Opinião

A Brexitânia vai nua

Há algo ainda mais chocante do que as palavras de Trump contra o mayor de Londres: é o silêncio de Theresa May

Entre as muitas atitudes vis de Donald Trump, poucas o terão sido tanto quanto os ataques verbais que nos últimos dias lançou contra o mayor de Londres, Sadiq Khan, a quem chamou “patético”, além de ter sugerido que os londrinos têm todas as “razões para estar alarmados” com a atitude do seu autarca. Mas há algo ainda mais chocante do que as palavras de Trump: é o silêncio de Theresa May. Até ver, a chefe de governo britânica e candidata à sua própria sucessão ainda não saiu em defesa do autarca da sua capital após o presidente de um país estrangeiro o ter tentado enxovalhar. Nada disto é normal, mas tudo isto é muito revelador sobre o estado do mundo após 2016, o ano do nacional-populismo, e vale a pena analisá-lo.

Vejamos o caso de Trump. O presidente de um país atacar o autarca de uma cidade de outro país que acabou de sofrer um atentado terrorista já é algo de tão inédito que se torna difícil de digerir. Numa penada, Donald Trump faz dois favores aos terroristas. Ajuda-os no seu principal objetivo, que é precisamente manter a população num estado de permanente alarme. E ajuda-os no seu objetivo secundário, que é sugerir que um líder político muçulmano — Sadiq Khan é filho de imigrantes paquistaneses — não pode ter lugar numa sociedade ocidental.

É aí que entra o silêncio, carregado de significado, de Theresa May. Por muito que me esforce não consigo imaginar outra situação em que a chefe de governo de um país se escusasse a defender o autarca da sua capital quando, após um ataque terrorista, este estivesse a ser atacado pelo líder de um estado estrangeiro. Não só porque a ausência de resposta resulta num enfraquecimento da autoridade pública no momento em que a população mais precisa dela, não só porque essa ausência representa uma falta ao dever de defender os poderes públicos do seu país, mas principalmente pelo que tudo isto nos diz sobre as qualidades morais da própria primeira-ministra. O silêncio, numa situação destas, é cobardia.

E o facto de Theresa May se encontrar a poucos dias das eleições só serve como circunstância agravante, desde logo porque entra em flagrante contradição com a maneira como ela tenta apresentar-se a si e ao seu país nesta fase de saída da União Europeia. No seu discurso para o exterior, Theresa May alega que o voto do "Brexit" deu ao Reino Unido as ferramentas para recuperar a sua independência e ganhar margem de manobra a nível internacional. Na prática, a atitude de Theresa May revela um Reino Unido que nunca foi tão dependente como hoje, e em nenhuma dimensão isso se revela tanto como na relação com Donald Trump.

Já se perdeu a conta às humilhações sofridas pela primeira-ministra britânica perante o presidente dos EUA. Theresa May andou de mão dada com Trump e convidou-o para uma visita de estado ao seu país horas antes de este fechar as fronteiras dos EUA aos muçulmanos de sete países, sem aviso prévio. May foi a última líder política a condenar essa medida, tal como se escusou a assinar a carta com que a Alemanha, a França e a Itália condenaram o rasgar do Acordo de Paris. Antes disso May teve de aceitar com bonomia que Trump promovesse publicamente quem queria ter como embaixador do Reino Unido nos EUA (Nigel Farage, pois claro) e, já esta semana, o seu governo teve de dizer que uma visita-relâmpago de Trump seria bem-vinda se este a desejasse fazer. Ao passo que Macron e Merkel parecem fazer gala de desafiar o fanfarrão da Casa Branca, May não se pode dar ao luxo de o fazer, e isso nota-se.

A verdade é que Theresa May precisa de Donald Trump, e precisa tão mais desesperadamente quanto mais radical for a versão do "Brexit" que apresentar perante o seu país. Por isso a personagem que ela escolheu para as eleições vai nua. A única questão agora é saber quando alguém vai reparar nisso. A partir desse primeiro momento as evidências costumam revelar-se muito rápido a toda a gente.

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