Bill Maher debaixo de fogo após usar expressão racista em directo

Apresentador e humorista norte-americano enfrenta uma onda de críticas após ter usado uma expressão com uma carga histórica pesada nos Estados Unidos. A HBO considerou o comentário “imperdoável”. Maher pediu desculpa.

O humorista apressou-se a dizer que "era uma piada" mas as críticas não pararam
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O humorista apressou-se a dizer que "era uma piada" mas as críticas não pararam Reuters/Danny Moloshok

O apresentador e humorista norte-americano Bill Maher é alvo de críticas de todos os quadrantes por ter usado uma expressão racista durante uma entrevista em directo no seu talk-show, Real Time with Bill Maher. O entrevistado era o senador republicano do Nebrasca, Ben Sasse, convidado do programa de sexta-feira. A HBO, canal em que é transmitido o programa, considerou o comentário “imperdoável” e “profundamente ofensivo”, anunciando que o excerto seria eliminado das gravações do episódio a retransmitir no futuro. Maher, entretanto, já pediu desculpa pelo uso do termo.

O incidente aconteceu quando Maher e Sasse falavam sobre um novo livro da autoria do senador. O político do Nebrasca convidava o apresentador a visitar aquele estado norte-americano, conhecido pelos extensos campos agrícolas: “Adoraríamos tê-lo connosco a trabalhar nos campos connosco”.

“Trabalhar nos campos?”, questionou Maher. “Senador, eu sou um house n-”, respondeu. O termo em causa, consideriado especialmente ofensivo nos Estados Unidos, refere-se aos escravos negros que trabalhavam em casa dos grandes proprietários agrícolas, nos séculos XVII a XIX, e que tinham tendencialmente uma relação mais próxima com o patrão do que os escravos que trabalhavam nos campos.

Apesar de num primeiro momento o cometário ter arrancado alguns risos e aplausos da plateia que assistia à entrevista, houve também críticas dos espectadores no estúdio, o que levou o humorista a sublinhar de imediato que se tratava de "uma piada”. Nas redes sociais, no entanto, a condenação foi praticamente unânime, tanto à esquerda como à direita.

“Porque é que a audiência considerou ser aceitável rir-se? E o Ben Sasse nem sequer hesitou. O que é que está a acontecer no mundo?” perguntava-se, no Twitter, o activista do movimento de defesa dos direitos da comunidade afro-americana Black Lives Matter, Deray McKesson. E acrescentou: “A sério, Bill Maher tem de ir embora. Não há explicações que tornem isto aceitável”.

O próprio canal televisivo em que é transmitido o programa desde 2003, a HBO, considerou o incidente “imperdoável”.

Maher, entretanto, pediu desculpa. “A palavra foi ofensiva e arrependo-me de a ter ditto e peço imensa desculpa”, confessou em comunicado, ainda no sábado. “As noites de sexta são sempre aquelas em que menos durmo porque fico acordado a pensar nas coisas que deveria ou não ter dito no meu programa. Ontem foi uma noite particularmente longa porque me arrependo de ter usado a palavra numa brincadeira num momento em directo”, disse ainda. 

Mesmo não tendo reagido no momento, o senador Ben Sasse escreveu mais tarde, no Twitter, que, apesar de defender a liberdade de expressão, gostaria de ter dito ao comediante: “Espera lá, porque é que achas que é aceitável usares essa palavra?”. A história associada à expressão, a “n-word”, como é chamada nos Estados Unidos “é um ataque à dignidade humana universal”, acrescentou ainda, pedindo que a expressão não seja usada.

Este é o segundo incidente numa semana a ser protagonizado por humoristas norte-americanos conotados com a esquerda. No início da semana, Kathy Griffin foi igualmente criticada por publicar uma fotografia nas redes sociais em que aparecia a segurar a réplica de uma cabeça decepada e ensanguentada do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A comediante acabou por pedir desculpas e admitir ter “ido longe demais”. A televisão CNN cancelou um contrato que tinha com Griffin para apresentar o programa de Ano Novo na sequência do incidente. Mais tarde, a humorista convocou uma conferência de imprensa a denunciar o que entende ser a perseguição e o assédio da família Trump após a polémica.