Opinião

Uma ideia superior a qualquer profecia

É fácil saber o que desejam os tolinhos da “guerra das religiões” no tempo dos telemóveis e da Internet: desejam uma guerra das religiões.

“No meio do caminho das nossas vidas”, escreveu Dante no primeiro verso da Comédia a que chamam “Divina”, pouco depois de 1300. Na sua primeira parte pôs Maomé no sexto círculo do Inferno, Canto XXVIII, dedicado aos “propagadores de cismas”.

Entre Maomé e Dante passam mais ou menos 700 anos. Entre Dante e nós outros 700. A Divina Comédia está assim mais ou menos “a meio do caminho das nossas vidas” aqui neste pedaço de mundo mediterrânico onde se encontram e enfrentam o islão, o cristianismo e o judaísmo há milénio e meio. E eu não teria pensado nisso se, ao sair do Teatro Nacional de Lisboa no passado sábado, onde esteve em cena uma encenação do Inferno de Dante por João Brites e O Bando*, o agora ritual reacender dos telemóveis nos não tivesse alertado para um novo ataque terrorista no Reino Unido, desta vez em Londres.

O terrorismo costuma pôr-nos a pensar no muito curto prazo. A justaposição de planos naquele momento e a já costumeira deformação profissional pôs-me a desabafar no longuíssimo prazo. Um desabafo assim para dentro: milénio e meio de violência, não chega já? Não chegam já os inocentes — no passado sábado mais sete mortos por estarem no caminho de três assassinos que gostariam de nos arrastar a todos para o século VII, ou pelo menos para o século XIII, em matéria de fanatismo — vitimados pelos ataques e as retaliações recorrentes nestes 1500 anos?

É fácil saber o que desejam os tolinhos da “guerra das religiões” no tempo dos telemóveis e da Internet. Desejam uma guerra das religiões, só que no tempo dos telemóveis e da Internet. Desejam a fúria de uma certeza que lhes divida o mundo de uma forma simples: fiéis de um lado, infiéis, hereges e incréus do outro. Não querem aceitar que se conviva bem com um mundo muito mais complicado do que isso.

Apesar das radicais diferenças, há uma coisa em que um historiador pode compreender a mentalidade destes fanáticos religiosos: no recurso ao passado. O passado é, simplesmente, o grande repositório das ideias que a humanidade foi tendo enquanto tentava compreender as coisas. Ideias sempre distorcidas, adulteradas, simplificadas ou acrescentadas. O tolinho que sonha com uma “guerra de religião” pretende ir buscar ao passado a solução para as suas dificuldades em enfrentar o futuro. Só que o passado não é para apressados.

Afinal, atrás do passado há sempre outro passado. Antes de Maomé e até de Jesus Cristo este Mediterrâneo era uma terra que se podia atravessar sem estar dividida ao meio por mais do que por mar. As vidas eram feitas de um lado e do outro. Os filósofos gregos estudavam em Alexandria. Agostinho nasceu onde hoje é a Argélia e começou a ser santo em Milão. É desse mundo que vem o guia de Dante no Inferno, o poeta romano Virgílio.

E nesse mundo inventou-se uma ideia que permite resolver o presente e o futuro bem melhor do que qualquer profecia. Chama-se cidadania. Bem entendido, era uma coisa bem diferente naquele tempo, quando só alguns eram cidadãos. Mesmo imperfeitamente aplicada como era, essa ideia andou mais ou menos escondida durante quase 2000 anos. Quando regressou, veio com uma novidade radical que mudou tudo: e se todos fossemos cidadãos?

Se é para ser nostálgico de algum passado, este pede meças a qualquer outro para o futuro: ser simplesmente cidadão, dos dois lados do Mediterrâneo e em todo o lado, sem interrupção, sem preconceito nem medo. Esta é uma ideia superior à de qualquer fanático, e é disso que ele tem medo. O fanático achará que confundir muçulmano ateu e cristão, tudo cidadão, é uma heresia. Achará que quem assim pensa está já no limbo, que é o primeiro círculo do inferno. Pode ser que sim. Só que nós estamos de saída. E eles de entrada. O inferno é o ódio ao próximo.

*(a peça já saiu de Lisboa, mas pode e deve ainda ser vista no Porto entre 15 e 18 de junho, e em Coimbra, a 24 de junho)