Opinião

"Brexit", eleições britânicas e a revolução reaccionária do séc. XVII

A história ensina, mesmo a da Revolução Gloriosa de 1688, que nunca, nem numa ilha laboratorial, se regressa ao passado.

1. Ao ler ontem Teresa de Sousa sobre o momento político britânico, lembrei-me do que aqui já escrevi sobre as raízes da política inglesa e, por oposição, das fundações da política continental. De resto, são muitas as vezes em que me tenho travado de razões com uma forte corrente da intelectualidade portuguesa que nutre uma admiração cândida e apologética pela coisa política britânica. Por vezes, fica-se com a sensação que o pasmo e o espasmo que Paris suscitava na “intelligentsia”  lusa do final do século XIX e início do século XX foi substituído, cem anos mais tarde, por um análogo frémito e entusiasmo por Londres.  A evocação desse debate despontou da ideia que domina a dita crónica de ontem: o patente regresso ao passado das propostas políticas e da idiossincrasia “ideológica” dos seus protagonistas.

2. O programa de Corbyn e o seu percurso configuram um regresso a uma mítica “idade do ouro” social e igualitária, presuntivamente encarnada nos anos 60-70. Só na área da defesa, segurança e política externa, haveria uma ruptura com a tradição inglesa, mesmo trabalhista. Mas na defesa contemporizou com a maioria do seu partido, recuando na ideia do desarmamento nuclear e fazendo uma relutante profissão de fé na NATO. Na segurança interna, os atentados recentes levaram-no a um discurso mais “securitário”, ainda que sagazmente orientado para a defesa da corporação policial (que terá perdido 20.000 efectivos desde 2010), das suas condições de trabalho e do reforço orçamental. Algo que ficou claro na tomada de posição de domingo ao criticar o consulado de Theresa May na chefia dos assuntos internos. Na política europeia, tem pergaminhos de eurocepticismo, entretanto transformados num envergonhado europeísmo e agora reciclados num nacionalismo convicto. O apelo nacional é também de um enorme conservadorismo. Corbyn, sendo trabalhista, é um político altamente conservador, nostálgico de um pretérito fantasiado.    

3. Theresa May é outrossim conservadora, fugindo da herança thatcheriana. Thatcher, ao invés da ideia feita, foi profundamente revolucionária, rompendo com tradições arreigadas do Partido Conservador (até do ponto de vista da proveniência e background social). Neste sentido, é altamente questionada a sua pertença à ideologia conservadora. O capitalismo popular era, no fundo, o sucedâneo de uma política mais social e significou, por isso, uma revolução de “classe” dentro das hostes dos tories, historicamente dominadas pela aristocracia e grande burguesia. Cameron foi aqui um líder de transição, porque adoptou a perspectiva liberal de Thatcher, mas devolveu por inteiro o partido à sua elite social tradicional. O resultado das suas políticas não foi, nem de longe nem de perto, equivalente ao do capitalismo popular. May volta agora a enaltecer as qualidades protectoras do Governo e da máquina pública e encerra-se numa linha marcadamente nacionalista, muito favorecida pelo "Brexit". A desconfiança da Europa e do seu mercado, a que entretanto aderiu, também contrasta com Thatcher. A dama de ferro foi de longe a personalidade política de um governo nacional que mais contribui para a criação de um verdadeiro mercado interno à escala europeia. Todo o projecto de Theresa May representa uma enorme analepse, um recuo ao tempo em que as ilhas britânicas eram ilhas. Desta feita sem império.

4. Será este movimento de nostalgia ideológica, de regresso às origens imaginadas, algo de surpreendente na história política inglesa? Não, simplesmente não. Em Portugal, estuda-se muito a revolução americana e a revolução francesa. E menos, muito menos, a chamada revolução inglesa de 1688. Mas essa revolução é apenas o epílogo de um século de profunda convulsão política, constitucional e bélica, iniciada em 1603 com o reinado do primeiro Stuart (Tiago I, assim denominado pela neo-escolástica de Coimbra Salamanca, onde pontificam Francisco Suárez e Francisco de Vitória). Um século em que campeou a guerra civil, um rei foi deposto, julgado e decapitado, a república foi proclamada (1649-1660), uma constituição escrita foi adoptada (1653) e até a clivagem com o catolicismo voltou em força (já antes, mas especialmente sob o reinado de Jaime II). Basicamente, os Stuarts queriam terminar com a constituição política medieval e os seus constrangimentos, inaugurando o absolutismo na Grã-Bretanha, imitando Luís XIII e XIV e os seus ministros Richelieu e Mazzarino. As lutas do século XVII inglês, que culminaram na Revolução Gloriosa, não foram, de modo nenhum, um movimento revolucionário: muito pelo contrário, foram uma dinâmica reacionária e conservadora. Os que queriam manter a constituição medieval, com o seu parlamento em estamentos e as suas cartas de prerrogativas e privilégios para camadas sociais diferenciadas, venceram e mantiveram o velho status quo. E assim, os britânicos não conheceram uma experiência política absolutista, mas, em contrapartida, conservaram uma ordem política arcaica, onde havia uma moderada liberdade, mas subsistia uma radical assimetria social. Essa velha ordem, inimiga da tirania, hostil à igualdade e amiga das liberdades, transitou directamente da poliarquia medieval para a sociedade liberal. É aqui que se cristaliza o conservadorismo britânico e a profunda tendência para recusar mudanças radicais ou substanciais. E quando elas se perfilam no horizonte, o código genético manda olhar para trás e olhar para dentro.

A história ensina, mesmo a da Revolução Gloriosa de 1688, que nunca, nem numa ilha laboratorial, se regressa ao passado. Montesquieu, no seu Ésprit des Lois (1748), mostrou ser um admirador da constituição inglesa e querer o regresso da França absolutista ao paradigma anterior. Por estes dias, resta a esperança que ecoa do dito de Louis Althusser sobre o pensamento desse Monstesquieu conservador e anglófilo: “outros antes dele partiram para Oriente e descobriram-nos as Índias a Ocidente”.

SIM

Serralves em Festa. Mais um recorde de participação num evento que é modelo de relacionamento da abertura da alta cultura à população em geral. Ana Pinho está de parabéns.

NÃO

Ministro das Finanças. Centeno continua sem explicar por que razões e sob que condições retirou três offshores da respectiva lista negra. Um procedimento anómalo e um silêncio ensurdecedor.

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