Macron à espera de uma maioria para lá de absoluta

A reconfiguração do sistema político francês está em marcha, e acelerada. As eleições legislativas vão permitir ao Presidente ancorar o seu projecto de renovação, com os partidos da oposição em desalinho.

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Aposta feita, aposta ganha. Emmanuel Macron conseguirá fazer a recomposição do sistema político francês garantindo uma esmagadora maioria absoluta nas eleições legislativas francesas, que terão a primeira volta neste domingo. Estão dissipadas as dúvidas sobre se teria maioria suficiente para governar. As interrogações, agora, são sobre como governará com este poder de monarca absoluto republicano.

O inquérito CEVIPOF e Ipsos publicado sexta-feira pelo Le Monde, o mais amplo e continuado estudo de opinião, dá à República em Marcha de Macron entre 395 e 425 deputados — bem mais do que 289 necessários para ter uma maioria absoluta.

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As expectativas dos restantes partidos reduziram-se de forma dramática. Os Republicanos, de centro-direita, tiveram esperança de pesar o suficiente para impor uma coabitação — agora, que as sondagens prevêem que tenham entre 95 e 115 deputados, sublinham os riscos de uma maioria que abafe todas as outras tendências políticas. Os socialistas, que terão na melhor das hipóteses 32 eleitos, apanham os cacos da violenta implosão que sofreram. Tentam projectar-se no amanhã, mais do que nestas eleições, que são um pesadelo como nunca julgaram possível.

Marine Le Pen, que se sonhava já chefe da oposição, queixa-se de que é bem possível que não consiga eleger deputados suficientes para formar um grupo parlamentar de extrema-direita, o que não lhe permitirá ter acesso ao apoio administrativo e financeiro respectivo, nem ao tempo de palavra que isso representa. Embora a líder da Frente Nacional pareça bem colocada para, pela primeira vez, ser eleita deputada.

Jean-Luc Mélenchon (esquerda) também perdeu o embalo dos 19,5% que obteve nas presidenciais. Agora, as intenções de voto na França Insubmissa rondam os 11,5%. Mas também deve entrar na Assembleia — candidata-se por Marselha, num círculo eleitoral que lhe é favorável.

Presidente-rei

O novo Parlamento deverá ter então os tribunos Mélenchon e Le Pen, e também muitos deputados novos. Não só porque a República em Marcha! trouxe novos rostos, mas também porque figuras habituais durante décadas da política francesa não se recandidataram — mais de um terço optaram por ficar de fora, sobretudo por causa da nova lei de incompatibilidades, que obriga os eleitos a escolher apenas um cargo, quando até agora era possível ser presidente da câmara e ministro, por exemplo.

O Presidente Macron terá assim via aberta ao seu projecto de refundação da política e sociedade, “em torno do progressismo”, como dizia a sua formulação inicial, em 2016, ao apresentar a candidatura à presidência. Bem assente nos princípios da V República, em que o Presidente, longe de ser alguém “normal”, como pretendeu François Hollande, é um homem excepcional, à imagem do general De Gaulle, algo distante e solene, como um monarca.

As prioridades, Macron sempre o disse, passam pela elaboração de um novo código do trabalho — as negociações com os parceiros sociais foram iniciadas, mas está a gerar polémica a fuga para o jornal Libération esta semana de um documento, a partir da Direcção Geral do Trabalho, com ideias bastante mais radicais, que está a deixar os sindicatos com os nervos em franja. É um dossier com potencial explosivo — a desminagem é difícil, e apesar de ter um Parlamento favorável, Macron pode enfrentar uma rua facilmente inflamável.

Moralização minada

A moralização da vida política é uma prioridade para o seu aliado no governo, o centrista Movimento Democrático (MoDem), de François Bayrou, que tem o Ministério da Justiça. Mas esta bandeira da governação Macron — que prometeu que nenhum candidato do seu movimento seria investido se fosse visado pela justiça — começou logo a ser manchada pela revelação, feita pelo semanário Canard Enchaîné, do envolvimento do ministro Richard Ferrand num negócio imobiliário na Bretanha, a região pela qual era eleito pelo PS, do qual beneficiou a sua companheira.

Este princípio pode revelar-se uma armadilha que se vira contra o próprio caçador. Vários outros casos têm sido revelados, alguns de empregos fictícios como assistentes parlamentares — como o da mulher de François Fillon — do MoDem, um deles visando Marielle Sarnez, número dois do partido e secretária de Estado dos Assuntos Europeus. A maioria dos franceses considera que Ferrand e Sarnez devem demitir-se, diz uma sondagem Harris Interactive.

Apesar disto, 62% dos franceses dizem-se satisfeitos com a actuação do seu novo Presidente. Os seus gestos ao nível internacional — como a resposta pronta, e em inglês, ao anúncio feito por Donald Trump sobre a saída dos EUA do Acordo de Paris — terão ajudado. O apelo lançado por Macron — “let´s make our planet great again” — foi transformado num site. Diz ser “iniciativa do Presidente de França Emmanuel Macron”, e convida investigadores norte-americanos na área das alterações climáticas a irem trabalhar para França.