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Pequim prepara-se para assumir liderança no clima após desistência de Trump

Com os EUA fora do compromisso internacional para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, a China e outros grandes países não estão a dar sinais de recuar no seu compromisso.

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Um novo papel para o Presidente Xi Jinping: líder da diplomacia climática Anthony Devlin/REUTERS

Quando George W. Bush anunciou que os Estados Unidos não ratificariam o Tratado de Quioto para limitar as alterações climáticas, em 2001, outros países, como o Canadá ou a Austrália, liderados por políticos conservadores, aproveitaram para dizer que também não iriam aplicar o compromisso de limitar as emissões de CO2 para tentar limitar as alterações climáticas. Mas agora que Donald Trump segue a mesma política isolacionista, pode estar a reforçar a cooperação do bloco europeu com a China.

“A China vai assumir as suas responsabilidades nas alterações climáticas”, garantiu o primeiro-ministro Li Keqiang, num encontro em Berlim com Angela Merkel, antes de voar para Bruxelas, para participar numa cimeira UE-China em que se espera que seja assinada uma declaração que reafirme o compromisso destas duas partes com o Acordo de Paris. Das 60 alíneas do documento constam princípios como cortar no uso de combustíveis fósseis e desenvolver as tecnologias limpas, diz a Reuters.

“Tenho muita confiança nos chineses. São negociadores duros, mas são muito consistentes”, disse Miguel Arias Cañete, comissário europeu do Ambiente, citado pela Reuters. “Se não temos connosco o país que emite 28% do CO2 a nível mundial, não é possível ser eficaz”, reconhece. Para tentar compensar, os outros dois maiores intervenientes na “arena climática”, como diz, “declaram o seu compromisso com o Acordo de Paris”.

A China precisa dos conhecimentos tecnológicos europeus para combater a poluição que aflige de forma apocalíptica as suas cidades – deixando-as cobertas durante dias por nuvens escuras irrespiráveis, sobretudo no Inverno. E a UE precisa que Pequim acentue as acções para controlar as emissões de CO. A China consume tanto carvão como todo o resto do mundo, nas suas siderurgias e cimenteiras.

Já este ano, a China apresentou um plano, a executar até 2020, em que prevê gastar até 360 mil milhões de dólares (cerca de 320 mil milhões de euros) em energias renováveis e criar 13 milhões de empregos neste sector. Outro plano prevê um crescimento limitado do uso do carvão: em 2020, chegaria a 4100 toneladas, ou seja, um aumento de 3,5% em relação aos valores de 2015.

Pequim quer cortar no uso de carvão devido aos pesados custos para a saúde humana e nas emissões de CO2, que fazem aumentar a temperatura do planeta. "Ao rejeitar a regulamentação, Trump cria um vazio na liderança climática que a China pode preencher”, comentou ao Washington Post Alex Wang, especialista em Ambiente na China na Universidade da Califórnia em Los Angeles.

As atenções concentram-se também sobre o que fará a Índia, o outro dos três maiores pesos da balança, para além dos EUA, nas emissões de CO2. A Índia representa cerca de 4,5% das emissões de CO2. Há uns anos, a Índia resistia a comprometer-se com objectivos de reduções, defendendo o seu direito a continuar a usar carvão para se desenvolver e tirar o seu povo da pobreza. Mas o Governo de Narendra Modi desacelerou a expansão das centrais eléctricas a carvão e lançou um grande investimento na energia solar, eólica e biomassa – o objectivo é instalar uma capacidade de produção de 175 gW até 2022.  

 “A tradição indiana ensina-nos a não nos opormos ao ambiente, mas a envolvermo-nos com ele”, disse Modi esta semana em Berlim, ao ser recebido por Angela Merkel.