Orçamento está no papo? Jerónimo ri-se e avisa: “Não está tudo sobre rodas”

“Este caminho conjunto resultou de uma conjuntura muito concreta que eu acho que não é repetível”, diz o secretário-geral do PCP.

Foto
Jerónimo de Sousa diz que PCP e PS são "adversários recíprocos" Enric Vives-Rubio

Foi ao som da Fala do Homem Nascido, de Adriano Correia de Oliveira, com versos como “não pretendo roubar nada, nem fazer mal a ninguém”, que Jerónimo de Sousa terminou a entrevista à Antena 1. Escolha do secretário-geral do PCP, claro. Apesar de estar a dar apoio parlamentar a um Governo socialista, o líder comunista deixou avisos: o executivo corre o risco de frustrar expectativas dos portugueses em algumas matérias, o Orçamento do Estado (OE) 2018 não está no papo e, num cenário de maioria absoluta do PS, o PCP não será uma “peninha no chapéu”.

Apesar de estar na rádio, quando foi questionado por Maria Flor Pedroso sobre se o OE 2018 está no papo, consegue perceber-se o sorriso, e até uma breve gargalhada, do secretário-geral quando responde. “Não”, diz Jerónimo. Defende que primeiro é preciso ver a proposta, fazer esse “exame comum”, e que para já “não se pode concluir” que o PCP está disponível para votar a favor do OE 2018: “Insistimos na necessidade de exame comum, lá estaremos no debate, nesse exame, com proposta, com iniciativa, mas é prematuro e manifestamente exagerado dizer que isto está tudo a andar sobre rodas”, disse.

Na entrevista, houve oportunidade para se falar sobre as pretensões dos comunistas no que toca à legislação laboral e às reformas das longas carreiras contributivas e Jerónimo não se coibiu de dizer ao microfone o que já disse pessoalmente ao primeiro-ministro: que “parece haver compreensão” do primeiro-ministro em relação a determinadas matérias, como as pensões, “mas o problema é a sua efectivação”. O líder comunista regista “as boas intenções”, regista a “abertura” de Costa, mas isso não lhe chega. Quer calendários, quer concretização. Sem isso, o Governo corre o risco de frustrar as expectativas legítimas" dos portugueses, que é “o pior que se pode fazer em política".

Mas na entrevista que dá nesta quinta-feira ao PÚBLICO e à Renascença, o Governo não se mostra inclinado para alinhar nas reivindicações dos partidos à esquerda. O ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social não cede aos pedidos da esquerda nas reformas antecipadas sem penalização, que não vai passar pela Assembleia da República, nem em mudar já ou profundamente a lei do trabalho.

Apesar disso, quando falou à Antena 1, Jerónimo de Sousa mostrou-se convencido que o Governo acabaria por ceder: “Não só pela nossa persistência, não só pela compreensão do Governo, mas também [porque] para os trabalhadores portugueses isto é uma questão fundamental.”

Questionado sobre a hipótese “académica”, na qual não acredita muito, de haver no futuro uma maioria absoluta do PS, o secretário-geral responde, recorrendo às suas habituais expressões: “Ninguém pense que o PCP poderia funcionar como peninha no chapéu.” Mais: “Este caminho conjunto resultou de uma conjuntura muito concreta que eu acho que não é repetível”, diz sobre a actual solução governativa.

Jerónimo de Sousa não duvida da autenticidade das declarações de Costa, quando o primeiro-ministro diz que queria continuar a contar com os partidos à sua esquerda em caso de maioria, mas o PCP não está interessado em integrar um Governo socialista. E o secretário-geral vai buscar a sua memória política para pôr em causa qualquer benefício de um governo de maioria absoluta. Diz que tem “muitos anos de experiência”, que já viveu “várias situações dessas” e que “o resultado não foi nada brilhante”.

“O grande problema é esta experiência histórica, em que sempre que se verificou uma maioria absoluta do PS, a verdade é que não tivemos uma política que correspondesse às necessidades do país e às aspirações dos trabalhadores e do povo”, disse. E, sobre eleições autárquicas, ainda admitiu que PCP e PS são “adversários recíprocos”.