Ninguém contava com outro ataque em Londres tão depressa

A tristeza abateu-se sobre Borough Market, local de diversão nocturna visado pelo terceiro ataque no Reino Unido desde Março. Campanha para as legislativas foi suspensa, mas será retomada esta segunda-feira. “Porque os terroristas não podem vencer.”

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Uma transeunte oferece flores a uma agente da polícia londrina à porta de um hospital na capital britânica Reuters/DYLAN MARTINEZ
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Foram os gritos que a alertaram. Sons de pânico que não podiam confundir-se com o barulho habitual dos bares cheios de gente numa noite de sábado. Remi Lincoln, que mora mesmo ali ao lado, saiu à rua e as dúvidas dissiparam-se de imediato. “Vinha gente a correr em pânico. Polícias a mandar toda a gente fugir. Vi um homem completamente abalado, sem conseguir falar. São imagens que não vou esquecer nunca”, conta ao PÚBLICO, sem desviar os olhos do cordão de segurança que separa a multidão de jornalistas e curiosos do enorme aparato policial montando em Borough Market, local do terceiro ataque em solo britânico em dois meses e meio.

“Já basta”, reagiu a primeira-ministra britânica, Theresa May, no final da reunião do comité de resposta a situações de crise (Cobra), antecipando a intenção de endurecer as medidas de prevenção e combate ao terrorismo.

São dias inéditos os que o Reino Unido vive. A dias das legislativas, que May convocou na esperança de reforçar o seu mandato nas iminentes negociações para a saída da União Europeia — “as mais importantes numa geração”, repetem todos os políticos —, a campanha eleitoral foi suspensa pela segunda vez, de novo por causa de uma acção terrorista. À incerteza política que tem moldado a campanha acrescenta-se agora um sentimento de insegurança, de medo, admitem alguns.

Mas, com tanto em jogo na quinta-feira, a pausa será breve. Os partidos regressam à estrada já nesta segunda-feira, tendo rejeitado de imediato a ideia de adiar as eleições. “Quem fez isto odeia as nossas liberdades. A liberdade de quem sai à noite, mas também a liberdade de votar. Não os podemos deixar vencer”, disse à BBC o ministro para o “Brexit”, David Davis. Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista, concorda: “Se permitirmos que estes ataques ponham em causa o nosso processo democrático, iremos todos perder.”

Ninguém parecia, no entanto, acreditar que um novo ataque pudesse acontecer tão pouco tempo depois de 23 pessoas, entre as quais crianças, terem morrido no atentado suicida de 22 de Maio na Arena de Manchester, reivindicado pelo Daesh. Nem que fosse tão idêntico ao de 22 de Março, quando outro extremista atropelou quatro pessoas na ponte de Westminster, perto, antes de matar à facada um polícia que vigiava o Parlamento. O nível de alerta, elevado para o grau máximo após Manchester, foi reduzido dias depois. Os serviços de informação, garantia sábado à noite a BBC, não tinham indicações de que um ataque pudesse estar iminente.

“Foi um erro”, garante Ertan Kemal, cigarro de enrolar na ponta dos dedos, de olhar também fixado no aparato policial instalado na rua que dá acesso ao mercado e, mais à frente, à London Bridge, onde várias pessoas foram atropeladas pela carrinha usada pelos três atacantes. Era motorista de autocarros em Julho de 2005, quando outros quatro extremistas mataram 52 pessoas no centro de Londres, e confessa que viveu dias de medo. Não entende, por isso, como podem as autoridades ter baixado a guarda. “Deviam ter mantido o nível de alerta no máximo pelo menos até às eleições. Talvez isto não tivesse acontecido.”

“Esta zona podia ser um alvo”

Remi Lincoln também admite que mais agentes da polícia naquele local predilecto da diversão londrina poderiam ter desincentivado os atacantes. “Não sei explicar bem porquê, mas já há algum tempo que sentia que esta zona podia ser um alvo”, diz, sob a ansiedade que na noite anterior não a deixou pregar olho — “Às sete da manhã estava a sair para ir à igreja” — e a desilusão de ver um bairro em que adora viver manchado pela violência. “Pela primeira vez na vida tenho bilhetes para um concerto e estou a pensar se devo ir”, confessa.

Chris Tuohy veio com o filhos pequenos ao Borough Market “prestar homenagem aos sete mortos e quase 50 feridos do ataque de sábado”. Vive no bairro vizinho de Brixton e concorda com Theresa May, quando ela diz que “ainda há demasiada tolerância com o extremismo” no Reino Unido. “A polícia e os serviços de informação estão a fazer um serviço fantástico, mas neste momento há tanta gente sob vigilância. Deviam juntá-los no mesmo sítio e mantê-los sob vigilância”, diz. Uma medida drástica que chegou a ser admitida no passado, mas que o antigo ministro conservador Ian Duncan Smith garantiu à BBC que não está nos planos de May, apesar de na reunião deste domingo ter sido discutido o reforço das restrições a pessoas que, não tendo sido condenadas por crimes, são suspeitas de envolvimento em grupos ou acções terroristas.

Uma vez mais, políticos e cidadãos repetem que os extremistas não vão conseguir dividir os britânicos, pôr uma comunidade contra as outras. Mas depois do atentado de Manchester aumentaram os incidentes contra muçulmanos na cidade. É isso que também teme Abdes Samed, representante da Associação de Muçulmanos do Reino Unido, que desceu a Borough High Street na companhia do pároco da igreja vizinha, de um rabi e de um imã da mesquita mais próxima para defender a união de todas as crenças contra o extremismo. “Amanhã os meus filhos vão para a escola e vão ser olhados de forma diferente por causa do que aconteceu aqui”, diz, de semblante carregado. “Estou deprimido, triste, desiludido. Não compreendo como há pessoas da minha comunidade capazes de fazer isto. Eles não sabem o que é ser muçulmano, eles não partilham a minha fé."

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