Editorial

“Não se brinca com empresas cotadas”

A história recente do país mostra que Eduardo Catroga está carregado de razão. E mesmo que ontem o antigo ministro deixasse o aviso para quem terá apresentado denúncias anónimas sobre a EDP, no futuro, a frase poderá ter outros destinatários.

A 3 de Maio de 2011, José Sócrates, então primeiro-ministro, chamou os jornalistas para apresentar o acordo a que chegara com os credores da troika. Mas preferiu baralhar os portugueses. E acabou por anunciar tudo o que não estava no acordo.

Ontem, o líder da EDP decidiu copiar quem o pôs à frente da empresa de electricidade. E convocou os jornalistas para explicar porque é que ele e o líder da EDP Renováveis, Manso Neto, tinham sido constituídos arguidos num processo em que há factos susceptíveis de configurar crimes de corrupção activa, corrupção passiva e participação económica em negócio. Mas, em vez de esclarecer, tentou baralhar.

Ouvimos que o processo é antigo, que não tem factos novos. Como se a antiguidade ou a novidade dos factos fosse o factor relevante para uma investigação criminal. Foi ainda dito que os factos em causa já foram escrutinados por deputados, vários governos e até pela Comissão Europeia. Como se fossem estas entidades as que têm responsabilidade para averiguar responsabilidades criminais. Tentou-se desvalorizar o processo por resultar de denúncias anónimas. Como se não existissem vários casos que são iniciados dessa forma. Do processo em si, zero – apesar de os responsáveis da EDP já o terem consultado.

Mas o processo que ontem foi desvalorizado pela EDP vai seguindo o seu caminho. Há mais arguidos. Sabemos que é de elevada complexidade, que a condição de arguido tem a presunção de inocência – e que vem pôr a nu o que sabíamos há muito: que a relação próxima entre o poder político e o sector da energia vem de longe.

Basta regressar aos anos da troika, aos relatórios dos credores a pedirem mais cortes nas rendas – e às conversas com os representantes desses credores em que estes encolhiam os ombros quando se lhes perguntava a razão para os cortes não avançarem com a velocidade e a profundidade que pediam. Basta ler as declarações que publicamos do antigo ministro da Economia Álvaro Santos Pereira.

A conferência de imprensa de ontem está, no entanto, longe de ter sido um desperdício. Ficámos a saber que os accionistas relevantes apoiam a 200% a gestão de António Mexia. E isso não é pouco. É muito. A EDP é controlada por capitais chineses e esses capitais preocupam-se essencialmente com três coisas: investir em activos com pouco risco. E activos com forte rentabilidade. Não podiam estar em melhor casa. Mas também se preocupam em estar concertados com o poder vigente no país onde investem. E hoje ainda não sabemos como o Governo de António Costa olha para o que se passa na EDP.

E por isso é tão importante a frase de ontem de Eduardo Catroga, o presidente do conselho geral e de supervisão da EDP: “Não se brinca com empresas cotadas.” A história recente do país mostra que Eduardo Catroga está carregado de razão. E mesmo que ontem o antigo ministro deixasse o aviso para quem terá apresentado denúncias anónimas sobre a EDP, no futuro, a frase poderá ter outros destinatários.