O fim da bienal de design de Lisboa é "um acto de maturidade"

Guta Moura Guedes extingue ExperimentaDesign quando ela atinge a maioridade e quando nasce uma bienal de design do Porto. "Um ciclo fecha-se em todas as dimensões, inclusivamente na financeira."

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Bienal ExperimentaDesign 2015 - exposição As Far As The Mind Can See, no Palácio dos Correios mdu Marco Duarte
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Bienal ExperimentaDesign 2015: exposição Desejo, Tensão,Transição - Percursos do Design Português, na Galeria Nave da Câmara Municipal de Matosinhos. mdu Marco Duarte
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Guta Moura Guedes Miguel Manso / Publico

Acabar com a bienal ExperimentaDesign foi um “acto de maturidade” mas também uma “atitude muito difícil, muito exigente”, diz a presidente da associação que a organiza há 18 anos. A notícia surgiu três dias antes do anúncio de uma nova bienal de design no Porto e Matosinhos. Não houve uma passagem de testemunho, diz Guta Moura Guedes, rosto da bienal que nasceu em Lisboa em 1999 como uma excepção no panorama internacional e que nos últimos anos denotava desgaste e problemas de bastidores. A curadora poderá ter uma ligação com o evento a Norte, mas o seu foco será a “nova filosofia” da associação ExperimentaDesign, que sobrevive ao fim da bienal e que, diz, deixará as contas “completamente fechadas”.

O fim da bienal ExperimentaDesign, projecto emblemático de um período em que o design enquanto disciplina e prática cultural ganhou maior visibilidade em Portugal, foi anunciado há duas semanas. Mas fora formalizado já há ano e meio junto dos ministérios e autarquias com os quais havia protocolos e parcerias. Duas dessas autarquias eram precisamente Matosinhos e o Porto, que a edição de 2015 da bienal lisboeta já tinha abraçado como palco de parte da sua programação — o curador geral de uma das suas exposições-chave foi José Bártolo, investigador da Escola Superior de Artes e Design de Matosinhos, que é agora o curador geral da Porto International Design Biennale.

Por que é que continua a fazer sentido uma bienal de design de vocação internacional a norte mas já não em Lisboa? Além da conhecida presença de ensino e actividade do sector na região, abriu-se agora um espaço para a cidade do Porto perseguir um “interesse natural em ter mais eventos internacionais que a promovam”, identifica Guta Moura Guedes — a Experimenta “teve um papel determinante” na actual projecção da capital, compara a responsável, “ajudou a construir uma imagem e uma força em Lisboa”.

A primeira ExperimentaDesign foi em 1999, num momento em que “não havia nenhuma plataforma com o objectivo de discutir o design do ponto de vista internacional partindo da perspectiva da cultura”, recorda Moura Guedes. Hoje, “são mais de 60 eventos de design” pelo mundo e “o sentido de inovação que a EXD tinha em 1999 foi-se perdendo” — “o modelo está correcto”, explica, “mas já não é uma coisa que nos entusiasme”, diz sobre a associação, cujas equipas de apoio são em muito distintas das que a rodeavam na sua primeira década. Entretanto, Bártolo e o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, convidaram-na e à Experimenta a “estar envolvidos na criação” da nova Biennale. A sua resposta? “Não quereria ficar ligada à bienal a não ser em dois pontos”, a equacionar pela nova organização: “a manutenção dos Prémios Nacionais de Design” e o directório de design português D/Pt, site criado no Ano do Design Português (2014/15), de que foi comissária.

Guta Moura Guedes já falava no esgotamento do modelo da Experimenta em 2013. Mas rejeita que a programação se tenha tornado menos ambiciosa nas últimas edições, coincidentes com tensões internas e com o acumular de um passivo que há três anos situou, na revista Visão, nos 350 mil euros – a revista citava números acima dos 800 mil euros. Houve diferendos em tribunal com funcionários e perduraram queixas sobre dívidas. A crise financeira “não tem reflexos na qualidade do programa”, defende a responsável. “Tem reflexos, acima de tudo, na quantidade e nas possibilidades de aprofundamento de alguns temas.”

Na nova vida da associação, que se manterá como entidade sem fins lucrativos, Guta Moura Guedes fala da necessidade de uma “outra metodologia de financiamento” e mantém em aberto para o futuro outros formatos, da empresarialização ao modelo de fundação. Questionada pelo PÚBLICO sobre esse passivo, conflitos e sobre que impacto terá o fim da bienal nas contas da associação, a sua presidente disse que “ficam solucionados. Até Outubro de 2017”, quando termina a 10.ª e derradeira edição da bienal, “está tudo fechado relativamente a contas que a Experimenta possa ter em aberto relativamente a qualquer questão financeira”. “Nunca fecharíamos um projecto sem fechar todas as dimensões do projecto, inclusivamente a parte financeira.” A situação financeira da associação coincidiu com a sua transformação interna, diz, e “demorou uns seis anos a ser resolvida”.

Ao longo de 18 anos, a ExperimentaDesign recebeu oradores da sua família alargada, como os arquitectos Frank Ghery, Peter Zumthor, Alejandro Aravena e Eduardo Souto Moura, tocou gerações do design português como a de Fernando Brízio e Miguel Vieira Baptista, e trouxe a Portugal designers de perfil internacional como os irmãos Campana, Hans Maier-Aichen, Ron Arad, Stefan Sagmeister, Philippe Starck, Konstantin Grcic ou Marcelo Rosenbaum – 1883 convidados, diz a organização, e mais de um milhão de visitantes em nove edições. Guta Moura Guedes foi também ocupando vários cargos, no comissariado, como programadora (AllGarve) ou administradora (CCB). É co-fundadora, em 2016, da ALTA_International Creative Alliance, da qual se considera apenas “mentora” e que, diz, não é uma empresa da Experimenta, embora tenha feito vários trabalhos a ela associados, nomeadamente para os projectos Primeira Pedra (para a Assimagra), para a corticeira Amorim ou no Ano do Design Português.

Foi nesse ano que Guta Moura Guedes começou a aproximar-se do mar como tema, central no futuro da associação Experimenta — claramente focado numa das unidades que a associação cultural sem fins lucrativos mantém há anos, a consultoria de negócios. Querem actuar agora “na colocação de Portugal como um player importante e pioneiro num diálogo entre o design e a economia do mar”, num projecto que não detalha para além de indicar que “envolve universidades, os países nórdicos, Inglaterra e Espanha”. A Experimenta quer continuar a trabalhar materiais “com competência industrial” em projectos como a cortiça ou a pedra e também o “design thinking, o design estratégico”; planeia há anos um trabalho com as bordadeiras da Madeira, exemplo de “microclusters de competências artesanais onde queremos introduzir o design como veículo de inovação e de reposicionamento”, diz a presidente da associação.

Nos últimos dois dias de Setembro, a 10.ª e última ExperimentaDesign será “uma festa”, descreve, que passará pela revisão dos temas lançados ao longo dos anos e por um livro com a sua história. A sua programação deverá ser anunciada este mês.