E se os Capuletos e os Montéquios fossem famílias multirraciais?

Still Star-Crossed é o drama histórico da produtora de Shonda Rhimes que continua o clássico de Shakespeare após a morte de Romeu e Julieta. A série estreia-se esta terça-feira no TVSéries.

Benvolio Montéquio (Wade Briggs). Rosaline Capuleto (Lashana Lynch) e o Príncipe Escalus (Sterling Sulieman)
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Benvolio Montéquio (Wade Briggs). Rosaline Capuleto (Lashana Lynch) e o Príncipe Escalus (Sterling Sulieman) ABC STUDIOS

É uma das obras imortais da literatura universal e um dos textos mais levados a palco em todo o mundo. Romeu e Julieta, de William Shakespeare, já passou várias vezes pela grande tela (a mais antiga adaptação cinematográfica da obra data de 1936, a mais recente de 2013), mas nunca encontrou lugar no circuito televisivo. Agora, a ShondaLand, produtora que nos trouxe Anatomia de Grey, Scandal e Como Defender Um Assassino, quis dar continuação à rivalidade entre os Capuletos e os Montéquios mesmo depois da morte dos protagonistas. Still Star-Crossed, que se estreia esta terça-feira no TVSéries, às 21h, é a história de Rosaline Capuleto (Lashana Lynch), a prima de Julieta que, por ordem do Príncipe Escalus (Sterling Sulieman), deve casar-se com Benvolio Montéquio (Wade Briggs), primo de Romeu, para poder fazer frente à violência da maior rixa familiar de Verona. Só que a relação entre os dois é tudo menos um romance.

Criada por Heather Mitchell (Scandal, Anatomia de Grey) a partir do livro de Melinda Taub, Still Star-Crossed é mais uma aposta da mulher que domina o prime-time norte-americano e, como não poderia deixar de ser, encaixa-se no molde de diversidade que caracteriza todo o seu repertório televisivo. Neste caso, Romeu é negro e o seu pai é branco. Julieta é branca, mas as suas primas, Rosaline e Livia, são negras. As duas famílias são multirraciais sem que a produção se preocupe em seguir ou explicar a lógica da diversidade. “No tempo de Shakespeare, Itália tinha cidadãos de várias culturas e raças. Fingir que não era assim é ignorância”, atira Shonda Rhimes à revista Marie Claire. A produtora executiva Betsy Beers acrescenta à mesma publicação que “o mundo era incrivelmente multicultural nos séculos XV e XVI": "Era um caldeirão de culturas, especialmente nas cidades rodeadas por água."

A regra, no entanto, tem sido entregar as personagens de Romeu e Julieta a um elenco exclusivamente composto por actores brancos. Foi assim que Hollywood sempre nos apresentou a Verona onde decorria a acção da peça de Shakespeare – salvo raros exemplos, como o filme Romeu + Julieta (1996), de Baz Luhrmann, em que Harold Perrinau interpretou Mercúcio, amigo e confidente de Romeu (Leonardo DiCaprio). Shonda Rhimes defende que a indústria do entretenimento ainda está longe de considerar um elenco como o de Still Star-Crossed a norma e não a excepção. “Existe casting racista e casting normal”, afirma. “O casting normal para mim é um processo que se centra na representação e que em muitos casos se esforça por simplesmente retratar o mundo como ele é em vez de o fazer através de uma realidade falsamente não inclusiva.”

Apesar de partir de um livro que usa pontualmente a linguagem do clássico de Shakespeare, a série optou por aproximar-se do público contemporâneo com um guião mais actual. “Em última instância, estas são personagens fantásticas, e podemos pegar nas suas histórias e usá-las de uma forma moderna”, explicou Heather Mitchell à The Hollywood Reporter.

As rodagens de Still Star-Crossed decorreram em pequenas aldeias medievais de Espanha, cenários que, a par do elenco diversificado e dos figurinos, têm arrancado elogios por parte da crítica. O primeiro episódio, porém, foi recebido com alguma hesitação por parte dos jornalistas especializados e também não conseguiu conquistar o público na sua estreia. Mas o peso do nome de Shonda Rhimes pode levar a que os ventos mudem de direcção – para já, estão apenas garantidos os dez episódios da primeira temporada.