Reportagem

Com 81 anos de diferença, põem em marcha a mesma experiência

O marchante mais velho e o mais novo que se estreiam este ano nas festas de Lisboa têm 81 anos de diferença. Mas a disparidade de idades é apenas um pormenor. Une-os a felicidade destes dias.

Fotogaleria
A marcha da Santa Casa estreia-se este ano e a da Voz do Operário comemora 30 anos. Miguel Manso
Fotogaleria
Miguel Manso
Fotogaleria
Miguel Manso
Fotogaleria
Frederico Batista
Fotogaleria
Frederico Batista
Fotogaleria
Frederico Batista
Fotogaleria
Frederico Batista
Fotogaleria
Frederico Batista
Fotogaleria
Frederico Batista
Fotogaleria
Frederico Batista
Fotogaleria
Frederico Batista
Fotogaleria
Frederico Batista
Fotogaleria
Frederico Batista
Fotogaleria
Frederico Batista

É a primeira vez que se vêem. Um chama-se João e o outro Manuel. Têm 81 anos de diferença e moram a 17 quilómetros de distância, um em Lisboa, outro em Oeiras. Parece que nada os liga, mas há algo que têm em comum além dos olhos claros: a estreia nas marchas de Lisboa.

João Mendes tem 88 anos e é reformado desde 1995, ano em que Manuel Fonseca ainda nem estava para nascer. O pequeno tem sete anos e está a acabar a primeira classe. Depois de se cumprimentarem com um passou-bem, sentam-se frente a frente numa sala da sede da Voz do Operário. As primeiras palavras são de João para o mais novo, que o ouve de olhos arregalados. “Somos colegas, estamos na mesma posição, é igual”, diz sorridente.

O nervosismo é algo que não assiste a nenhum dos estreantes. A actuação no MEO Arena avizinha-se, mas diversão e boa disposição é o que os dois mais têm levado desta experiência. Manuel representa a marcha infantil da Voz do Operário e João a da Santa Casa da Misericórdia, dois grupos que não estão a concurso mas que abrem a noite dos espectáculos de sexta-feira e domingo (2 e 4 de Junho).

Os dois garantem que não saem cansados dos ensaios, onde tanto se divertem. João acorda às seis da manhã no Bairro da Boavista e vai para a paragem duas horas depois. “Apanho três autocarros para ir desde casa até aos treinos da minha marcha”, conta ao Manuel, que lhe responde risonho: “Eu sou cá da escola, nem preciso de andar”, brinca. A motivação para que o dia da actuação chegue é evidente na expressão dos dois novos marchantes com mais de oito décadas de diferença.

Num saco azul, João traz sempre algo para oferecer. Hoje trouxe fisális. “Tenho um terreno lá em casa e cavo sempre que posso”, conta. Energia não falta ao octogenário que trabalhou 12 anos na seca do bacalhau em Alcochete e 36 como subchefe da polícia florestal de Monsanto. “Quando me levanto e lavo a cara, o meu dia está ganho”, explica, sempre com um sorriso.

As estrelas dos ensaios

Às 17h de quinta-feira dia 1 de Junho começa o ensaio da marcha infantil da Voz do Operário, na Graça. O sol bate no campo ao ar livre onde se juntam as 87 crianças dos seis aos 12 anos que ensaiam desde Março. Lá está Manuel, de boné colocado às três pancadas, a fugir de um lado para o outro, com um sorriso traquina na cara e batatas fritas no bolso. No dia seguinte, sexta-feira, às 21h30, é o grande dia para Manuel e para todas as crianças da Voz do Operário.

Tanto os mais novos como os mais velhos vão cantando e transformando os passos em marcha. “O truque é divertirmo-nos”, explica Maria, irmã de Manuel e repetente no desfile nas festas de Lisboa. Enquanto isso, o reguila acelera no triciclo que tirou a outro marchante. “É a voz, é a voz, é a voz do operário!”, ouve-se ao fundo. É tempo de largar a brincadeira e começar a ensaiar.

Noutro lado da cidade, são nove da manhã e João é dos primeiros a chegar ao centro de saúde da Santa Casa da Misericórdia na Mitra, no Beato. Os outros marchantes vão aparecendo e quando o vêem é grande o entusiasmo. Gritam ainda ao longe: “Olha o Sr. João!” ou “Sr. João! Sempre a considera-lo, bom dia!” Tudo acaba em abraços. A simpatia do mais velho desta e de todas as marchas de Lisboa, não se esgota nem por segundos: “Como vê são todos meus amigos aqui”.

O relógio marca 9h55 e as animadoras Sandra e Ana Luísa fazem a chamada um a um. Já lá estão os 52 marchantes e a camioneta arranca em direcção ao Pavilhão Desportivo Vale do Fundão. Durante o caminho, as conversas correm soltas. José Silva, um dos marchantes mais idosos da Santa Casa, com 79 anos, aproveita a viagem para ir ensaiando a letra de uma das quatro músicas que vão cantar — “Ai ai Lisboa, tão linda, tão boa”.

Ao saírem da camioneta, vê-se João preocupado em ajudar as animadoras com os sacos. “Obrigada, mas deixe estar Sr. João, estão leves, não se preocupe”, responde a Ana Luísa. Sempre pronto a ajudar, os anos passam por ele e ninguém nota. “Até os dentes são meus”, brinca. Com uma felicidade genuína pregada ao rosto, todos vão pousando as carteiras e tirando os casacos. “Isto é uma gratidão imensa que sentimos”, descreve um marchante.

A banda, e os arcos que pesam 15 quilos, já lá estão, prontos para o último ensaio antes da apresentação ao júri. Como até domingo, o grande dia para o grupo, vão poder descansar, hoje tem de se experimentar os fatos e tratar dos últimos preparativos. “O que realmente importa é que eles se sintam bem. Acima de tudo acho que se sentem orgulhosos e inseridos”, refere Sérgio Cintra, administrador da Acção Social da Santa Casa. Estes marchantes são utentes de centros comunitários, centros de dia, públicos vulneráveis, o que faz deste grupo muito mais que uma marcha.

Tenta-se reproduzir o espaço do MEO Arena. “Giraças vão para as vossas posições”, indica o ensaiador Paulo Jesus às marchantes. Os homens encontram-se perfilados ao lado dos arcos e com os cintos para os equilibrar. Nos pés, todos levam os sapatos que vão usar no dia do espectáculo. Está tudo pronto para começar o ensaio geral. 

O grande dia

E eis que chega o dia tão esperado. Estão irreconhecíveis. Com algum esforço, lá os encontramos no meio da multidão: Manuel a correr e a contribuir para a confusão natural de dezenas de crianças reunidas e João a conversar alegremente com todos os que por ele passam.

A cortina entreaberta revela o outro lado. Podia ser razão para os nervos virem à flor da pele, mas os novatos nesta experiência mantêm-se descontraídos. Irrequietos, cada um no seu dia, transpiram a simplicidade natural que tanto os caracteriza.

Os arcos já estão no ar e as letras vão na ponta da língua. Está tudo a postos para atravessar a cortina preta e desvendar o que estão a ensaiar há dois meses. A música sobe no ar. Ouvem-se as últimas palavras dos animadores: “Concentração meninos!”, diz a ensaiadora Sofia Cruz, da Voz do Operário. “Sabem que vamos ser os melhores, não sabem?”, brinca a animadora nos bastidores da Santa Casa. A alegria domina. Não há nada que estrague este momento. “A nossa roupa é tão bonita que até vai causar inveja”, comenta João antes de entrar.

Chegou a hora de passar a cortina. Na marcha do Manuel estão mais de cinco mil cadeiras ocupadas, duas delas pelo pai e pela mãe. João irá actuar para a mulher, os filhos, os netos e mais sete mil desconhecidos.

Manuel segue como se de mais um ensaio se tratasse, mas neste não pôde levar o boné na cabeça nem as batatas fritas no bolso. Diverte-se como nos outros dias, ora na roda de mãos dadas, ora a equilibrar-se em cima do skate, que entretanto vai contra uma menina no triciclo.

Já nas músicas da Santa Casa, é o empenho e a união deste grupo que se destaca. Mais dedicados do que nunca, esta marcha representa para muitos bem mais do que isso. Sacudiram a solidão, revoltaram-se contra o declínio que a idade lhes quer impor e muitos realizam o sonho de uma vida.

A correr, ao colo ou às cavalitas, as crianças da Voz do Operário despedem-se da plateia. Foi uma animação pegada durante os 20 minutos de espectáculo. “Quando lhe disse que as inscrições para as marchas estavam abertas, disse logo que queria ir, por isso o ‘bichinho’ está lá”, conta Nélia Alexandre, mãe de Manuel.

A Santa Casa despede-se numa fila mais ordeira mas em todas as caras há um traço comum: o da felicidade. “Acho que se portou muito bem”, diz orgulhosa Maria do Rosário Varandas, a companheira de João há 63 anos.

A filha mais velha, Maria de Jesus, não tem dúvidas: “Adorei. O meu pai anda tão entusiasmado e feliz e eu sei que ele gostou muito que nós estivéssemos aqui para vê-lo”. O filho Acílio acrescenta que “o fundamental foi vê-lo a viver o momento”. O neto com o mesmo nome do avô, admite que esta energia aos 88 anos não o surpreende. “Sempre conheci o meu avô assim, resiliente. É uma pessoa muito lúcida e com um bom espírito perante a vida. É um orgulho!”, comenta.

Um “até para o ano” 

De volta à sede da Voz do Operário, João e Manuel voltam a sentar-se frente-a-frente. Agora mais experientes — afinal, já marcharam, despiram a pele de novatos. Depois do passou-bem habitual, começam a falar da experiência. “Foi muito divertido”, dispara logo Manuel. “Gostei de todos os momentos”, acrescenta. João, sorridente, vai ao encontro da opinião do pequeno “A minha também foi muito bonita”, conta.

Enquanto explicam como eram a roupas que vestiam, que não estavam nervosos ou que nem ficaram cansados, João desabafa com o mais novo: “Somos felizes e somos colegas de trabalho”.

Conversa puxa conversa e Manuel lembra-se que até encontrou uma amiga da escola, ao que o dono dos cabelos brancos pergunta se essa amiga não é antes “a sua namorada”. O pequeno responde de imediato que “não” e João continua “Olha que o diabo sabe muito, porque é velho, e eu sou como ele!”, brinca.

A partir de terça-feira, dia de Santo António, as manhãs de João vão voltar a ser de passeio em vez de ensaios e as tardes de Manuel passam a ser de aulas e natação. Hoje despedem-se com um beijo na cara, na esperança de se verem na Avenida, ou então para o ano que vem, porque uma coisa é certa: querem estar de volta.

Texto editado por Ana Fernandes