Editorial

O país pequenito!

Metro Mondego: 21 anos depois, Coimbra vai apanhar o autocarro na paragem do comboio em 2021.

A história do Metro Mondego é anedótica e paradigmática. Começou há 21 anos com a criação de uma empresa destinada a lançar uma linha de metro ligeiro de superfície no Ramal da Lousã, para substituir a ligação ferroviária entre Coimbra e a sua periferia. Tantos anos depois, não há comboio, não há metro e a ligação foi substituída por autocarros. O que hoje o ministro do Planeamento e das Infra-estruturas irá anunciar é a chegada do autocarro eléctrico, que circulará no ramal de onde foram retirados os carris, cujo custo está estimado em cerca de 90 milhões de euros, para acrescentar aos 130 milhões que a Sociedade Metro do Mondego já despendeu em estudos, obras, salários, viagens e tudo mais que se possa imaginar. Desses 130 milhões, 100 mil euros terão sido gastos por ex-administradores em despesas pessoais pagas com cartões de crédito da empresa. Um ex-presidente da administração foi absolvido e a acusação a um ex-vogal prescreveu após uma “alteração da qualificação jurídica”. Mais: fizeram-se expropriações em nome do interesse público, demoliram-se várias casas que alteraram a fisionomia da Baixinha de Coimbra (para abrir passagem ao metro), fizeram-se obras de reconstrução da linha e venderam-se habitações ao longo do percurso com o pretexto do metro à porta de casa. Uma anedota que não dá vontade de rir.  

Ao mesmo tempo, esta história é paradigmática: a febre saloia do metro de superfície e o preconceito contra o comboio travou o investimento ferroviário, arrancou os carris ao país e alimentou a expectativa de que poderíamos sonhar com estações de metro à porta de casa, numa multiplicação de matrioskas caras e desnecessárias. Teria sido mais rápido, mais barato e eficaz substituir as velhas automotoras por comboios mais rápidos e modernos, aproveitando as infra-estruturas existentes? Talvez. Resultado: as promessas de construção do metro nunca serão cumpridas, as populações e autarcas sentem-se legitimamente enganadas e mal servidas, o investimento de milhões foi um desperdício negligente e sucessivos governos foram incapazes de reparar o erro. O facto de este Portugal dos Pequenitos se erguer no Ramal da Lousã, e não na linha de Sintra ou da Póvoa, ajuda a que o caso seja menosprezado pública e politicamente. Vinte e um anos depois, Coimbra vai apanhar o autocarro na paragem do comboio em 2021. E o país vai continuar pequenito!

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