Eu sou o meu inferno

Maria Semple, mãe, escritora, argumentista de séries de TV, mulher de um humorista, tem gargalhada fácil mesmo quando fala de um “assunto sério”: mulheres destroçadas, com tudo para serem felizes, mas incapazes de chegarem ao fim do dia sem um enorme sentimento de frustração.

É um quotidiano embrulhando em neurose a partir de um olhar auto-irónico: Maria Semple 
diz que emocionalmente está 
a escrever sobre si própria servindo-se de outras biografias
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É um quotidiano embrulhando em neurose a partir de um olhar auto-irónico: Maria Semple diz que emocionalmente está a escrever sobre si própria servindo-se de outras biografias Elke Van de Velde

Um poeta com alma trágica guia casualmente um livro cómico. “O poema entrou e eu deixei-o estar”, justifica a escritora que cita de cor esse poema do contágio, Hora da Doninha-Fedorenta, de Robert Lowell (1917-1977) “A solitária herdeira da ilha Nautilus/ ainda passa o inverno na sua espartana casa”, e é como se a voz de Maria Semple se transformasse na voz da protagonista do seu mais recente romance, Eleanor, quando está a aprender poesia e a decorar justamente Lowell, e para numa frase “Eu sou o meu inferno”. Essa é a tragédia das mulheres criadas por Semple na ficção e Eleanor em particular. “Eu tive um professor de poesia, fiz o que a Eleanor faz, alguém muito parecido com o professor do romance, e fi-lo pelas mesmas razões da Eleanor, simplesmente deixar ir a minha mente e as minhas memórias”, conta a escritora que acaba de ver publicado em Portugal o seu mais recente romance, Hoje Vai ser Diferente (Teorema).

Maria Semple, 53 anos, mãe, escritora, argumentista de séries de televisão como Berveley Hills, 90210Mad About You ou Arrested Development, mulher de um humorista, tem gargalhada fácil, mesmo quando fala de um “assunto sério”: mulheres destroçadas, com tudo para serem felizes, mas incapazes de chegarem ao fim do dia sem um enorme sentimento de frustração. Essa felicidade não existiu e há a culpa por não ter feito melhor. É um quotidiano embrulhando em neurose a partir de um olhar cheio de auto-ironia. Maria Semple diz que emocionalmente está a escrever sobre si própria servindo-se de outras biografias. A de Bernardette Fox, arquitecta protagonista de Até ao Fim do Mundo (Teorema, 2013), e agora a de Eleanor Flood, narradora de Hoje Vai Ser Diferente, uma criativa em pausa de criação e a viver a crise de meia-idade; mãe de Timby, rapaz de oito anos, mulher de Joe, cirurgião plástico. Uma e outra partilham com Maria o mesmo território, Seattle, “a cidade menos religiosa do país”, geografia para uma sátira que valeu ao último livro de Semple o elogio de melhor romance cómico de 2016 pela revista Wired.

É o romance que se segue ao sucesso de Até ao Fim do Mundo e arranca com uma determinação. “Hoje vai ser diferente. Hoje, vou estar presente no momento. Hoje, sempre que falar com alguém, vou fitar a pessoa nos olhos e escutar com toda a atenção. Hoje, vou jogar um jogo de tabuleiro com o Timby. Vou tomar a iniciativa e fazer sexo com o Joe. Hoje, vou ter brio na minha aparência. Vou tomar banho, vestir uma roupa como deve ser e só vou enfiar o fato do ioga para a aula de ioga, à qual irei mesmo. Hoje, não vou dizer palavrões. Não vou falar de dinheiro. Hoje, terei um ar descontraído. O meu rosto estará relaxado, em repouso terá um sorriso. Hoje, vou irradiar serenidade. Serei um portento de bondade e autocontrolo. Hoje, só vou comprar produtos locais. Hoje, encarnarei o melhor de mim, a pessoa que sou capaz de ser. Hoje vai ser diferente.”

Eleanor, como Maria Semple, anda à procura de uma versão melhor de si mesma, como se o presente não condicionasse depois tudo. “Todos os dias gostaria de ser capaz de fazer melhor, mas cada dia se apresenta como uma série de falhanços nessa busca. Acho que era nisso que pensava quando escrevia o livro, em ser melhor, mais carinhosa, mais presente, mais grata. E entre a ansiedade, a distracção, os problemas emocionais chego ao fim do dia a pensar não correu bem e não fui a pessoa que queria ter sido.” Maria Semple fala desde Seattle, onde vive depois de uma longa temporada em Los Angeles. Eleanor viera de Nova Iorque. “Porquê Seattle? Joe, um bom rapaz católico dos arredores de Buffalo, não concebia a ideia de educar uma criança em Manhattan, que era a minha primeira escolha.” As razões de Eleanor não são muito diferentes das de Maria, embora esta se confesse mais pacificada com a capital do estado de Washington, no noroeste do país, que não deixa de analisar de forma irónica. Mais uma vez, como Eleanor. “Seattle tem falta de estrelas. Uma artista de animação a cair de madura e um médico dos Seahawks2 faziam de mim e do Joe o casal Beckham de Galer Street”.

Moldada pelo fracasso

Não é dificil imaginar o mesmo de Maria Semple e do companheiro, George Meyer (Simpsons), quando se mudaram para Seattle há 12 anos. Ela queria ser mãe e escrever. Dessa dupla motivação nasceria a ambivalência que lhe alimentou a criatividade. O primeiro livro, This One is Mine (2008) foi um fracasso.  Quatro anos depois veio o romance que lhe deu visibilidade internacional e a aprovação de Jonathan Franzen, Até ao Fim do Mundo. Lá estava uma mulher de meia idade, zangada com o sítio onde vive e o modo como vive, neurótica, no seu inferno pessoal, que aos outros parente ser apenas a vida d euma mulher de classe média e muitos privilégios. O último tem outra protagonista, mas retoma a temática. “Mais do que outra coisa escrevo sobre ser artista e ser mãe”, refere Semple. Sobretudo neste, onde essas duas energias, a criativa e a materna, entram em conflito.

Eleanor e Timby são forçados a passar um dia juntos. Isso não estava nos planos de um nem do outro, e um e outro lidam o melhor que podem com essa contrariedade. A acção decorre em 24 horas, com a narradora a dar elementos ao leitor que lhe permitem reconstituir a biografia daquela artista de animação que vive à sombra de uma fama passada. “Ser mãe é ser-se despojada e ter de alimentar, nutrir; e ser artista é uma actividade egoísta, requer mandar calar toda a gente para criar um mundo que apenas nos pertence a nós e do qual queremos manter toda a gente longe. Somos muito possessivos e defensivos em relação ao nosso tempo e isso é outra vez o oposto de ser mãe, quando tudo o que devemos pretender é estar com os nossos filhos”, diz a escritora, que não vê em Hoje Vai ser Diferente a continuação de Até ao Fim do Mundo. E conta que “Hoje vai ser diferente” foi mesmo a primeira frase que escreveu e a embalou no resto do romance. “Não começo a escrever sem ter uma ideia forte. No caso foi o título. A partir daí o livro começou a fazer sentido para mim”, esclarece.

Fazer uma sequela seria ceder à pressão de repetir o sucesso anterior e garante que não sentiu nada semelhante. “Acho que por ser já um pouco velha e ter uma carreira como escritora de televisão, com altos e baixos, encarei o sucesso de Até ao Fim do Mundo como uma coisa bonita, de muita sorte. Foi uma surpresa deliciosa e não faz parte da minha identidade. Quando se é novo e se tem sucesso começa-se a formar a identidade com base nisso e há muito mais pressão, tudo o que se faz é visto como um referendum sobre nós.” Semple, nesse sentido, formou-se como escritora no falhanço. “Por já ter experimentado o falhanço não encarei o sucesso muito seriamente”, acrescenta, com uma gargalhada, referindo o prazer que é sentar-se cinco horas por dia a escrever. “O modo como o livro vai ser recebido não está muito nas minhas mãos. Quero simplesmente escrever, tenho prazer enquanto estou a escrever. Isso será sempre suficiente para mim: estar envolvida no meu projecto.”

Com um ritmo rápido, diálogos de frases curtos, tiradas mordazes, espécie de pingue-pongue onde sobressai o “duelo” mãe-filho, Semple tira a gargalhada de quem se revê no incómodo dessa luta quotidiana. “Quero que as minhas personagens falem muito abertamente do que a maioria das pessoas tenta esconder. E as pessoas riem por se reconhecerem”, justifica a Maria Semple que se diz surpreendida quando a acham uma escritora cómica. “Sou incapaz de escrever uma piada, preciso de um romance inteiro para ter graça e não faço por isso. Mas estão sempre a dizer-me que tenho graça e aprendi a aceitar o cumprimento; já não rejeito, digo “obrigada”.

Robert Lowell ressurge então na conversa. “Revejo-me mais nas poucas pessoas que dizem que o que escrevo é. Acho os meus romances tristes, estas mulheres estão destroçadas e escrevi sobre elas da maneira mais honesta que sei, usando-me como padrão.” Citando mais uma vez Lowell como Eleanor no seu poema de estudo, que está reproduzido no romance, com anotações. É mais um exemplo do contágio que Maria Semple quer deixar entrar no que faz. As artes plásticas, a música, a BD, a cultura Pop, o professor que lhe ensina poesia ao pequeno-almoço. Foi assim com ela, é assim com Eleanor, depois de deixar o filho na escola. “Quando estou a escrever os meus livros deixo entrar as minhas referências, tento que se aproximem da minha vida real porque sei que posso escrever sobre isso com certa dose de autoridade. Gosto de muitos poemas, mas gosto particularmente de Hora da Doninha-Fedorenta e da figura quase trágica que foi Robert Lowell. O poema é sobre a doença mental a chegar. No primeiro esboço pensava que houvesse maior reverberação do poema na narrativa”, conta, referindo que Lowell quando falava desse poema dizia estar a tentar escrever uma versão moderna de A Noite Escura da Alma, de S. João da Cruz, poema sobre ser-se visitado pelo espírito. Tudo isso parece ecoar pelo livro. “Aconteceu sem que eu pensasse se seria muito coerente. Há coisas que acontecem acidentalmente e eu respeito esse acidente.”