Os dois cérebros políticos de Theresa May demitiram-se

O afastamento de Nick Timothy e Fiona Hill, chefes de gabinete da primeira-ministra britânica, era exigido por muitos membros do Partido Conservador, após o fiasco nas eleições antecipadas. Serão substituídos por Gavin Barwell.

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Nick Timothy e Fiona Hill já não integram a equipa de Theresa May FACUNDO ARRIZABALAGA/EPA

Eram amplamente detestados no Partido Conservador. Os dois chefes de gabinete da primeira-ministra britânica, Nick Timothy e Fiona Hill, demitiram-se, tal como era exigido pelo partido e, sobretudo no caso de Timothy, dispuseram-se a arcar com a responsabilidade da perda da maioria absoluta no Parlamento.

Nick Timothy anunciou a sua demissão neste sábado, numa carta publicada no site Conservative Home, em que diz assumir a responsabilidade pela "desilusão do resultado das eleições". Diz-se responsável pela apelidada "taxa de demência", relativa à inclusão da residência própria nos cálculos da riqueza dos utentes do serviço nacional de saúde, para eventual cobrança dos cuidados de assistência domiciliária. Este elemento do programa dos tories gerou uma revolta tão grande que May teve de recuar e é considerado um dos principais motivos da fuga do voto dos eleitores para os trabalhistas.

Fiona Hill, a outra chefe de gabinete, confirmou a sua demissão numa curta declaração publicada no mesmo site – um projecto privado nascido em 2005, que apoia os conservadores em Inglaterra mas é independente do partido. Entretanto, foi anunciado que Theresa May já tem um novo chefe de gabinete: é o anterior ministro da Habitação e do Planeamento Gavin Barwell, um conservador que perdeu o seu lugar nas eleições de quinta-feira. 

Segundo a BBC, o afastamento rápido de Timothy e Hill estava a ser exigido a May pelo partido, sob ameaça de enfrentar um desafio à sua liderança já na segunda-feira. Timothy e Hill têm sido acusados de criar uma atmosfera "tóxica" em Downing Street. Katie Prior, ex-directora de comunicações de Theresa May, disse à BBC Radio que os dois criavam um ambiente "terrível", e que não respeitavam sequer outros ministros. "Numa altura difícil, em que se negoceia o 'Brexit', são necessários diplomatas, e não lutadores de rua", afirmou.

O que isto tudo revela é uma governante acossada pelo seu próprio partido, após a aposta falhada numas eleições antecipadas. "May está sozinha, e sem amigos", escreveu no site PoliticsHome o ex-consellheiro para os media da primeira-ministra, Joey Jones. "Nick e Fi eram o cérebro do governo, todos os outros eram os membros", diz. "Theresa May sem Nick e Fi será uma figura vazia. Será muito difícil para ela funcionar sem os seus dois tenentes."

Desafio do DUP

E pela frente May tem um desafio muito duro: negociar um governo com o apoio dos dez deputados unionistas irlandeses (DUP) não é um tema pacífico no seu próprio partido, porque esta é uma formação extremamente conservadora, que se pode descrever com tendo ideias próximas da direita mais retrógrada norte-americana: é contra o casamento gay (é o único local do Reino Unido em que continua a ser ilegal), contra o aborto, céptico em relação às alterações climáticas e tem na sua direcção um bom número de criacionistas (pessoas que não acreditam na teoria da evolução de Darwin).

 Logo depois de Theresa May ter anunciado que conseguiu o acordo do DUP para começar a negociar a formação de um governo, começou a correr uma petição online contra esta coligação – que sábado à tarde já tinha mais de meio milhão de assinaturas.

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Theresa May vai ter de contar com Ruth Davidson, a lider dos Conservadores escoceses Stefan Wermuth/REUTERS

Da Escócia vem talvez o maior desafio interno a esta coligação. Ruth Davidson, a líder conservadora escocesa, é uma política carismática, que fez crescer o partido nestas eleições, contra todas as expectativas, e é gay – e por vezes é apontada como alguém que poderia vir a ser um novo rosto para liderar os tories. Davidson fez declarações a aconselhar prudência na aproximação aos unionistas irlandeses.

Os conservadores britânicos e o DUP "diferem enormemente" nas áreas da política social, incluindo os direitos das mulheres e de LGBTI, sublinhou. "O que é importante é que tentemos ajudar a promover estes direitos na Irlanda do Norte, tornado claro que não haverá nenhum recuo aqui [na Escócia ou em Inglaterra]", afirmou. Ela disse ter recebido garantias de que isso acontecerá.

Mas Davidson aconselhou o seu partido a procurar também "uma nova abordagem ao 'Brexit'" e avisou que não quer ficar de fora. "Ao não conseguir obter uma maioria absoluta, o Partido Conservador precisa agora de trabalhar com os outros. Temos de analisar outra vez o que é que queremos obter com a saída da União Europeia e eu quero estar envolvida nessas discussões."