Discurso de Bob Dylan já está no site da Academia Sueca

O mais recente Nobel da Literatura entregou finalmente à Academia Sueca o seu discurso de aceitação, no qual presta homenagem a Buddy Holly e discorre longamente sobre três livros que o marcaram: Moby Dick, A Oeste Nada de Novo e a Odisseia.

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Sete meses após ter sido distinguido com o Nobel da Literatura, Bob Dylan entregou finalmente o seu discurso de aceitação, que a Academia Sueca já disponibilizou no seu site, descrevendo-o como “extraordinário” e “eloquente”. O músico tinha até 10 de Junho para entregar a chamada “palestra Nobel”, condição para poder receber os 824 mil euros de prémio monetário.

A abrir o texto, Dylan explica que procurará reflectir de que exacto modo as suas canções se relacionam com a literatura, e aborda depois três livros que leu quando era ainda estudante liceal e que o marcaram desde então: Moby Dick, de Herman Melville, A Oeste Nada de Novo, de Erich Maria Remarque, e a Odisseia, de Homero.

Mas o seu discurso abre com uma homenagem a Buddy Holly. “Se devo recuar à origem de tudo, acho que tenho de começar com Buddy Holly”, escreve, lembrando que tinha 18 anos quando, em 1959, o compositor e cantor morreu, aos 22 anos, num desastre de aviação. “Desde o primeiro instante em que o ouvi, senti-me próximo dele, como se fosse um irmão mais velho”, conta o músico, que viajou mais de uma centena de quilómetros para assistir a um concerto do autor e intérprete de temas como That’ll be the day ou Peggy Sue. Foi a única vez que o viu e, a dado momento, a meio da sua actuação, Buddy Holly fitou-o directamente nos olhos, instante que Dylan descreve como uma enigmática epifania: “Transmitiu-me alguma coisa que não sei o que foi. E provocou-me arrepios."

Dylan diz que se formou ouvindo e cantando o reportório da música popular, dos blues às canções de marinheiros e às baladas do velho Oeste, interiorizando o seu vocabulário e a sua retórica, bem como as suas técnicas e segredos, e que quando começou a compor as suas próprias canções a sua língua era esse “jargão” da música folk. “Mas tinha também outra coisa, tinha princípios e sensibilidade, e uma visão informada do mundo”, precisa, reconhecendo o que ficou a dever à escola secundária. “Don Quixote, Ivanhoe, Robinson Crusoe, As Viagens de Gulliver, Um Conto de Duas Cidades e todas essas típicas leituras liceais dão-nos uma determinada perspectiva da vida, uma compreensão da natureza humana, e um padrão para medir as coisas”, escreve, acrescentando que os temas desses livros, de forma consciente ou involuntária, entraram nas suas canções.

O mais recente Nobel da Literatura lança-se depois numa extensa e fascinante leitura pessoal de Moby Dick, A Oeste Nada de Novo e a Odisseia, terminando com uma distinção entre as canções e a literatura: “As canções são feitas para serem cantadas, não lidas. As palavras nas peças de Shakespeare eram concebidas para serem interpretadas em palco, tal como as letras das canções se destinam a ser cantadas, e não lidas numa página”, diz o músico, fazendo votos de que os leitores do seu texto tenham oportunidade de ouvir as suas letras “em concerto, num disco, ou como quer que as pessoas hoje ouçam canções”.

E finaliza com uma citação do verso inicial da Odisseia (na tradução do poeta americano Robert Fitzgerald): “Sing in me, Muse, and through me tell the story”.

A Academia Sueca anunciou em Outubro de 2016 a atribuição do Nobel da Literatura a Bob Dylan, “por ter criado novas formas de expressão poéticas no quadro da grande tradição da música americana”. O músico não esteve presente na atribuição do prémio em Estocolmo, em Dezembro, mas enviou uma mensagem de agradecimento e fez-se representar pela cantora Patti Smith, que actuou na cerimónia, cantando um dos temas mais conhecidos (e mais literários) de Dylan: A hard rain’s a-gonna fall.

Já em Abril deste ano, aproveitando a sua presença em Estocolmo, onde deu dois concertos, Bob Dylan recebeu a medalha e o diploma do Prémio Nobel. com Lusa