Alt-J: “Somos rapazes da Internet que fazem coisas à antiga”

Gravaram nos estúdios Abbey Road e numa catedral e tiveram a colaboração de uma orquestra. Mas quem pensa que os britânicos se domesticaram engana-se. Em Relaxer a música volta a ser tão fascinante quanto misteriosa, reflectindo a comunicação na era da internet e o fazer quase artesanal.

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São um dos grupos britânicos mais conhecidos pelo mundo, apesar das canções folk poéticas ou as guitarras rock mais incisivas raramente serem de apreensão imediata, ainda por cima moldados por letras que permanecem na maior das abstrações

É no coração do Soho, um dos bairros mais movimentados de Londres, mas o passeante incauto dificilmente dá por ele, não existindo  indicação exterior que denuncie um discreto bar que, logo à entrada, deixa o visitante sem saber se está num ambiente antiquado ou num inqualificável espaço modernista. Faz sentido que tenha sido aí que o encontro com os Alt-J se deu. Como a sua música, é um lugar que parece deslocado no tempo, mas talvez por isso tão adaptável à contemporaneidade, com qualquer coisa de místico, conveniente para o recolhimento solitário ou para o encontro comunitário.

Foi aí que fomos encontrar Joe Newman (voz e guitarra) e Gus Unger-Hamilton (teclas e voz). De fora ficou Thom Sonny Green (bateria). “Estamos muito cansados”, avisam logo. Percebe-se. Estiveram duas semanas nos Estados Unidos e mais uma na Austrália. Regressaram à Europa há uma semana. Motivo? Têm álbum novo, Relaxer, e a comunicação do mesmo é inevitável. “Às vezes parece que nos cansamos mais nestas actividades do que quando andamos em digressão. Acaba por ser uma forma de terapia porque nos obriga a reflectir de onde viemos e onde estamos agora, mas pode ser também cansativo”, afirma Gus, rindo-se, com Joe a lançar de seguida, como se o quisesse repreender.  “Mas se não queremos um emprego normal como toda a gente é melhor não nos queixarmos.” E riem-se os dois.

Ao longo da conversa irá sempre ser assim: bem-dispostos e cúmplices. Se estavam cansados não o aparentaram, embora Gus tivesse dito às tantas que depois de muito reflectirem sobre o disco concluíram que “não existe muito a dizer sobre ele.” Dir-se-ia que os Alt-J são um daqueles grupos que gostariam que a sua música falasse por si. Compreende-se. Não é fácil falar dela.

E o novo, e terceiro álbum, é talvez o registo mais difícil. Não serão de espantar profundas divisões, mesmo entre os que acompanham o trio desde o início. É mais um caleidoscópico cruzamentos de tipologias (folk, rock, electrónicas, psicadelismos, música de câmara) que têm para propor, numa toada ritualista, em câmara-lenta, algo circular. É um álbum capaz de fascinar, mas não se espere entrar nele logo à primeira.

Se a atmosfera remete para uma experiência cósmica ou para territórios cinemáticos, a tapeçaria sonora tem um toque de folk pastoral ou de envolvimento sinfónico, com a vozes ajustadas a palavras enigmáticas, resultando daí um corpo distintivo. Essa apetência por aliar uma vontade exploratória com inteligibilidade tem definido o grupo desde o início, o que não deixa de ser surpreendente.  Talvez se esperasse que o trio formado na Universidade de Leeds em 2007 — agora a residir em Londres — viesse a domesticar a sua música, ou a engrandecê-la. Mas não.

Pop mascarado de experimental

São inventivos sem serem obscuros. Tentam desafiar-se sem perderem os laços com a sua audiência. “É música pop mascarada de experimental ou o contrário”, brinca Joe. Ou seja, continuam fiéis a uma sonoridade complexa e introvertida, capaz de desafiar definições fáceis, e longe daquilo que estamos habituados a ouvir em festivais ou arenas para as multidões. E no entanto é aí que se situam, o que faz deles um intrigante exemplo de sucesso. É claro que não são os Coldplay, mas são hoje um dos grupos britânicos mais conhecidos pelo mundo, apesar das canções folk poéticas ou as guitarras rock mais incisivas raramente serem de apreensão imediata, ainda por cima moldados por letras que permanecem na maior das abstrações.

Em 2012 tornaram-se na nova sensação britânica com o álbum An Awesome Wave, que viria a ganhar o Mercury Prize, para além de terem sido nomeados para os Grammy e de terem tocado pelos quatro cantos do mundo. Seguiu-se This Is All Yours (2014) e o sucesso manteve-se, embora a recepção crítica tenha sido menos efusiva. Percebe-se porquê. Era um disco de canções mais reflexivas e crepusculares. Dir-se-ia que o novo pega em pontas deixadas soltas por esse disco, resolvendo-as e dando-lhes novos sentidos, o que para o caso são boas notícias.

“O segundo álbum estava mais próximo da ideia de viagem, enquanto o novo é como mergulhar num universo e percorrer cada faixa no interior dele. É como se existisse uma linha invisível a ligar todas as canções. Nesse sentido assemelha-se mais a um jogo-vídeo ou a uma paisagem que vai sendo subtilmente modificada ou pintada com novas cores”, tenta esclarecer Gus.

Joe completa: “Somos rapazes da era da internet que fazem coisas à antiga. Gostamos da relação quase artesanal com o fazer. Somos uma banda muito tradicional que gosta de lançar álbuns, mesmo sabendo que já ninguém os compra e é por isso que fazemos o que nos dá na real gana. O único problema é que acaba por ser mais fácil falar de canções individuais do que de um álbum como um todo. É um paradoxo: temos dificuldade em reflectir sobre um álbum por inteiro, mas em simultâneo sentimos que existe uma narrativa a ligar todas as canções, mesmo que não saibamos exactamente o que é. De alguma forma aquilo que nos leva a lançar um disco é a sensação de que não dissemos tudo o que tínhamos para dizer no anterior. É essa insatisfação.”

Ouvindo-os parece que não existe grande planeamento naquilo que fazem. Deixam-se guiar pelo acaso. Ou será melhor chamar-lhe instinto? “Essa foi a lição que retirámos destes anos: aprendemos a confiar no instinto. Claro que escutamos pessoas em quem confiamos, mas existem momentos em que somos inamovíveis nos  propósitos e não existe volta dar”, argumenta Gus, dando o exemplo da canção Hit me like that snare, que terá começado numa inesperada sessão de improviso já quando estavam em estúdio. “Foi uma canção que começou ali e que resolvemos incluir no disco”, apesar de tal não estar previsto, justifica. “Por vezes dizem-nos que somos um pouco caóticos, mas não é verdade. Também dizem que somos eclécticos, por exemplo, mas não sentimos nada disso.”

Os Alt-J são um grupo da era da internet. Talvez venha daí a absorção fácil de géneros e épocas diferenciadas. No novo álbum existe uma reescrita de House of the rising sun (Woody Guthrie), e existem alusões à folk britânica dos Fairport Convention, ao rock dos anos 1970 personificado pelos King Crimson ou aos hibridismos para lá do rock de Beck ou dos Radiohead. Enfim, uma miríade de influências que acabam por desembocar em vozes e instrumentação que é em grande parte analógica.  Já as letras de Joe, apesar de se referirem a temas universais (amor ou morte) parecem encriptadas, não sendo fácil decifrá-las, contendo alusões literárias, como em Pleader, baseada no livro How Green Was My Valley de Richard Llewellyn. “É como se fosse a celebração pastoral de um tempo que já não existe”, reflecte, contando que a gravação foi efectuada numa catedral em Londres. “Foi aí que gravamos os coros e o som do órgão, porque desejávamos incluir a reverberação sonora de uma igreja.”

Às tantas, provocatoriamente, perguntamos-lhe se não receiam ser acusados de alienados, por nestes tempos de grande desordem sociopolítica, parecerem mais interessados em propor outros universos do que reflectir sobre o existente. “Não somos de todo apolíticos”, riposta Joe. “Assistimos com desapontamento ao Brexit. Fizemos campanha. Assinámos petições públicas. Falámos do assunto nas redes sociais Fizemos o que pudemos enquanto cidadãos. Estes não são bons tempos para quem é de esquerda e sabemo-lo. Reflectirmos os nossos pontos de vista, enquanto cidadãos, nas nossas canções faria sentido? Talvez. Mas não fomos por aí. Prefiro, na escrita das canções, expor uma certa ambiguidade, porque acredito que as pessoas que nos ouvem são criativas e capazes de criar o seu mundo a partir do que ouvem. Isso é mais criativo do que dizer-lhes o que fazer.”

Em palco como no estúdio

Entre as pessoas em quem depositam confiança está o produtor Charlie Andrew. É uma espécie de quarto membro. Foi ele, em parte, que os desafiou a trabalharem com vozes femininas convidadas — Marika Hackman ou Ellie Roswell (Wolf Alice) — e que os levou a gravar com a London Metropolitan Orchestra em cinco faixas. Tudo registado nos estúdios Abbey Road.

“A mulher do Charlie é violinista e orquestradora, então tudo o que tivemos de fazer foi ir para Abbey Road e ver tocar aqueles incríveis músicos. Foi sério. De repente já não éramos apenas três rapazes estouvados de uma banda, mas os responsáveis por aqueles trinta músicos de orquestra”, afirma Joe. “Para nós foi uma experiência diferente, mas para eles não foi nada de novo. São músicos de sessão. Ainda assim alguns vieram ter connosco e pediram autógrafos o que foi, no mínimo, um pouco embaraçoso”, ri-se Gus, esclarecendo que ouve muita música clássica e “coisas como Philip Glass, Steve Reich ou John Cage.” No fim de contas, diz, “todos trazemos as nossas influências para o grupo e isso reflecte-se no final.”

PÚBLICO -
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Apesar de todas as subtilezas sonoras do novo álbum, nos concertos que aí vêm (estão confirmados para o festival Nos Alive a 6 de Julho) serão apenas os três em palco, sem artifícios técnicos. “Quando ouvem a música deste álbum as pessoas interrogam-se como é que apenas três músicos a traduzirão em palco, mas não será nada de especial para nós”, explica Gus, “porque não tocámos nada em estúdio que não pudéssemos traduzir em palco. Esse foi um dos princípios deste disco. Pelo que a novidade serão as canções novas, apenas nós três em palco e um renovado jogo de luzes. Apenas isso.”

Em Portugal será a quinta vez que actuarão. Sempre em festivais, algo que não entendem. “Adoramos tocar nos países do Sul da Europa, mas é raro fazermos concertos em nome próprio o que é estranho, afirma Joe. “Se formos convidados para tocar numa sala de 2000 pessoas em Lisboa parece-nos que estaria lotada por isso não percebemos bem. É como se a indústria da música, no que toca às salas, terminasse nos Pirinéus franceses”, brinca Gus. “Não nos podemos queixar e claro que gostamos muito de festivais, mas ver a sério uma banda é numa sala.”

É aí que se sentem próximos do seu público. E sabem quem são, afinal, as pessoas que gostam dos Alt-J? Frequentam as redes sociais para terem essa percepção? “É engraçada essa pergunta porque nenhum de nós é muito de redes sociais”, reflecte Joe. “Quer dizer, sabemos como aquilo funciona e a psicologia associada — se pusermos algo todos os dias temos 10mil likes mas se o fizermos apenas ocasionalmente ninguém nos liga muito — mas, como digo, somos rapazes novos a fazer as coisas à antiga”, ri-se Joe, dizendo que está no Twitter e no Instagram, tendo deixado o Facebook há três anos. “Tendo a achar que fazemos música para pessoas como nós, mas como é que ‘nós’ somos?”, interrompe Gus, fazendo com que Joe se ria.

Dez anos depois de se terem conhecido, continuam um mistério. Entre eles. E na forma como se projectam para fora. A sua música é feita de elementos familiares, mas o resultado final tem qualquer coisa de enigmático. E o seu êxito não é facilmente compreensível. Foi tudo rápido para os Alt-J. “Acho que apenas agora estamos a ter consciência do que nos aconteceu e do quão fantástico foi”, dirá Joe, lá para o final da conversa. “Foi tudo muito rápido e louco no início. Éramos um grupo de amigos e de repente passamos a ser uma das bandas mais aduladas do país e, quem sabe, do mundo. Foi estranho. Na altura só reagíamos, não havia tempo para compreender o que se estava a passar. Agora é diferente.” Agora estão mais relaxados, embora o velho espírito que levou uns jovens acabados de sair da universidade a formar uma banda ainda se mantenha.

“Depois destes anos ainda não me vejo como músico a sério”, confessa Gus, “mas apenas como alguém que faz parte de um grupo chamado Alt-J e que ainda nunca teve um emprego a sério.”