Não é preciso ter tomates para ter tomates

As Pega Monstro têm agora mais coisas a dizer. O novo disco, Casa de Cima, inscreve no presente a música popular portuguesa (e não só), com uma forma muito própria de mostrar aquilo que uma canção pode ser. Para ouvir no dia 12, no Palácio do Machadinho, em Lisboa.

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Enric Vives-Rubio

Júlia Reis levanta-se da cadeira e volta com um livro nas mãos. O Barão, de Branquinho da Fonseca, de 1942 — mas um 1942 muito a vislumbrar o que viria a acontecer em 2017, aqui, agora, em plena euforia e disforia capitalista. Lê um excerto. “Porque se luta, então, para conquistar um caminho que se sabe que não é o nosso? Somos nós próprios que traímos a nossa vida. A vida não é isto, não é ganhar dinheiro. Isto é a fase primária. As necessidades físicas pressupõem-se. Gastamos as forças a tentar alcançar o que nos devia ser dado sem pensarmos nisso e que o não é porque os homens se atraiçoaram uns aos outros como inimigos. A vida é outra coisa.”

“Tem a ver com o que a Maria estava a dizer”, afirma Júlia. Voltemos um pouco atrás, para perceber o que Maria Reis, irmã e a outra metade das Pega Monstro, estava a dizer. A pergunta: “Têm esperanças em conseguir viver da música?” A resposta: “Sim, mas o dinheiro vai ser sempre aquilo que tu não tens. Talvez seja preciso não pedir tanto.” Maria continua: “Para mim é impossível fazer outra coisa que não música. Não sirvo para mais nada. E em certa medida é um serviço público, apesar de as pessoas não aceitarem isso como tal.” Júlia remata: “Somos privilegiadas, podemos estar a viver em casa dos pais, mas é muito importante cada um perceber o que tem de fazer, o que gosta de fazer.”

Ao terceiro álbum, o novo e grandioso Casa de Cima, as Pega Monstro continuam a fazer o que gostam. E o que sabem, cada vez melhor. Em 2015, Alfarroba, o segundo longa-duração, chegou-nos com a certeza de que o rock português dos últimos anos já não seria a mesma coisa sem elas. Casa de Cima — edição conjunta da Cafetra, família que as viu nascer e crescer, e da Upset The Rhythm, editora britânica que as acolheu no disco anterior — vai mais além, por um caminho diferente. Inscreve no presente a música popular portuguesa em ligação a outras músicas, com uma forma muito própria de perspectivar aquilo que uma canção pode ser.

Vamos ouvir precisamente o que uma canção pode ser a partir das 18h de dia 12, véspera de Santo António, no Jardim do Palácio do Machadinho, em Lisboa. As Pega Monstro aliam-se à Filho Único para um arraial de Santo António que é também a festa de lançamento do disco. Além delas, vamos escutar Pato Bravo, vulgo B Fachada a fazer experiências electrónicas, e a DJ Tempos Livres. Entrada livre, sardinhada e febras, vinho e cerveja, como manda a tradição popular. Seguem-se depois outras datas, entre elas dia 16 em Amares, no festival Vira Pop, 10 de Julho no Curtas de Vila do Conde, e 29 de Julho em Guimarães, no Agora Aqui.

Antes disso, vale a pena deslindar como é que Júlia (bateria, percussões, voz) e Maria (voz, guitarra, violas) chegaram às sete canções de Casa de Cima. Tudo começou nos concertos e nos ensaios que se seguiram à edição de Alfarroba, com o duo a transformar, a estender e a fundir as secções das músicas, com várias manobras estruturais. Quem as viu ao vivo percebeu que algo estava a mudar. “A ideia inicial foi a partir de uma extensão que fizemos da Amêndoa Amarga, ao vivo”, conta Maria Reis. “Queríamos pegar nisso e fazer um disco que fosse todo de seguida. Percebemos rapidamente que isso não ia dar.”

Mantiveram-se na lógica “canção a canção”. Mas sem largar a ideia de explorar diferentes dinâmicas e nuances dentro de cada uma, o que já se insinuava em Estrada e na superlativa Amêndoa Amarga, do disco anterior. Muitas coisas aconteceram entretanto, e foram todas elas que as conduziram até aqui. Primeiro, o facto de darem concertos “como nunca”: a prática aguça o engenho. De Espanha ao Brasil, de Inglaterra a França, da Bélgica à Áustria, com “muitas portas abertas” pela Upset The Rhythm. “Demos muitos concertos de seguida. Começas de facto a tocar o disco, não a reproduzi-lo”, nota Júlia.

Depois, a vontade de “fazer pontes com o passado”. Das violas campaniças do Alentejo aos cantares polifónicos das mulheres do interior de Portugal filmadas pelo etnomusicólogo Michel Giacometti, das músicas africanas à música popular do Nordeste brasileiro. “Tirámos disto as melodias, o experimentar, o facto de, estruturalmente, as variações não serem quatro por quatro”, diz Maria. “Na música do Sertão tens improvisos dentro de dois acordes.” Há ainda a inspiração ao lado de casa, mais concretamente da cena free jazz de Lisboa. “Quando começámos a explorar as canções do Alfarroba foi muito por aí”, aponta Júlia.

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As Pega Monstro estão a levar-nos a revisitar a música popular portuguesa e a mostrar-nos, a ensinar-nos, como se pode fazê-la presente Enric vives-rubio

Também é para aqui chamada a Casa de Cima, a casa da família de um amigo, perto da Praia Grande, onde foi gravado o disco. “Fomos para lá antes, ensaiar para uma tour, e foi lá que começámos a perceber o caminho que isto podia tomar, em conjunto com o Leio [Leonardo Bindilatti, produtor do disco]”, explica Júlia. “Concordamos em tornar tudo bué claro”, desenvolve Maria. “Queríamos fazer um disco sobre aquilo que são as canções, sem nada para deitar areia para os olhos.”

Cantar o que está por dizer

Casa de Cima é menos escaldão fuzz e garage-rock do que os registos anteriores, mas sem descartar a aura punk. Concentra-se na melodia e na morfologia da harmonia, com canções mais abertas, quase subaéreas, que nos fazem entrar pela música adentro. E tanto prazer inesperado que há lá dentro. Tanta vida, tanto rasgão emocional, tanta perícia. Tanta música. Muitas coisas aconteceram entretanto, dizíamos, e foram todas elas que conduziram as Pega Monstro até aqui — até canções maiores do que a vida, como Odemira. Arranque de ardor indie-rock, passagem para bateria e percussões propulsantes que põem as duas irmãs a fazer sua própria versão de cante a despique (afinal, estamos em Odemira), para depois desaguar naquela queda invisível, arrepio perfumado a dream punk, com vozes a flutuar e a serem, no final, tão cortantes e desarmantes como um bom riff de guitarra.

As vozes são as grandes protagonistas. Ouçamos Fado da Estrela d’Ouro, crepúsculo fadista em homenagem a Lisboa, com a voz de Maria a elevar-se, seguida de Cachupa, acerto de contas com o coração em três actos, com o momento de resolução feito a bordo de uma quadra de Fernando Pessoa (passo de génio). Ou a inigualável Sensação, balada-bálsamo em fogo lento que, depois de passar por uma trituradora de guitarra e bateria, vai dar ao interior de Portugal, com o duo a interpretar, à sua maneira, o cantar polifónico de À Porta das Almas Santas, registado por Giacometti.

Tal como Éme em Domingo à Tarde, outro dos lançamentos imperdíveis do 2017 da Cafetra, as Pega Monstro estão a levar-nos a revisitar a música popular portuguesa e a mostrar-nos, a ensinar-nos, como se pode fazê-la presente. Como se pode dar-lhe continuidade, em diálogo com outras coordenadas. “Já o Zeca [Afonso] fazia isso. O [B] Fachada também. Vamos ver o que é a música tradicional, aqui e noutros sítios”, assinala Maria. “Tu consegues ver que a música tradicional portuguesa tem várias ligações com a música tradicional brasileira, por exemplo, e isso é uma grande referência para nós.”

Nesta música que é delas — e que é “referencialmente portuguesa, mas não patriota” -, as letras têm agora um papel central. E são também elas que fazem de Casa de Cima um disco tão singular. “Não escrevo as letras antes da música. Tem tudo a ver com os sons específicos da língua portuguesa. Cada verso tem de ser uma punchline e tem de encaixar nas melodias que vêm com a língua e com os sons da guitarra e da bateria”, explica Maria. “Na música cantada em português há muitas coisas que ainda estão por dizer.”

Puxamos para a conversa os seguintes versos de Cachupa: “Faço um bico/ Tou com a tusa/ Mas fiquei a escorregar”. Ter mulheres a cantar isto em Portugal, em português, é tão raro quanto necessário. E um tiro na moralidade patriarcal. “Tem a ver com falar de uma coisa que foi tomada como frágil durante muito tempo e contares a história — o amor, o sexo — de outra perspectiva”, diz Maria. “É assim que lido com as coisas, era marado não estar a dizê-las por pudor ou por causa dos estereótipos. Não é preciso ter tomates para ter tomates.” A guitarrista, tal como a irmã, tem consciência de que é urgente haver — e mostrar — mais mulheres a fazer música em Portugal. “Todo o meio é homem. Faz toda a diferença ver raparigas a tocar. Se eu vejo um cartaz só com homens não vou. Para quê?” Júlia: “A partir do momento em que há essas nuances de género, identidade e nacionalidade, tu fazes música que reflecte isso.”

E a música do duo reflecte também a Lisboa turístico-gentrificada, a Lisboa dos empreendedores de meia-tigela. “Esta merda não é nossa/ É só daqueles com a pança gorda”, cantam elas em Partir a Loiça (a canção mais próxima do disco anterior), chapada de garage-rock via Sertão que faz tremer o autoritarismo rastejante. “Ser cada vez mais difícil viver em Lisboa, em termos de subsistência e vibrações, afecta toda a gente e nós não somos excepção”, considera Júlia. “Vibrações que são o reflexo das preocupações viradas para o turismo e para o dinheiro, e não para as pessoas que vivem aqui.”

As Pega Monstro têm agora mais coisas a dizer. Voltando a Branquinho da Fonseca: elas estão a conquistar um caminho que sabem que é delas, com música que é muito delas. E nós, sortudos, estamos cá para as ouvir.