresa May a dizer que sim e a líder do DUP, Arlene Foster, a dizer que não –, poderá haver um acordo final a meio da semana. Ou isso, ou um desacordo final, com Jeremy Corbyn à espreita.

Numa entrevista à BBC, o líder do Partido Trabalhista disse que está preparado para ser primeiro-ministro ainda este ano: "Não podemos continuar com este período de instabilidade. Temos um programa, temos apoio e estamos preparados para mais uma campanha eleitoral o mais rapidamente possível, porque queremos servir as pessoas deste país com base numa agenda transformadora que recebeu um enorme apoio", disse Corbyn. Na sondagem mais recente, da empresa Survation – feita no sábado e relevada no domingo –, o Partido Trabalhista ultrapassa o Partido Conservador a alta velocidade e fica seis pontos percentuais à frente nas intenções de voto (45% contra 39%).

Mas Jeremy Corbyn também tem os seus próprios obstáculos no caminho para a liderança de um Governo – o maior deles, olhando para os resultados das eleições de quinta-feira, é a impossibilidade de formar um. "Este Governo dependerá mais do Partido Conservador e do seu pequeno aliado do que de uma oposição forte", afimra António Costa Pinto. "O Partido Trabalhista pode aumentar ligeiramente a sua pressão, mas está muito limitado – não tem alternativa, mesmo uma aliança grande seria sempre um governo minoritário, ainda com menos apoio parlamentar do que Theresa May", conclui o investigador.

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