Mergulho na História

Neste seu novo livro de poesia, Golgona Anghel usa a História para especular hipóteses de futuro, enquanto apresenta, sem complacências, um corte transversal do nosso presente.

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Golgona Anghel é uma escritora de origem romena que vive há 20 anos em Portugal Rui Gaudêncio

No seu quarto livro de poesia, Golgona Anghel recupera uma tensão que já se fazia sentir na anterior recolha da autora, Como Uma Flor de Plástico na Montra de Um Talho (Assírio & Alvim, 2013). Essa dominante poderia ser exemplificada, entre exemplos possíveis, por um simples verso daquele livro: “Sou bem capaz de molhar o pezinho na história da barbárie”. Neste novo registo, dir-se-ia, o mergulho é completo — “Olhem aqui a nossa senhora da verdade, o senhor director,/ só figuras, só estilo:/ todos trajados de fatinho,/ e depois nadam na piscina dos pequenos.” (p.25) E não é apenas porque o título — ambíguo: pequenos são crianças, ou desvalidos? — permite a associação, mas porque, de certo modo, se extrema a atenção aos rumores de bárbaros que não param de anunciar novas investidas, nem de ganhar novas roupagens.

A História é um dos nós que se poderiam considerar fundadores para esta poesia; a inclusão da palavra “barbárie”, nesta conjuntura, não constituirá uma simples alusão a Kavafis, nem faz qualquer intercedência em favor da actualidade mais circunscrita. Dirige-se a um alvo possivelmente mais vasto, porque, à palavra “História”, deve corresponder algo mais (mas também, sintomaticamente, algo menos) do que disciplina e cronologia. Trata-se de um primado que, partindo desses pressupostos, se alastra até domínios menos previsíveis, como sejam os dessa espécie de História do tempo recente, recentíssimo, ou esquecível. Ainda que recolha vestígios no passado em sentido lato, legitimado pela ciência, e o faça com lúcido conhecimento de causa, esta poesia vale-se do que é pretérito sempre em equilíbrio conscientemente instável. Embora não reverencie a História, nem a leia com solenidade, esta poesia não despreza os seus sinais e avisos.

A História vai sendo vista, alternadamente, como conjunto e particularidade, como visão panorâmica e plano de pormenor. Uma constante, porém, parece ser o desprendimento fornecido pelo sal da ironia — “O passado é o lugar onde os nossos ex/ se juntam aos mamutes, à Céline Dion/ e ao Windows XPP.” (p.14) Porque, mesmo quando a matéria histórica é explícita, há uma força contraditória, espécie de pulsão oposta ao protocolo e à diplomacia, que subverte a tendência para a catalogação, a historieta ou a ingenuidade da vénia — “Os reis da idade média, como vêem,/ dão muita atenção/ a estas questões da eternidade./ Dizem que vale a pena./ Só tem um senão:/ tem de se trocar muitos autocarros/ para lá chegar.” (p.43) Um dos aspectos mais assinaláveis no frasear destes versos é o contra-senso neles gerado, entre o dado histórico, localizável — o túmulo de D. Dinis, no Mosteiro de Odivelas —, e o aqui e agora, que se afirma através do uso do presente do indicativo. Como no discurso de um guia turístico, ou num ponto da História onde tivesse deixado de fazer sentido escalonar épocas, hierarquias de saberes, a própria heráldica. E em que passa a ser muito mais lógico introduzir uma informação referente a transportes públicos.

Um dos efeitos da importância da História consiste na consideração de um porvir de ruína hipotética, mas não especialmente descabida. Procurada na tradição literária e filosófica — “Todos nós definharemos, disse Montesquieu,/ e junto com a vista/ iremos perder também o sono.” (p.64); “Dentro de mil anos, Hilda,/ seremos uma borra seca no fundo do tempo./ Uma praia no Inverno,/ preparada para o adiamento e para a apatia.” (p.24) — ou num empirismo que não desiste de observar os sinais do quotidiano de forma implacável — “Seremos nós e os casinos,/ monstros nocturnos a disputar a calmaria dos pântanos” (p.62). Será, possivelmente, nesse sentido que se deve entender um conjunto de versos como este: “Há muito tempo que o apocalipse/ devia ter chegado. Mas a mudança de hora/ o tem atrapalhado.” (p.73) A acumulação de tempo, os vários passados, sobrepostos em camadas que se implicam mutuamente, torna premente uma ideia de fim. Mesmo que esse fim se exprima sob um timbre sardónico. Ou por isso mesmo.

O olhar do sujeito, que refaz o percurso, nada linear, do passado para o concebível futuro, pousa, como é natural, no seu próprio presente. Se, já em Vim Porque Me Pagavam (Mariposa Azual, 2011), Golgona Anghel falava de uma “discoteca cultural”, compunha, em Como Uma Flor…, um impiedoso retrato geracional — “nós,/ enfants terribles de uma geração de saias/ revestidos de notas de quinhentos euros,/ best-sellers e prémios nacionais”. Trata-se de um quadro que Nadar na Piscina dos Pequenos revisita — “Somos, hoje, a melhor geração/ de cansados profissionais, os mais vendidos autores do acaso./ Treinamos predadores de moscas,/ limpamos passados, fígados gordos, rins cheios de diamantes.” (p.21) –, talvez de forma ainda mais explícita. Quer através da assunção de uma primeira pessoa eventualmente mais próxima do autor empírico — “Vejo-me na fila das finanças,/ um naco de carne agarrado a um recibo verde.” (p.46) –, quer por meio de uma despersonalização que quase nos permitiria falar de “monólogos dramáticos” — “Fiquei de molho mais um mês,/ emagreci um pouco,/ deixei crescer a barba/ como os artistas de teatro/ ou coisa pior” (p.54) —, com a afirmação de uma entidade claramente “ficcional”. Em qualquer dos casos, contudo, o rigor na análise não abranda, nem os gestos da análise deixam de ser cortantes, mesmo quando já não há a barreira psicológica das eras.

Quando parece estar mais presente na focagem dos poemas o próprio sujeito — entidade, como se vê, não especialmente estanque —, este situa-se, talvez não indiferentemente, num certo descentramento em relação àquilo que, em termos topográficos, é o pólo orientador da cidade de Lisboa. Vários destes poemas encontram o seu espaço em locais como “Pontinha” (p.43), de onde é possível “avistar, ao longe,/ as torres do mosteiro de Odivelas” (p.43), ou que se situam “algures, entre a estação do Oriente e o Beato” (p.59). Pontos como estes, ou como a Bobadela, que se opõe, em determinado poema, a Bruxelas, surgem como uma espécie de negativo do pulsar urbano e dominante da capital, que não chega a ser explicitamente referida, mas que parece existir como uma fronteira, um não-dito que se pressupõe, mas que não acolhe as existências e as reflexões tecidas por estes poemas. Estes espaços obedecem, naturalmente, a uma lógica diferente da cidade que lhes serve de referência e que, de alguma forma, eles têm sempre em conta. Parece existir um paralelo entre a atitude do sujeito dos poemas em relação aos dados da História. Alguma distância, um perímetro que permite a divagação, a deriva, como, outrora, alguém faria dentro da cidade — e, nesse sentido, não surgirá ao acaso a referência feita ao “velho Baudelaire” (p.54). Como se uma nova terra de ninguém se rasgasse — que se adequasse aos percursos de quem revê o passado e pressagia futuros (im)possíveis. Um cenário que não exclui a consideração do estado actual das principais cidades portuguesas, onde cada vez menos há que se possa rasgar, e onde os caminhos são crescentemente menos e estão mais cobertos.

Poderia dizer-se, com Derrida, que, à falta de um centro preciso (ou impreciso), “tudo se torna discurso”. Versos como “Noite de Natal, noite de cristal,/ noite dos Óscares, noite da Iguana” (p.28) exprimem bem esse descentramento, na sua afirmação rasante, em que a repetição do vocábulo “noite” nivela, nem por cima, nem por baixo, mas obliterando diferenciações, planos e hierarquias. Essa incapacidade, ou impossibilidade, de centro, essa espécie de “não-lugar”, a que Derrida também se referia. E onde também se inviabilizou qualquer noção de transcendência. Poderia pensar-se em apatia, naquilo a que Orwell apelidou de “aceitar” do estado de coisas, mas também no poder corrosivo da ironia e da lucidez — “Vivemos submersos num plasma nutritivo/ que nos garante um crescimento rápido e de excepção/ com talentos singulares,/ e sonhos que não precisam de ser actualizados” (p.47). Sem bandeiras, nem causas, mas com algo que subsista ainda por baixo desses sinais mais evidentes da esperança.